Apontamentos sobre a vida e obra do velho safado (I)

Por Marcel Lúcio

Existem vários tipos de intelectuais. Há os que são médicos, advogados, engenheiros, professores, literatos e muitas outras profissões. Geralmente, possuem como ponto comum a arrogância com que tratam as demais pessoas. Acreditam-se superiores. Não bastassem a violência física e a desigualdade social dos dias de hoje, uma trupe de sujeitos instaura a desigualdade intelectual.

Os literatos e escritores, em sua maioria, julgam-se grandes intelectuais. Percebe-se essa pretensão facilmente por meio da linguagem que utilizam. Abusam do rebuscamento estilístico. Outros preferem demonstrar seu saber através de arroubos da mais alta erudição. Podiam dizer mais escrevendo menos, no entanto, para demonstrarem cultura, tascam erudição inútil ao texto.

Visualmente, podem-se distinguir dois estereótipos de escritores intelectuais: o engomadinho e o relax. O primeiro faz questão de ostentar por meio da aparência galante a sua condição de escolhido do saber, iluminado. Quando convidado para ministrar uma palestra, fala bonito, fluente, conquista o público. Não diz coisa com coisa, mas usa vocabulário tão fino que o discurso se torna uma coisa linda e ilusória. É autoritário como um ditador. Impõe suas certezas aos pobres mortais.

O segundo, o escritor intelectual relax, também procura ganhar o público através da imagem que cria em torno de si. É um exímio marqueteiro. Diz-se desligado de tudo, tenta mostrar isso na vestimenta largadona e no comportamento aparentemente displicente, porém está muito ligado. Tem afinidade com a juventude e gosta de falar frases de impacto. Afirma ser um guerreiro que luta contra o injusto sistema social e econômico, porém está inserido até o último fio de cabelo no injusto sistema social e econômico. Deveria tentar a carreira de rockstar.

Fez-se essa contextualização para se falar de um escritor que foge aos modelos citados: Charles Bukowski. Nascido na Alemanha em 1920, em idade pequena, mudou-se para os Estados Unidos, onde se estabeleceu em Los Angeles. Nessa cidade, viveu praticamente a vida inteira, conheceu a decepção, o preconceito e a decadência, temáticas frequentes a sua obra literária.

Durante a infância, Bukowski teve sérios problemas. Primeiro, por causa dos pais, que não permitiam ao filho brincar com as crianças da vizinhança; motivo: por serem alemães, sentiam-se superiores aos americanos. Além disso, o garoto teve de enfrentar a dislexia e uma intensa crise de acne desfiguradora em seu rosto. Some-se a isso o fato de, após o colapso econômico de 1929, o pai passar a beber desregradamente e a maltratar a família.

Em 1939, vencida as dificuldades provocadas pela dislexia e pela timidez, Bukowski concluiu o ensino médio. No mesmo ano, matriculou-se na faculdade de jornalismo. Porém, abandonou o curso superior em 1941. Motivado pela leitura do livro Pergunte ao pó, de John Fante, decidiu viajar pelos Estados Unidos para que pudesse adquirir experiência de vida e escrever sobre elas. Antes da viagem, trabalhou em uma estrada de ferro e em uma fábrica. Precisava de dinheiro.

No decorrer da viagem, Bukowski, permaneceu a trabalhar em serviços braçais. Conheceu as principais cidades norte-americanas. Travou contato com pessoas de classes sociais desfavorecidas. Identificou-se com os humilhados e ofendidos. Adquiria material para sua futura produção literária. Uma curiosidade: alistou-se para a Segunda Guerra, mas foi dispensado por causa do teste psiquiátrico que detectou distúrbios mentais. No laudo, constava que Bukowski não podia servir devido a sua “extrema sensibilidade”.

Pegava no pesado de dia e escrevia à noite. A atividade da escrita era acompanhada pela bebida. Em 1944, teve seu primeiro texto publicado e teve também sua primeira prisão, justificada pela não apresentação ao exército. Porém, ele havia se apresentado e havia sido dispensado. Os homens da lei não quiseram saber disso e o prenderam. Pouco tempo depois, após um teste psiquiátrico que confirmou sua insanidade, foi solto. A experiência na cadeia serviu para seus contos.

Em 1947, voltou para a casa paterna em Los Angeles. Já publicara textos em várias revistas. Viveu cerca de dois anos com a família. Resolveu sair de casa porque seu pai dizia pela vizinhança que quem escrevia os textos das revistas não era o filho e sim ele mesmo. Continuou a atuar em empregos não convencionais para um escritor: entregador de carta e arquivista de correio. Conheceu mulheres e se dedicou mais ainda à literatura e à bebida. O escritor amadurecia e redigia contos, poemas e romances. Após trabalhar doze anos no correio, em meados de 1965, aos quarenta e nove anos, decidiu largar a profissão para viver apenas de literatura. Chamaram-no de maluco. Sua loucura deu certo.

A partir de então publicou importantes livros e foi tendo o seu talento reconhecido gradualmente. Redigiu roteiro para filme baseado em sua obra. Adquiriu uma legião de seguidores que lotavam suas palestras. Nestas, o renomado escritor bebia cerveja, vinho e o que estivesse ao alcance e, eventualmente, declamava alguns poemas. As mais conhecidas obras de Bukowski, alcunhado pelos críticos literários de velho safado, são os romances Cartas na rua e Mulheres. Morreu em 1994. No mercado editorial, multiplicam-se biografias a respeito do escritor. Poucas são sérias. A maioria confunde vida e literatura. Tal aspecto ocorre pelo caráter autobiográfico de alguns escritos de Bukowski. Porém, deve-se ressaltar que, mesmo em textos com forte tendência autobiográfica, geralmente os acontecimentos são “ficcionalizados” pelo autor, não correspondendo necessariamente à verdade dos fatos.

Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Cidade Alta

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