Antonio Conselheiro na visão de Luis da Câmara Cascudo

Por João da Mata Costa

Os sertões de Euclydes da Cunha é um livro único dentro da literatura brasileira. Pouco lido e muito citado. Um livro enciclopédia que exige paciência e bons dicionários para lê-lo. São vários os motivos que fazem o leitor ficar vário e desistir dessa tremenda aventura pelo Brasil real atravessando um longo e espesso cipoal. Cipoal feito de muitos termos técnicos e preciosismo de linguagem. É enorme o vocabulário de “Os Sertões” e felizmente alguns livros ajudam a penetrar nessa imensa selva de palavras e sabedoria do homem e da terra. Os Sertões de Euclides da Cunha talvez seja o livro mais importante para compreender o Brasil profundo, como gostava de dizer o Suassuna. Um livro Barroco. Um livro de ciência e sociologia para além de grande literatura. Um grande poema escrito nas horas vagas por um grande estilista atormentado que mostrou o Brasil para os brasileiros. A chuva de balas que soterrou com Belo Monte continua a chover em nossas selvas de pedras e favelas.

A proclamação da república brasileira foi um dos momentos mais significativos da história do Brasil. O palco da Guerra de Canudos estava no centro dessa transição e deixou cicatrizes profundas no tecido de uma história social e política que está longe de ser compreendida na vastidão dos seus significados e desdobramentos.

A relevância do massacre de Canudos é tratada de forma desigual por diferentes historiadores ou observadores da cultura brasileira. Certamente que foi um acontecimento que merece destaque no campo da sociologia, etnografia, história, artes e cultura brasileira em geral. Ao escrever “Os Sertões”, o escritor e jornalista Euclydes da Cunha colocava Canudos na história do Brasil e a figura do beato Antonio Conselheiro no coração e mente de todos aqueles que amam o seu país e história. Nos anais dessa história e no centro de uma polêmica com diferentes matizes de simpatizantes ou não com os métodos de uma guerra sangrenta que dizimou milhares de brasileiros e quis apagar do mapa um importante contraforte e vasto território no semi-árido nordestino, interior do estado da Bahia.

O objetivo do presente artigo (resumido) é pensar, através da obra de Câmara Cascudo, como um grande estudioso da cultura brasileira se insere nos estudos e na compreensão de um importante episódio de uma história que completou um século em tempo recente.

No último número da revista “Bando” (ano X, Vol 5, 1959), destinada ás comemorações no RN do 50º aniversário da morte de Euclydes da Cunha, Cascudo escreve de forma breve sobre a passagem de poucas horas do autor de “ Os Sertões” em solo potiguar. De sua visita ao centro da cidade alta e sua intenção de comprar um papagaio no cais de embarque para o Alagoas, do Loid Brasileiro.

Em o Dicionário do Folclore Brasileiro – uma de suas obras mais importantes, consultadas e referencias, o autor de “ Civilização e Cultura”, escreve um verbete muito sucinto sobre Conselheiro, A.

“Antonio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, Ceará, em 1828, e falecido de disenteria no arraial de Canudos em setembro de 1897 (Euclides informa 22 de Agosto) ….”. O Ano de nascimento do Antonio é 1830, e é prosaica a forma como Cascudo trata a forma como morreu uma personagem central da história brasileira que resistiu por três vezes ás forças armadas brasileira e, por ultimo, sucumbiu diante de um exercito de mais de dez mil homens fortemente armados e transportando pesada artilharia de canhões.

Continua Cascudo… “por motivos ignorados , tidos como desgostos domésticos, abandonara o Ceará, entregando-se a uma vida nômade, pregando moral rígida e severa…” Cascudo – um historiador sério- devia saber mais detalhes sobre a vida do conselheiro e poderia ter enriquecido muito mais o seu verbete que será tomado como referencia por muitos estudiosos. Na época de Cascudo já havia os trabalhos de referencia sobre o Conselheiro, escritos pelo jornalista, escritor e historiador do Ceará; João Brígido: Homens e Factos, RJ, Besnard 1919.

João Brígido dos Santos (1829- 1921) era oriundo de Quixeramobim e atuou como jornalista no Ceará, publicando vários artigos sobre a história do Ceará que depois seriam coligidos em livro. História sobre os clãs “Maciéis” e “Araújos”. Conselheiro fazia parte do temível clã dos Maciéis e seu pai foi um comerciante, casou duas vezes e teve três filhas afora Antonio Conselheiro (em Walnice Nogueira Galvão. Império do Belo Monte, vida e morte de Canudos). Após a morte do pai. Antonio toma conta dos negócios e contrai matrimonio. Na família muitas mortes e venditas entre as famílias rivais. Helena, sua parenta próxima, mandante de vários crimes, era considerada por Brígido como a “Nemesis da Família”. Com a derrocada dos negócios, Antonio vai embora da cidade, é preso, separa da mulher ( traição dela), e depois toma o rumo de uma vida nômade e se torna líder de uma grande comunidade em Belo Monte ( Bahia). A história depois será narrada de forma brilhante por Euclydes da Cunha.

Canudos é considerado por Cascudo, “um centro de vivo interesse sociológico e folclórico”. A história mostrou que ele tinha razão. É cada vez maior o interesse sociológico e artístico sobre o arraial de Canudos e sobre um dos acontecimentos mais significativos na instituição da república no Brasil. Em sua obra, Câmara Cascudo mostra um certo fascínio pela monarquia e podia ter tratado com mais vagar e interesse a saga do bravo e destemido conselheiro. Se ele morreu de disenteria não tem importância diante de seu corpo morto estendido no chão após um taque de milhares de soldados e coronéis armados numa luta desigual. Canudos não foi só um sonho de um visionário e líder de uma comunidade altamente avançada. Líder de um povo para quem ele deu alguma esperança.

Canudos foi uma questão religiosa, depois passou a ser econômico – capitalista, depois política, escreveu José Calazans, nascido em 1915, e um dos seus maiores estudiosos.

O que Cascudo escreveu sobre o Conselheiro e sua saga é pouco diante da tremenda importância cultural, social e política do tema. Cascudo é referencia e porta-voz de uma história sobre a qual ele tem muita responsabilidade ao narrar para a posteridade. Sei que o foco é uma questão pessoal, mas não se pode esconder o que salta e grita aos nossos olhos marejados e orgulhosos de pessoas que lutam por um ideal. Antonio Conselheiro é o meu Quixote Brasileiro.

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Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 24 de março de 2015 22:13

    A História de Antônio Conselheiro por si só e fascinante, o que dirá se sua importância sociológica cultural e folclórica,que infelizmente é pouco vista e estudada.Um homem do sertão que lutou pelos seu ideais de liberdade e justiça para seu povo, como disse o autor ,”Antônio Conselheiro é o meu Quixote Brasileiro”, creio que Conselheiro foi realmente o é, belo texto.

  2. Damata Costa 13 de março de 2015 14:50

    Aniversário de Antônio Conselheiro
    13/3/1830, Quixeramobim (CE)
    22/9/1897, Canudos (BA)
    Filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus, Antônio Vicente Mendes Maciel ficou órfão da mãe aos seis anos. Estudou aritmética, português, geografia, francês e latim. Entre suas leituras preferidas estavam as aventuras do imperador Carlos Magno e dos 12 pares de França, A Missão Abreviada e As Horas Marianas.

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