Antonio e João

Por José Daniel Wisnik
O GLOBO

A fala de Antonio Candido era só aparentemente anedótica

O impacto da presença de Antonio Candido na Flip foi comparado ao de uma espécie de Frank Sinatra da nossa crítica literária.

Acho mais pertinente compará-lo a João Gilberto. As personalidades são muito diferentes, evidentemente, além do estilo, da matéria e das linguagens de cada um. Mas estou pensando no domínio absoluto da expressão, comum aos dois, na capacidade de superar a oposição entre o simples e o complexo, e no fato de ambos ocuparem esse lugar algo fora do alcance e como que fora das turbulências contemporâneas, de onde raramente saem a público.

O que trouxe excepcionalmente Antonio Candido à Flip não foi nada a mais nem a menos do que uma dívida de amizade com Oswald de Andrade, que morreu há quase sessenta anos. Digamos que ele, Candido, habita um tempo distinto do imediatismo contemporâneo. Num artigo recente (publicado na “Ilustríssima” da “Folha de S. Paulo”), Lorenzo Mammì diz que João Gilberto, por sua vez, habita o tempo suspenso que se entreabriu no meio dos anos 1950, quando a cultura industrial da primeira metade do século 20 já não vigorava propriamente, mas ainda não tinha virado o circo midiático do consumo. Com suas repetições irrepetíveis, seu isolamento intocável, João Gilberto testemunha silenciosamente as imensas possibilidades de criação e de desprendimento que se entreabriram naquele período (o tempo sem tempo que permitiu Miles Davis e Godard, diz Mammì, e Fellini e Antonioni, poderíamos dizer por ele).

Antonio Candido, que veio da crítica militante de jornal para a crítica universitária, e que supera amplamente as limitações das duas, acaba por dizer silenciosamente algo parecido, com o seu recolhimento. Eles são a realização, guardada no tempo, de promessas históricas que não foram continuadas , e pairam com justiça, por essa e outras mil razões , como verdadeiras entidades, acima de tudo o mais.

A Flip, por sua vez, que é o mais bem-sucedido evento literário brasileiro de todos os tempos, dá lugar ao aparecimento de contradições sintomáticas interessantes, não desligadas disso. Não é fácil falar dela na dupla condição de observador e de participante. Mas há cinquenta e cinco semanas que eu falo aqui dos assuntos mais envolventes que vivi na semana, e não há como ser diferente hoje. É esperável que, num país pouco letrado na média, um acontecimento literário com essa visibilidade interesse também como um substituto da leitura, uma ocasião para se ter com essas aves raras, os escritores, o tipo de contato que se tem com celebridades de outras áreas. Daí que uma parcela do público, uma parcela de nós, espere presenciar tiradas de efeito, revelações confidenciais, declarações provocativas, expansões emocionais, sem supor a concentração da leitura.

Nada contra tiradas, revelações, provocações e emoções. O momento considerado mais comovente da Flip, quando o escritor português valter hugo mãe leu seu texto sobre o Brasil visto de sua pequena cidade no Norte de Portugal, durante sua infância e adolescência, foi um show de inteligência e sensibilidade, inseparáveis. Tudo o que ele dizia ao longo da sessão tinha agilidade, concisão, humor temperado de autoironia e lucidez sobre literatura e vida, sem deixar de provocar lágrimas, como em mim. Aquilo era literatura. A argentina Pola Oloixarac, que contracenou com ele, e cuja mente anárquica era também interessante, acusou-o, pós-Flip, de apelação sentimental, envolvendo- se os dois numa polêmica que contava certamente com o deleite e a instigação de jornalistas.

O ponto a que me refiro é a tentação de opor automaticamente performances capazes de entreter o público a performances tidas como excessivamente intelectualistas e acadêmicas. Em primeiro lugar, esse é um falso problema quando supõe que a atenção do público seja necessariamente oposta à reflexão. Não é isso que se vê de uma maneira geral. Em segundo lugar, a diferença entre entretenimento e crítica tem que ser afirmada contra a tendência, também existente, à conversão do mundo num talk-show generalizado — no limite extremo, numa espécie de compulsória jô-soarização da cultura.

Dando um depoimento precioso em cada filigrana sobre a percepção do personagem Oswald de Andrade em seu tempo, a fala de Antonio Candido era só aparentemente anedótica. Ela meditava sobre as condições que dificultavam a leitura do escritor por seus contemporâneos, ao mesmo tempo em que faziam dele uma poderosa e controvertida lenda cercada de anedotário por todos os lados. Tecia reflexão sobre diferentes formas de sobreposição entre biografia e obra, e acabou por ilustrar o talento verbal de Oswald com a análise concentrada de um chiste. Em suma, mobilizou todos os fundamentos da crítica literária, quase como se não o percebêssemos. Porque a limpidez da fala, além de tudo, falava por si mesma.

E deixava aberta a pergunta sobre o destino da obra de Oswald para as gerações seguintes, sobre as novas versões do mito que se produziram em torno dele e sobre as dimensões trazidas pelas novas leituras e releituras. Foi Marília de Andrade, filha de Oswald, que sugeriu ao professor que eu o acompanhasse na aventura, para que ele não arcasse com a tarefa excessiva de falar uma hora (embora tenha esbanjado energia, do alto dos seus quase 93 anos, nesse dia de Flip). O curador me avisou ainda que o tempo total disponível seria não de 60, mas de 90 minutos. Alguns jornalistas de São Paulo falaram de uma tramada e falhada cerimônia de passagem de bastão. Tudo é mais simples que isso. E João Gilberto não passa bastão.

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