Apocalipse indígena deveria ser lembrado para além dos massacres em Cunhaú e Uruaçu

Uma tragédia na história potiguar virou feriado estadual, ganhou monumento inaugurado diante de quinze mil pessoas e recebeu atenção até do Vaticano, com a beatificação de 30 luso-brasílicos martirizados no episódio da então Colônia – assinada pelo papa João Paulo II.

Falo do Dia dos Mártires de Uruaçu e Cunhaú, comemorado em 03 de outubro, com ponto facultativo no funcionalismo público e parte do comércio fechado.

A carnificina comandada pelo alemão Jacob Rabbi, a serviço dos holandeses durante a invasão do Nordeste, foi posta em prática por índios tapuias, termo genérico da bibliografia colonial para todo nativo sertanejo – postado como antítese feroz aos pacatos tupis litorâneos.

Somados os dois eventos, cerca de 140, 150 pessoas foram trucidadas (sem documentos para certificar o número de mortos), no engenho localizado no município de Canguaretama, hoje Fazenda Bom Jardim, e em São Gonçalo do Amarante, na Grande Natal.

Índios cariris
Para cerca de 150 colonos luso-brasílicos mortos nos massacres do Cunhaú e Uruaçu temos feriado estadual, monumento e uma série de festividades; para 1.500 índios trucidados na Serra da Rajada, no Seridó, nenhuma menção pública; resistência indígena contra o invasor branco foi forte no interior do Rio Grande do Norte, na chamada ‘Guerra dos Bárbaros’ (1680-1720)

Isso foi em 1645.

“Certo, meu amigo, e daí?”, perguntaria um sujeito avesso à revisitações históricas, com medo de descobrir algo sombrio em sua genealogia.

Daí que 44 anos depois, já expulsos os holandeses, em plena campanha portuguesa de povoamento do Sertão, também chamada de ‘Guerra dos Bárbaros’, aconteceu uma carnificina dez vezes maior.

Foi na Serra da Rajada, divisa entre Acari e Carnaúba dos Dantas, no Seridó Potiguar, um dos últimos focos de resistência ao Inferno Branco, onde mais de 1.500 índios foram assassinados em uma única batalha contra homens do colonato local e do Terço dos Paulistas.

O fato até hoje é desprezado por cristãos, pela historiografia potiguar e, sobretudo, por quem escolhe as homenagens deste Estado pretencioso.

Helder Alexandre_Serra da Rajada
Localizada na divisa entre Acari e Carnaúba dos Dantas, Serra da Rajada foi palco de um dos maiores massacres de índios. Foto: Helder Alexandre

Como na América Espanhola, os índios daqui viveram seu Apocalipse, sem que uma mísera data fosse destacada em suas memórias.

Para tratarmos, neste Substantivo Plural, do extermínio das populações nativas e da negligência generalizada da sociedade brasileira para com algo tão brutal e fundador da nação, busquei a opinião de um dos maiores especialistas do assunto, o professor Helder Alexandre Medeiros de Macedo.

Ele integra o Departamento de História da UFRN, Centro de Ensino Superior do Seridó, no Campus de Caicó, e é autor do clássico Populações indígenas no sertão do Rio Grande do Norte.

Um pesquisador que desde 2000 mergulhou na cultura ancestral enraizada em sua região natal, o Seridó, ressabiado com a ideia de ‘desaparecimento’ dos índios – como era ensinado na escola.

“A intolerância ocidental com o ‘outro’, em nome da cruz e da espada, modificou radicalmente a vida dos nativos que habitavam os sertões do Rio Grande do Norte, depois que as cabeças de gado, vindas do litoral, começaram a se estabelecer nas ribeiras interioranas”.

Albert Eckout
Índio tapuia pintado pelo holandês Albert Eckhout

Terra em transe

A Capitania do Rio Grande era das menos povoadas no nordeste brasileiro, no século XVII.

E ficou ainda mais desolada, após as batalhas entre holandeses e portugueses.

