MaisSociedade

Apologia da arte: A nudez e o espelho

Arte é bruxaria de espelho e incomoda quem tem problema na vista

Reprodução do quadro “Olympia”, de Edouard Manet

Olí­mpia adora se olhar ao espelho… menina ainda, já tem o corpo de mulher. Olha-se após o banho, olha-se despida, e veste-se mirando-se.

Sustenta o olhar seguro, esteja nua ou vestida. A firmeza no olhar, quando se está nu, é sempre inconveniente e controverso: sugere despudor.

Esta firmeza de olhar, Olímpia leva para o mundo social e tem enfrentado reações adversas: meninas que olham firme, especialmente para os homens, são desmerecidas moralmente. Convém-lhe melhor um olhar fugidio, inseguro, cheio de pudores – estereótipo mais aceito para o feminino.

Olhares duros são para os homens.

Prevejo que Olí­mpia enfrentará ainda duros golpes. Como enfrentou Manet ao criar a sua Olympia.

Filha de Manet, a obra, não a menina aqui imaginada por mim, Olympia serviu de espelho à sociedade parisiense em meados do século XIX. Causou escândalo e só não foi destruí­da em plena exposição por cuidados prévios tomados pelos organizadores.

Qual o motivo da rejeição desta obra? Seria devido à  nudez? Ou mais ainda, devido a nudez exposta em um corpo visivelmente pequeno, oscilando entre o infantil e o adulto, embora o olhar firme denunciasse uma maturidade precoce?

Não. Esta Olympia projetada no espelho não foi recusada por isso. Os franceses têm fama de conhecedores da arte. A rejeição foi justamente porque no espelho da arte se projetava a verdade.

Qual a verdade de Olympia? Cheia de simbolismos, a obra escandaliza a começar pelo nome. Olí­mpia significa “Montanha dos Deuses”. Aceitava-se então a nudez quando se pintavam Vênus, deusas abstratas, efêmeras, e assexuadas…

Mas Olympia ali ao espelho parece mais uma mulher real.

Édouard_Manet

Édouard Manet apresentou “Olympia” ao público em 1865, com forte impacto e rejeição imediata, pelo nu realista; retrato da jovem prostituta é referência à “Vênus de Urbino”, de Ticiano.

Manet indignou Paris no séc. XIX

Não sendo uma deusa, representa então no espelho do século dezenove o poder e a fortuna. O poder e a fortuna são simbolizados por uma mulher branca em primeiro plano e iluminada por uma luz dura, sem gradações.

Ao fundo, está a pobreza, a servidão.

Como fortuna e riqueza, Olympia está despida, enquanto a pobreza e a servidão está vestida. É este o motivo do escândalo? Em parte, sim, mas ainda não. Olympia é uma mulher suficientemente realista e carregada de sí­mbolos culturais.

A orquí­dea no cabelo, a pulseira, os brincos de pérola, e o xale oriental denunciavam sua riqueza e sua luxúria. A fortuna, a riqueza, e o poder são representados como uma prostituta. Reforçado pela presença do gato preto, que substitui o clássico cãozinho, signo de fidelidade.

No alvorecer do capitalismo europeu, a riqueza é promí­scua e vulgar. Ostenta sua fortuna e vende-se a quem dá mais. Tapa o sexo, mas não por pudores, o olhar firme denuncia a impudência, tapa o sexo porque tudo se vende.

Ver a si mesma representada tão cruamente, tão nuamente, indignou toda a sociedade parisiense. Estivessem estes signos expostos na criada negra a dor seria menor e a revolta seria amena.

Mas não, lá estava a mulher branca com a agravante de mostrar-se impudica e independente. Senhora de si e do seu sexo.

A arte é bruxaria de espelhos. Quem não tem bons olhos não deve mirá-la.

A minha Olí­mpia é uma menina ainda. Mal sabe ela que toda nudez será castigada. Por isso admira seu corpo no espelho. Olha-se após o banho, olha-se despida, e veste-se mirando-se.

Sustenta o olhar seguro, esteja nua ou vestida. A firmeza no olhar, quando se está nu, é sempre inconveniente e controverso: sugere despudor. Prevejo que enfrentará ainda duros golpes.

Share:
Edilberto C.

Comentários

Leave a reply