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Apologia da Arte: reminiscências do Adão de Gustav Klimt

Repouso e me escondo, quase não tenho mais corpo; resta em mim o desejo e a nostalgia de me ver pintado naquele quadro de Klimt.

Vou te contar um segredo, espero saber guardá-lo: eu nasci nu.

Naquele tempo, vivia no paraí­so, de onde fui expulso. Não lembro ao certo quando, nem tampouco o porquê. Mas só então me vesti.

Hoje sei claramente que a salvação é a nudez, mas as vestes me perseguem. Vesti túnicas e burcas, turbantes, calças, saias, jaquetas, shorts, pulôveres, ternos, xales, quimonos.

Antes disso, fora feliz. Andávamos nus nas matas, banhávamo-nos em cascatas, e, pasmem, até os animais coabitavam conosco, nus como vieram ao mundo.

Relembro com nostalgia, ao ver-me naquele quadro pintado por Gustav Klimt.

Estou eu escondido, sob o corpo de Eva. Ela toda iluminada e flamejando desejo, embora o rosto terno quase me levava ao sonho.

Eva é quem me dá vida, ela se despe e me veste. Ela é a forma, eu a moldura. Ela é luz e eu sou a sombra.

Eu repouso e me escondo, quase não tenho mais corpo. Resta em mim só o desejo, a tentação que me toma.

Que restou de mim agora? Sou minhas vestes cambiantes, que cobrem minhas vergonhas e de que não posso fugir.

Um homem de feios hábitos

Gustav Klimt Adam and Eve

Reprodução do quadro inacabado “Adão e Eva”, do austríaco Gustav Klim (1862-1918).

Ainda criança, não foi sem estranhamento que vi o primeiro homem vestido. Fazia um calor exuberante, e ele chegou-nos coberto, sem mostrar qualquer vergonha de exposição tão estranha.

As crianças o cercávamos, embora sob o receio dos pais, para tocarmos a tônica com que ele se escondia. Os mais velhos, receosos, cochichavam entre si:

– Por que se esconde assim?

– Há algo de que se envergonhe?

-Terá maculado o corpo e o tapa aos olhos dos deuses?

Houve conselhos, concí­lios, em que os sábios discutiam se era conveniente convivermos tão infantes com homem de feios hábitos.

Mas então já era tarde: estávamos maculados.

Todos agora sabí­amos o que era a nudez e dela sem que nem mais vestimo-nos de pudores.

Vestimo-nos desde então. Sei que este é o nosso castigo.

Mesmo assim usamos hábitos, porque sabemos também que no mundo dos cobertos toda nudez é castigada.

Acho que entramos no espelho e vemos o mundo ao inverso: abro o jornal e leio pessoas escandalizadas com um homem que ousou despir-se e mostrar-se a uma criança.

– Será ela contaminada, pensam eles, e ousará se despir retornando ao que já fôramos?

Mas nada, aquilo é arte de fato, ou seja, é tão somente o desejo que beira já o delírio de nos tornarmos humanos para poder nos despirmos.

Nesta nossa sociedade, arte é o nu que liberta, vida é a morte do desejo.

FIM

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Edilberto C.

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