Aposta em um novo e promissor negócio

Deve ser um excelente negócio abrir uma igreja. Cheguei a propor a um ex-cunhado, que tem presença e voz marcantes e já foi obreiro, abrirmos uma. Claro, ele seria o pastor e eu cuidaria da parte administrativa e filosófica do empreendimento. A crucial área financeira seria entregue a algum tesoureiro de partido político, operador ou lobista, profissionais competentes e em alta nos últimos anos.

Para destacar-se nesse concorrido mercado da fé a nova igreja teria alguns diferenciais. O principal seria atendimento em domicílio, somente para ricos, levando-lhes consolo e a garantia de que não “é bem assim” o que falou Mateus (19:24): “E outra vez vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.” No fundo, tudo uma questão de dieta e para isso entregaríamos no “Combo da Fé” serviços de endocrinologista, nutricionista e cirurgião plástico.

Além do conforto espiritual, estaria incluído no pacote o perdão pelos pretensos pecados e vilanias – coisas inventadas por invejosos, lisos e preguiçosos -, a partir de uma releitura heterodoxa da bíblia. Repassaríamos, ao final da prestação dos serviços, por módica quantia, login e senha para esses virtuosos entrarem no céu sem burocracia, maçada, longe da fila dos pobres, e cercados de todas as benesses terrenas. Não daria nem tempo sentir saudades. “Assim na terra como no céu”, será nosso slogan.

A idéia de uma igreja ambulante e multireligiosa (atenderia aos ricos de todos os credos) surgiu a partir da constatação de que não cabe mais templos físicos na cidade. É importante frisar que essa infestação de igrejas não está limitada às ruas. Ela ocorre também através de dezenas de rádios e tvs, que passam dias e noites fazendo promessas de vida eterna e doutrinando as pessoas. Essa alienação em massa me assusta e tenho dividido essa preocupação com alguns amigos.

Junte-se a isso as dezenas de programas de rádios e tvs, além de blogs control C control V, dominados por ignorantes, conservadores e picaretas, ávidos por dinheiro. É um quadro desalentador. E tenho dúvidas se pessoas como eu e outros da minha laia resolverão alguma coisa com militância virtual. As pessoas que eu sigo e me seguem nas redes sociais, por exemplo, em sua maioria tem um pensamento aproximado do meu, mesmo quando são “coxinhas” não são tão conservadores em matéria de costumes.

Que podemos contra essa onda? A eleição do pastor Infeliciano para a presidência do Conselho de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal mostrou cabalmente nossas limitações.

Agora, se eu tivesse um programa num veículo de comunicação de massa, como o Datena, Ratinho, Silvio Santos, Faustão as coisas seriam diferentes. Talvez já estivesse na carreira política. Vereador? Deputado? Quiçá Senador. Mas num blog, e ainda por cima cultural, e nas redes, falando para meus pareceiros, acho que não adianta muito não. A opção mais sensata é esperar a crise passar, o mercado da fé reagir e tocar pra frente o projeto da “Igreja da Salvação dos Ricos, Milionários e Boas Vidas”, dando adeus à vida de blogueiro liso, sem importância e sem audiência. Vou precisar de pastores, quem se habilita?

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