Ao pé da cordilheira

Por Demétrio Diniz

Andamos sobre uma ponte do Mapocho. Estamos em Bela Vista, um bairro cheio de barraquinhas, onde as pessoas sentam e bebem. As barracas se estendem como roupas secas num longo varal.

Sobre a ponte a anã empurra uma cadeira de rodas com um homem de cabelos grisalhos dentro. A cadeira emperra em uma fenda da calçada. A anã força a locomoção, mas nada, a cadeira enganchou. Centenas de pessoas atravessam a ponte e passam sem vê-la arfar.

Um pouco mais à frente, um homem com pernas de pau toca saxofone no semáforo. O artista, ou porque está muito alto ou porque os vidros dos carros não se abrem, não recolhe dinheiro. O esforço e a música se perdem na noite nevoenta.

E logo adiante, num pequeno canteiro, outro homem se esfalfa em pregação. De paletó e gravata, fala dos profetas, de João – o precursor, Mateus e Lucas. Dá também a impressão de estar bêbado. Anda para cima e para baixo com a bíblia na mão, espuma como se raivoso. Parece ter sido uma pessoa culta, ensandecida agora pelo álcool ou fanatismo.

Com um corte no pé ando de chinelo na noite de Santiago, o que ninguém, nem os mais pobres, faz naquela estação fria de outono. Devem pensar que sou também mais um desventurado neste cenário noturno da urbe, o que andaram perto de acertar, pois naquela hora não me movo feliz.

Volto do caminho, estou interessado no desfecho da luta da anã. Já se passou algum tempo, certamente não a verei mais. Deve ir longe. Mas encontro-a no mesmo lugar, a cadeira ainda presa na fenda. O homem sentado de cabelos grisalhos tem a cabeça inclinada para a esquerda e um olhar bovino de resignação. A anã se apoia na amurada, descansa de costas para o Mapocho.

Contista e poeta. Autor, entre outros, dos livros de poesia “Haveres”, “Ferrovia”, “Beleza Distante”, e de contos “Sob o Céu de Natal”, “Idas e Vindas de São Serapião”, “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”. [ Ver todos os artigos ]

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