Apartheid à brasileira

cordeira 1“Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos…”
(Haiti – Caetano Veloso)

Fui ontem observar o carnatal. Limitei-me à avenida. A jornalista Laurita Arruda teve a mesma idéia. Sendo que se voltou para os camarotes. Registrou suas impressões no blog Território Livre sob o titulo “Apartheid Vip” (texto abaixo). Ela descreve um dos camarotes mais famosos da festa, o do deputado Fábio Farias. Principalmente, o espaço vip, onde ficaram artistas como Preta Gil, Dani Bananinha e Sabrina Sato.

Eu vi o apartheid entre os pobres (na foto de Canindé Soares, os cordeiros). Refletido, sobretudo, nas revistas “vigorosas” feitas pelas policiais nos suspeitos de sempre. Gente de pele escura e vestida de maneira humilde. Os policiais tem o mesmo biotipo e cor da pele das pessoas que sofrem as revistas. Prestei atenção nisso. Uma gente que ganha dois salários mínimos ou três revistando os que estão na faixa de 1 mínimo para baixo.

Poderia ser apenas uma questão de indumentária, cheguei a pensar vendo uma das revistas ao meu lado. Se os dois grupos, revistados e policiais, trocassem as roupas, não haveria como distingui-los a partir dos estereótipos que nosso olhar construiu para essas pessoas.

São também parecidos fisicamente os cordeiros e os integrantes do bloco popular Nota Dez patrocinado pelo governo do estado. Estamos novamente diante de outro contraste social.

Do lado de dentro das cordas remediados. Presumo que sejam comerciários, escriturários, domésticas, industriários… Enfim, pessoas de baixo poder aquisitivo. Segurando as cordas, aqueles que um certo filósofo, hoje fora de moda, chamou de lumpemproletariado.

Esse não é, contudo, um abismo social tão gritante quanto o existente entre os integrantes dos blocos chiques e foliões dos camarotes e os cordeiros e catadores de latinhas. Estamos falando aqui de extremos. Ricos e miseráveis em estado bruto. Belos e feios. Banquete e sobras. Sem mediação de qualquer ordem que amenize o choque, o desconforto que invade os que ainda não embruteceram de vez.

Como esse imenso balaio de gatos sociais convive é explicação para estudos sociológicos (para além, claro, da repressão utilizada pela polícia para garantir essa “convivência”). Não há como o cordeiro, o policial, o catador e o integrante do bloco Nota Dez chegar ao camarote, embora possam até ter o mesmo físico de Romário.

O carnatal rende estudos sociológicos e teses. É uma pena que nossas academias não tenham ainda despertado para estudá-lo. Porque ao fazê-lo estariam contribuindo para clarear um pouco mais a nossa injusta, abjeta e complexa ordem social. Presente em toda parte, contudo, mais explícita num ajuntamento de gentes tão diferentes, em todos os níveis, como o carnatal.

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