Aos 87 anos, Dosinho está em coma

Tristíssima notícia recebi agora há pouco da pesquisadora Leide Câmara. Nosso principal compositor de marchinhas carnavalescas está em coma após uma infecção generalizada. Segundo os médicos informaram à família, “só um milagre” salva Dosinho.

Entrevistei Dosinho há uns 5 anos. Papo longo que rendeu oito páginas na revista Brouhaha. O cara era a simpatia em pessoa. Tal qual meu papo com Oswaldo Lamartine, marcamos novo encontro para estreitar os laços, e nunca aconteceu.

Acho que só vi Dosinho novamente, de longe, no carnaval de Natal, quando foi homenageado pela Prefeitura, mais ou menos na época da entrevista, ainda na primeira gestão de Carlos Eduardo Alves.

Dosinho se encontra internado na Promater e tem hoje 87 anos. E vejam que ironia: uma situação de enfermidade praticamente irreversível em plena abertura de carnaval. Que nossa quarta-feira não seja lá tão cinza assim.

Segue a abertura da entrevista que fiz com ele:

Dôsinho, Dozinho, Dosinho. Nosso Capiba potiguar prefere Dosinho, simplesmente. Mas as três alcunhas estampam vinis que nem ele sabe ao certo quantos são. Uma participação aqui, um álbum inteiro ali e Dosinho construiu um catálogo de frevos-canções e marchinhas com alma de beco, de Carnaval de salão, de alegria solta e inocente. É que as marchinhas se revestem dessa magia que remete aos tempos da máscara e do lança-perfume, das chacotas inocentes. Que o diga o Zezé. Será que ele é? Dosinho também é carnavalesco de vanguarda, mesmo aos 82 anos. Se uma ‘‘galera’’ faz Carnaval com o dinheiro público, Dosinho escreve marchinhas dos fatos do tempo-hoje. E o Carnaval tem mesmo esse poder de jogar decepções para o alto. Bin Laden também não escapou dos frevos de Dosinho e caiu na boca do povo, nos carnavais de Olinda. É que Dosinho ainda espera maior reconhecimento nesta terra que insiste em ver a banda passar sem olhar para seu umbigo. Ainda assim, o carnavalesco reverencia em sua música a Natal do amigo Cascudo; a Natal dos blocos Bacurinhas, Jardim de Infância, Lords, a desfilar pela Avenida Deodoro. Época em que os assaltos pertenciam ao período momesco, com a ‘‘invasão’’ às casas alheias e confraternização carnavalesca: verdadeiros bailes improvisados. Dosinho é esse retrato vivo do frevo, de um capítulo dedicado aos carnavais da Natal antiga. Dosinho é essa cara de Brasil, de frevo, Carnaval e futebol, que segue a compor sua história, em texto sem prestígio na Natal dos axés e carnatais. Se a canção de Capiba ‘Madeira que capim não rói’ é tocada como hino em Recife por reverenciar pessoas e recantos da capital pernambucana, a linda marcha ‘Tributo a Natal’, de Dosinho, nunca figurou em qualquer rádio potiguar. O prestígio do carnavalesco potiguar é maior em Recife. ‘‘O pernambucano não acredita que componho como eles sendo de Natal’’, se orgulha. De fato. Dosinho foi parceiro de Capiba, foi gravado por Alceu Valença, Antônio Nóbrega e outros grandes do carnaval ou do frevo pernambucano.

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