Cenário perfeito para uma nova configuração humana, proposta pela Coroa.

Sem armamentos e comida suficientes, colonos suplicavam por apoio da Metrópole, contra a resistência bravia em ceder terras ocupadas há nove mil anos.

Nas palavras de Pedro Carrilho de Andrade, em Memórias sobre os índios no Brasil (1699), a resolução:

“Três condições dizem os doutores sagrados que deve haver na guerra para ser justa e lícita. A primeira condição é a necessidade de conservar o bem comum e quietação dos repúblicos; a segunda condição é recuperar os bens injustamente usurpados; e a terceira condição é para defender o inocente e refrear as insolências dos rebeldes”.

Bem comum? Injustamente usurpados? Defender o inocente?

Isso foi pouco explorado por historiadores potiguares, quase sempre envoltos em pesquisas focadas na classe política da época e fatos consumados na versão lusitana.

Questiono Helder Alexandre sobre um possível elitismo e dogmas cristãos nessa falta de interesse em investigar (ou denunciar?) o que de fato aconteceu com os índios.

“Não diria que eles [historiadores] ‘erraram’. É preciso considerar a historicidade das obras de Tavares de Lira (1921), Rocha Pombo (1922) e Câmara Cascudo (1955). De maneira que não podemos exigir, hoje, que tais historiadores escrevessem discursos históricos que correspondessem ao que, hoje, ansiamos. Todavia, é preciso fazer a crítica: o tipo de História que tais homens cultivavam, em seus livros, tinha um enfoque especial nos acontecimentos de natureza política, que tornaram-se marcos para o que, hoje, podemos chamar de uma História do Rio Grande do Norte. Sendo assim, os holofotes, naturalmente, brilhavam para os sujeitos ligados aos altos círculos do poder, desde os tempos coloniais até o alvorecer da República. Era mais cômodo, assim, que alternativas como o ‘desaparecimento’, o extermínio e a fuga fossem ventiladas nas páginas da história do Rio Grande do Norte ao se colocar em questão o elemento indígena resistente à chegada dos conquistadores”.

Um dos pontos cruciais do livro de Helder é o choque das civilizações Ocidental e nativa.

Helder Alexandre_Alexandre Dantas
Helder Alexandre, 37 anos, nascido em Carnaúba dos Dantas, é professor do Dep. de História da UFRN, Campus Caicó (RN), e um dos principais estudiosos da cultura indígena no Estado. Fotografia: Alexandre Dantas

“O Novo Mundo, em decorrência do fenômeno da ocidentalização, foi se tornando, gradativamente, parte do Ocidente, essa entidade mais cultural do que, apenas, geográfica que, sobretudo, a partir da constatação da existência de ‘outros’, assumiu-se enquanto centro irradiador de um suposto ‘desenvolvimento’ para o resto do globo, partindo da Europa. Por ‘outros’, refiro-me aos povos que os europeus encontraram do lado do Atlântico, batizados, equivocadamente, de índios”.

No Seridó Potiguar, região com pouco menos de 10 mil km² e 300 mil habitantes, janduís, pegas, canindés, jenipapos subiram as serras para lutar contra o inimigo invencível.

A partir da década de 1720, com o fim da ‘Guerra dos Bárbaros’, teve inicio um processo de mestiçagem, em que a cultura e traços físicos indígenas se mesclaram com o novo Homo Potiguaris.

Na ânsia de se sentir parte de um Brasil branco, cristão e ocidentalizado, essa tradição, assim como a africana, foi abafada por antigos pesquisadores.

