Apontamentos sobre a vida e obra do velho safado (II)

Por Marcel Lúcio

Em literatura, questão fundamental é a maneira de escrever. O escritor não se notabiliza apenas pelos assuntos sobre os quais discorre, mas, principalmente, pela forma de escrever sobre esses assuntos. Disseram que todos os temas possíveis já foram abordados pelos escritores. Ou seja, não existem temáticas novas, tudo esgotado. Não há mais sobre o que se falar. É um exagero. Sempre surgem novos assuntos. Amanhã aparecerá algo novo sobre o qual se pode escrever. Mas, independente disso, o escritor se destaca primeiramente pela observação da forma, constituição de seu estilo. Lê-se um texto e se diz: esse texto é de fulano, reconheço, mesmo sem ver o nome do autor, pelo seu estilo peculiar. Então, em literatura, como ocorre nas passarelas da moda (comparação tosca), o estilo é essencial.

Bukowski tem estilo. Um sujeito que leu um texto do velho safado reconhece outro de cara. Sua linguagem é fluente e sem pretensão beletrista. Adéqua-se, de maneira coerente, aos temas que aborda: decadência, sexo, violência e humanidade. Não ocorreu uma falha. A palavra humanidade está escrita no lugar correto. Isso mesmo, Bukowski fala de decadência, sexo, violência e humanidade. Através dos três primeiros temas e da linguagem que revela aparentemente um certo descuido formal, Bukowski recupera a noção de humanidade desaparecida do texto de muitos escritores que se dizem humanistas e escrevem maravilhosamente bem. A perspectiva humanista é característica marcante na obra deste autor maldito.

No conto autobiográfico “Na cela do inimigo público número um”, presente no livro A mulher mais linda da cidade e outras histórias, nota-se essa humanidade para com os marginalizados pela sociedade. Bukowski se identifica com as pessoas postas em segundo plano. Por isso, consegue se adaptar à cadeia: “fiquei cobra com os dados no pátio de exercício. ganhava todo santo dia e já estava cheio da grana”. Uma observação formal: percebe-se, no trecho citado, algo que se repete em boa parte da obra do escritor, a não utilização da letra maiúscula após o ponto final. No desfecho do referido conto, o narrador é posto em liberdade após uma conversa com o psiquiatra que descreveu no laudo a respeito do preso: “possui uma grande sensibilidade dissimulada pela fisionomia de impassível”.

Bukowski desenvolve muitas reflexões metalingüísticas, por meio das quais se podem realizar ponderações sobre o fazer literário. Como exemplo, cita-se a seguinte: “o público retira de um escritor, ou de um texto escrito, o que ele precisa e deixa o restante passar. mas o que eles retiram é geralmente o que eles precisam menos e o que eles deixam passar é o que eles precisam mais”. A citação revela a percepção do escritor sobre o processo de recepção do texto literário e sua multiplicidade de sentidos. Deve-se ler literatura atento aos significados ocultos à primeira vista, pois, desse modo, o texto poderá trazer mais ensinamentos ao leitor.

Nos escritos de Bukowski, percebe-se ainda um caráter anti-literário, como se o autor não quisesse se posicionar entre os cânones da literatura. Bukowski dá a entender que redige da mesma maneira que qualquer outra pessoa poderia escrever, ele não se considera especial, iluminado, importante, por fazer poemas, contos, romances e narrativas autobiográficas. Qualquer um poderia fazê-los. Esse fato é relevante por mostrar aos leitores que a atividade criativa é algo simples e sem mistérios, e que basta ter vontade pára exercê-la, conforme as palavras do próprio poeta: “Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mas forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique”. Ou seja, o importante é escrever, reconhecimento é outra história que não deve em princípio influenciar a produção do artista. Enfim, escrever é uma necessidade humana.

Nos poemas de Bukowski também se percebem muitos aspectos presentes em sua obra em prosa: são predominantemente narrativos ou descritivos, remetem a fatos cotidianos, são autobiográficos em sua maioria, possuem uma postura crítica em relação à sociedade e têm uma linguagem simples com um forte toque de humor, ironia e pessimismo, como se pode notar nos versos a seguir: “Rex era um homem forte / Que bebia como um peixe / E parecia um bicho roxo. / Casou com três mulheres / Até achar a certa / E gritavam atrás de gim barato, / Eram desamparados / E contentes. / e temiam o senhorio. / Ela gritava muito / E ele ouvia entediado, / E a acalmava com as palavras certas. / E lá vinha ela de novo. / Era uma vida boa. / Suave e opulenta como rosas no verão”.

Observa-se que, nos três primeiros versos do poema, o eu-lírico realiza a descrição de Rex. Depois, narra a condição de vida de Rex e sua esposa. Nota-se o humor, a ironia e o pessimismo em relação às personagens: “Eram desamparados / E contentes. / e temiam o senhorio”. No último verso dos que foram citados, o primeiro termo não vem com letra maiúscula, ao contrário do que aconteceu nos outros versos do poema. Tal fato talvez ocorra pela afronta que o eu-lírico deseja fazer aos dominadores, “o senhorio”. O poema é concluído de uma maneira trágica: “Era uma vida boa. / Suave e opulenta como rosas no verão”. No verão, as rosas não suaves e opulentas. A época das rosas é a primavera. No verão, o sol geralmente deforma as rosas menos resistentes…

Outro aspecto da poesia de Bukowski é a utilização de cores fortes e imagens. Isso torna seus poemas mais visuais e permite que a imaginação do leitor crie imagens para as palavras: “se você me vir sorrindo / no meu fusca azul / caçando uma luz amarela / guiando direto pro Sol / estarei preso nas / garras de uma / vida louca”. Nesse poema, nota-se a referência a cores fortes. A palavra sol está escrita com letra maiúscula, porque funciona como uma metáfora para destino. Assim, à procura de um destino bem sucedido, as pessoas perdem a noção da vida e caem no cotidiano de uma “vida louca”.

Portanto, assim como nos contos, romances e narrativas autobiográficas, os poemas de Bukowski apresentam uma linguagem que flui ao leitor de maneira despojada, transmitindo a ideia de que escrever não é um árduo ofício para iluminados, mas sim uma necessidade pessoal. E, da necessidade humana de escrever, surge a originalidade da obra de Charles Bukowski, o velho safado.

Professor do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 30 de maio de 2011 21:21

    falou e disse bem, marcel.

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