Antonio Ronaldo: um poeta

Por Marcel Lúcio *

Uma vez, num texto sobre semiótica, existia uma passagem discorrendo sobre o esquecimento. Esquecer seria uma forma de se preservar a vida, porque, apagando da memória as coisas ruins, a cabeça ficaria menos pesada. Acontece que não são esquecidos apenas os fatos desagradáveis. Muita coisa boa, se não utilizada, fica a comer poeira. O esquecimento pode ser injusto. Na vida e na literatura.

Nos anos 70 e 80 do século passado, existiram grupos de poetas que se destacaram pela produção marginal. Mimeografavam seus poemas em papéis fajutos e os lançavam para a efemeridade. Muitos desses poetas e poemas foram esquecidos. Não foram respeitados pela academia. O movimento para a construção de uma literatura alternativa foi mundial. Geração Beat, manifestações contraculturais, rock and roll, Tropicalismo, Cinema Novo, valorização da cultura popular, que também era e é marginalizada, e recusa do autoritarismo e das verdades absolutas do sistema capitalista. Enfim, resistência cultural. Restou o de sempre: esquecimento.

Pegando, no entanto, um pouco de areia, água e cimento talvez seja possível reconstituir o que passou e não ficou. O tempo é curto, é dinheiro, é saturado e deixa a memória fraca, por isso, um poeta dessa época será escolhido para ser lembrado e depois esquecido novamente: Antonio Ronaldo.

Antonio Ronaldo nasceu em Mossoró, no ano de 1957. Aos 13, mudou-se para Natal, onde reside até hoje. Tendo vindo estudar na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte e, depois, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, travou contato com pessoas ligadas ao cenário artístico local, como Fernando Mineiro (que resolveu se dedicar à política), Adriano de Sousa e outros poetas da geração mimeógrafo. Recebeu influências das propostas poéticas alternativas, das vanguardas e de nomes consagrados da MPB – Música Popular Brasileira: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa.

Desde pequeno, sério e reservado, escrevia e tocava para preencher este vazio que se chama vida. Iniciou sua produção poética “mais séria”, como diz, em 1977. Seu primeiro livro Usura colonial ou do incesto histórico entre nós e eles saiu em 1978, mimeografado, em parceria com Adriano de Sousa. Ainda em formato mimeógrafo, publicou Matéria plástica (1980) e Amante Ladino (1985). Lamentavelmente, o poeta não possui mais exemplares desses livros nem os poemas que publicou nos jornais alternativos da época. Em setembro de 2000, última chance para publicar no século vinte, conseguiu apoio editorial e lançou Badulaques bombons/ Stars afins/ Certas canções insertas. Em 2003, publicou a coletânea de poemas Jeans avariado.

No campo musical, Antonio Ronaldo é um atuante compositor. Possui várias músicas de sua autoria cantadas por bons intérpretes do Estado: Cida Lobo, Donizete Lima, Geraldo Carvalho, Lane Cardoso, entre outros. É também intérprete e instrumentista e, apesar da relutância para gravar um trabalho musical solo, lançou, em 2009, o CD Sátiro, com composições suas e em parceria com outros artistas, como o poeta de sua geração João Batista de Morais Neto. Na verdade, a demora em gravar revela o fato de não gostar de estar na vitrine, em evidência, postura coerente com sua conduta de poeta marginal.

Os versos de Antonio Ronaldo são marcados pela coloquialidade, musicalidade, humor, nostalgia e resistência, como bem observou Marize Castro em artigo publicado na Tribuna do Norte, no dia 14 de outubro de 2001. Porém, o aspecto fundamental da poesia de Antonio Ronaldo é a liberdade. Segundo o poeta: “Na minha poesia está toda a indignação que eu tenho das pessoas não serem livres o suficiente. A poesia precisa, mais do que tudo, negar essa subordinação que o mundo da vida da gente tem do mundo dos sistemas, do mundo das regras. A poesia é um elemento fundamental para nos resgatar dessa onda que nos arrasta. A gente está permanentemente sendo conduzida para uma vida contaminada pelas razões, por uma sensibilidade que não é autêntica. A sensibilidade legítima é aquela que nos humaniza, e a poesia tem compromisso com isso”.

A busca pela liberdade talvez decorra do fato de Antonio Ronaldo haver sido um garoto tímido. Hoje, na idade adulta, o poeta diz que tenta resgatar, em sua personalidade e em sua obra, as brincadeiras que não brincou na infância. Outro traço que chama a atenção em sua poesia é o lirismo. Não aquele lirismo alegre e esperançoso, ingênuo, mas sim um lirismo cético e com toques de melancolia e descrença no amor entre um homem e uma mulher, como se pode observar no poema a seguir: “O que dizer da paixão abrasiva / de uma mulher efêmera / por um homem duradouro? / O mesmo que já se diz / do amor, quiçá martírio / de uma mulher duradoura / por um homem efêmero”.

Não importa o tempo, a memória, o esquecimento. Se efêmero ou duradouro, não faz diferença. O fato é que o poeta que é poeta mesmo não necessita estar nas academias de letras, universidades, jornais ou revistas. O poeta de verdade constrói a sua história com seriedade e sem ambições. Cabe ao público lê-lo ou deixá-lo de lado. Todo poeta autêntico, a exemplo de Antonio Ronaldo, é um pouco marginal e marginalizado.

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira
IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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