Helder analisa assim:

capa_populacoes_indigenas_no_sertao_do_rn1
Lançado em 2011 pela EDUFRN, “Populações indígenas no sertão do Rio Grande do Norte” virou clássico na historiografia potiguar; orientado pelo professor Muirakytan K. de Macêdo, Helder transformou sua tese de mestrado em uma preciosidade tanto para especialistas como para curiosos sobre tema tão relevante na formação da sociedade brasileira

“Não diria ‘conveniente’, mas, digamos que o tipo de narrativa histórica que eles encenaram em suas obras assemelhava-se, em parte, à tônica da historiografia produzida em torno do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e do próprio Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN). Isto é, um tipo de História sobre o Rio Grande do Norte que procurava conectar o seu passado com aquele do Brasil, onde valores como a unidade nacional e a cultura ocidental, cristã e católica, de matriz europeia e ibérica, estavam presentes. Ecos dessa historiografia clássica se fizeram sentir, também, em parte da produção bibliográfica tradicional que surgiu no Seridó a partir da década de 1940, onde, nos livros de história local, patriarcas de famílias extensas foram erguidos ao status de ‘fundadores’ dos municípios: Caetano Dantas Corrêa, no caso de Carnaúba dos Dantas; Tomaz de Araújo Pereira, no caso de Acari; Cipriano Lopes Galvão, no caso de Currais Novos, apenas para citar exemplos – quase todos, com origem em Portugal ou filhos dos portugueses que conquistaram e colonizaram os sertões.

Demografia histórica

Aos 37 anos de idade, Helder é o mais velho entre cinco irmãos.

Nascido em Carnaúba dos Dantas (RN), ele mora em Caicó em companhia da avó Aurisci Medeiros, do irmão caçula, Hermes Macêdo, e da gata Pipoca.

Sua pesquisa sobre a herança indígena começou como bolsista de iniciação cientifica, orientado pelo professor Muirakytan Kennedy de Macêdo – autor de outros dois livros essenciais, eu diria, para qualquer brasileiro ou estrangeiro curioso por nossa cultura: A Penúltima Versão do Seridó: História e espaço no regionalismo seridoense e Rústicos Cabedais: Patrimônio e cotidiano familiar nos sertões da pecuária.

“Iniciei minhas buscas sobre documentos para a montagem de uma história indígena do Seridó, desconfiando dos discursos sobre ‘desaparecimento’, por exemplo, que saltavam à vista dos livros de Câmara Cascudo e José Augusto Bezerra de Medeiros. Em 2002 defendi, em Caicó, no Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES) da UFRN, uma monografia de graduação onde discuti, timidamente, os primeiros resultados da pesquisa. Em 2007, após dois anos sendo aluno no Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da UFRN, defendi a dissertação de mestrado que originou o livro”.

olhar-india
Ao contrário de holandeses e franceses, portugueses foram negligentes com encanto da cultura indígena e da Mata Atlântica, à época do Descobrimento; eliminação total foi a solução para povoar sertões

A ressalva quanto aos historiadores norte-rio-grandenses que apontaram sobrevida indígena, após o ‘extermínio’, fica para Olavo de Medeiros Filho e o padre José Adelino Dantas – aquele, além de uma penca de livros sobre o Seridó, Caicó e suas famílias, tem o seminal Índios do Açu e do Seridó; enquanto este nos abriu os olhos com seu Homens e Fatos do Seridó Antigo.

Padre Adelino Dantas já alertava, em 1962, sobre o desleixo com documentos de cartórios e paróquias, o que impedia melhor apuração da existência de índios na sociedade seridoense dos séculos XVII e XVIII.

Documentação dos ‘comuns’ é item fundamental no método de demografia histórica.

