Apologia dos defeitos

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Ao telefone, em meio a lembranças de Clarice Lispector, de quem foi grande amiga, Lygia Fagundes Telles me passa uma frase da escritora que nos paralisa. Diz Clarice: “Até cortar os nossos defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe quais de nossos defeitos sustenta o edifício todo”. Levo-a a uma palestra que faço no Encontro Brasileiro Winnicott, realizado em Curitiba. Assim que a rememoro, o psicanalista Jamil Signorini, surpreso, me diz: “Mas eu também a citei em minha fala de ontem!”

O que diz Clarice nessa frase de aparência enigmática, que parece se alastrar entre nós, como uma condenação? Que os nossos defeitos também são nossas qualidades. Somos feitos de coisas boas e de coisas más. Distingui-las depende sempre da perspectiva em que as observamos. O que é bom hoje pode ser péssimo amanhã. O que é bom para mim pode ser intolerável para você. O que me serve hoje, amanhã pode se tornar inútill. Feitos de coisas boas e de coisas más, nada devemos excluir do que somos.

A literatura é feita justamente disso: da aceitação do fracasso. Ainda pensando em Clarice, lembro, a propósito, de “A hora estrela”, seu romance de despedida, e de uma declaração do narrador, Rodrigo S. M.: “A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A verdade é irreconhecível. Portanto não existe? Não, para os homens não existe”. Para buscar a verdade, nada mais temos que as palavras. Mas as palavras são falhas, insuficientes, imprestáveis. O real não cabe nas palavras: ele transborda, escorre, o principal sempre se perde. No entanto, com o que mais podemos contar, nós, seres de linguagem? Este resto a que chamamos de realidade é tudo o que temos para viver.

Sugere Clarice (sempre ela). Estou diante de uma cadeira. Quero me apossar da cadeira, quero dizer o que ela é: então lhe dou um nome _ “cadeira”. Mas, assim que pronuncio a palavra, “cadeira”, em vez de capturar o objeto, a palavra se interpõe entre nós. A palavra, ela dizia, é, na verdade, um obstáculo. Enquanto nos dá a impressão de posse, ela nos afasta das coisas. Nós a usamos como instrumento de acesso ao real, mas tudo o que ela faz é construir uma falsificação do real, a que chamamos de realidade, e na qual depositamos nossa fé. Nossas frágeis esperanças.

Clarice dizia coisas difíceis de pensar. Para muitos, não passava de uma louca. Outros a julgavam uma filósofa. Até uma bruxa. Foi, isso sim, uma grande escritora. Escrevia para livrar-se dos automatismos do pensamento, para pensar o impensável. O impensável, porém, não se pensa. Então, ficava perdida no meio do caminho, enrolada nas próprias palavras, aranha que não larga sua teia _ que, no fim das contas, é ela mesma. Isso é a literatura: uma teia. Fios finíssimos que formam uma espécie de rede com o qual nos protegemos do mundo e através do qual nós o observamos. Fios que vêm não das Musas, ou dos Espíritos, mas de dentro do próprio escritor.

Por isso é dificil aceitar a idéia de que os defeitos são partes essenciais não só do que somos, mas do que escrevemos. Os jovens escritores buscam fórmulas, truques, regras. Lutam para chegar ao “bem escrever”. Não sabem viver sem uma boa coerção. Querem notas, aprovações, títulos. Nada disso interessa ao escritor. A literatura é o terreno da liberdade. Terra de ninguém, nela as qualidades e os defeitos têm o mesmo valor. Até porque é impossível separá-los.

Clarice dizia (está em “G.H.”): “usamos a palavra como isca”. Ao dizer “cadeira”, lutamos para capturar uma cadeira. Mas, lançada a isca, e assim que ela envolve o objeto, ela o incorpora _ como um predador, ela o devora. O objeto passa a ser a própria isca. A isca é o nome e ele, objeto, continua distante distante e impossível, continua muito longe de nós. Daí o sentimento de fracasso que envolve o ato da escrita.

Só entrego meus livros aos editores por absoluto cansaço. Por esgotamento. Só entrego quando não os suporto mais _ então, concluo, chegou a hora! Estou sempre insatisfeito com o que escrevo. Agora mesmo estou insatisfeito: vim escrever sobre uma coisa, e estou escrevendo sobre outras. As palavras me arrastam. Elas me carregam e me submetem. Falei, outro dia, de Simone de Beauvoir, a escrava. Percebo que continuo a falar da mesma coisa: da literatura como uma forma de escravidão. A literatura? A vida.

Mas, então, onde está a liberdade de um escritor? A liberdade está em aceitar esses limites. Aceitar os fracassos, as impossibilidades e os defeitos. Incorporá-los (devorá-los). Como dizia Clarice: incluí-los, fazer algo deles. Sem eles, sem tudo o que temos de pior e de insuportável, talvez seja impossível escrever. Pode-se “escrevinhar” _ mas isso já é outra coisa. Daí a literatura não ser para qualquer um. Isso quer dizer que a literatura se destina às elites? Não! Quer dizer que ela exige coragem.

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