“Desde os anos de bolsista, sob orientação do Prof. Muirakytan Macêdo, tive contato com o método francês da reconstituição de famílias, de Louis Henry. […] diferentemente da realidade europeia (francesa, sobretudo), não dispúnhamos, naquela ocasião, de conjuntos documentais bem conservados e sequenciados, o que prejudicaria uma análise mais criteriosa de História Serial. Tomamos, então, como modelo, a ficha de coleta de dados do método francês já referido, que utilizamos para fazer a leitura e extração de dados de milhares de registros paroquiais (batizados, casamentos e óbitos) da Freguesia do Seridó. O livro [Populações Indígenas…] também deve, muito, à Escola dos Annales e ao tipo de história que os franceses incentivaram a partir do final dos anos de 1920: uma em que não apenas os grandes acontecimentos políticos fossem lembrados, mas, também, questões de ordem social e econômica – e, posteriormente, cultural. Além disso, o movimento dos Annales também influenciou a toda uma geração de historiadores do século XX no sentido do uso indiscriminado de diferentes tipologias de fontes históricas como alternativa para, ainda que parcialmente, reconstruir o passado: desde os tradicionais documentos manuscritos até vestígios arqueológicos, cartas, jornais, processos criminais e fontes paroquiais”.

A FROTA DE CABRAL SAI DE PORTUGAL-1
Historiografia potiguar tradicional pouco comenta resquícios indígenas após o extermínio em massa da ‘Guerra dos Bárbaros’, na virada do século XVII; Olavo de Medeiros Filho e Padre José Adelino Dantas são exceções

Nheengatu

Na lógica colonial, tupis e tapuias diferiam a partir da fala.

Os primeiros, então lotados no litoral, falavam a ‘língua geral’, o nheengatu, de bom entendimento para um português seiscentista.

Já o gentio da terra pedregosa, onde os fracos realmente não tinham vez, ‘tremiam o papo’ e travavam as palavras – como ouvimos no sotaque sertanejo.

Sem compreendê-los, ao contrário dos holandeses que, em 20 anos de Sertão, estabeleceram melhores relações, lusitanos observaram costumes atrozes, como a antropofagia e o canibalismo, e completaram a maldição despejada sobre os nativos.

Eram os bárbaros, os selvagens, alcunhas facilitadoras da matança empreendida em escala industrial por cristãos portugueses.

Helder acredita que estudar o sentimento e a simbiose do colonizador para com seus súditos dotados de arco e flecha, e o posterior desenvolvimento de uma cultura que insiste em negar fragmentos importantes de sua origem, é fundamental em uma proposta de pensar o país – conceito tão louvado na história norte-americana, através do cinema; tem brasileiro que sabe mais sobre cherokees do que tarairiús.

“É muito importante conhecermos o passado do Velho Mundo, considerando que nossas histórias estão amplamente conectadas, principalmente, a partir dos eventos que constituem a ocidentalização. Mas, sem dúvidas, a história dos contatos entre os povos vindos da Europa e os que estavam no Novo Mundo requer, de nós, atenção especial. Devemos muito aos índios que foram dizimados na ‘Guerra dos Bárbaros’. Herdamos o seu sangue, que se misturou nas famílias tradicionais, bem como, hábitos alimentares, maneiras de cuidar da terra, conhecimentos sobre a fauna e a flora”.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 5 comments for this article
  1. Virgo Aurora 21 de Abril de 2016 20:37

    História pouco conhecida & texto excelente!

  2. wescley gama 3 de Outubro de 2016 15:00

    Bacana, amigo!

  3. Conrado Carlos
    Conrado Carlos 4 de Outubro de 2016 10:03

    Valeu, Wescley!

  4. Glamar Cunha da Silva 2 de Maio de 2019 17:59

    Não sabia desse massacre da Serra da Rajada. Sou Seridoense da gema, descendente de índios e dos três lusitanos citados na matéria: Caetano Dantas Correa, Cipriano Lopes Galvão e Tomaz de Araújo Pereira, além do minhoto Antônio de Azevedo Maia. Um tio meu, pesquisador, me relatou que o conhecido bandeirante Domingos Jorge Velho participou do massacre na Rajada. Gostaria de parabenizar o blog e as pessoas envolvidas no texto publicado.

  5. Conrado Carlos
    Conrado Carlos 2 de Maio de 2019 18:13

    Olá, Glamar. A história é impressionante mesmo. Fico feliz que tenha gostado. Sua região tem muita coisa boa para contarmos. Abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP