Aprendendo com o silêncio

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Akira Kurosawa, o cineasta que escrevia com imagens fortes e silenciosas, rememora, em seu Relato autobiográfico, algumas das visitas que fez à vila de Akita, no nordeste de Honshu, Japão, onde seu pai nasceu. Uma vila perdida no tempo, escondida nas franjas mudas do Japão moderno. Levíssimos fragmentos de memória, dispersos e sem grandeza, o ajudam a reconstruir a imagem paterna não a partir do próprio pai, mas dos outros homens com quem ele conviveu. O velho se cala, os outros falam, e é deles que surge sua voz.

A mãe do cineasta nasceu em Osaka, e o próprio Kurosawa em Omori, um distrito de Tóquio. Para ambos, Akita era só uma lenda, isto é, uma colcha precária de relatos que não se completam, tampouco se explicam, mas que, talvez por isso, conseguem capturar os subterrâneos da aventura humana. Que é feita, em geral, de rituais secretos, cuja origem e utilidade desconhecemos, mas nos quais, cheios de uma fé tola mas salvadora, persistimos.

A autobiografia de Kurosawa, que leio em uma velha edição do ano de 1990, da Estação Liberdade, é, toda ela, pura delicadeza. Não podia ser diferente: Kurosawa foi um cineasta genial (com alma de escritor) porque conseguiu retirar, das menores coisas, em cenas banais ou em experiências sem grande significado e que, por isso mesmo, desprezamos, os fundamentos da existência.

Alguns exemplos nos bastam. No vilarejo de Akita, morava um ancião que temia e odiava os trovões. Para deles se proteger, o velho armou sob o teto de sua casa um complicado sistema de estantes no qual, em vez de colecionar livros, guardava raios. Sob as estantes, se aconchegava durante as tempestades, como uma ave encolhida em seu ninho. Imóvel, silencioso, seguro de que elas, embora improvisadas e precárias, o protegiam. Um homem cheio de fé em suas tolices _ existe maneira melhor, afinal, de definir todos os homens?

Nas cercanias do vilarejo do pai havia uma pedra, banal e sem graça, adornada em seu topo por algumas flores medíocres. A explicação era simples, embora inútil. As crianças que passavam colhiam nas imediações flores silvestes e as lançavam sobre a pedra. Isso, não se me engano, está em Sonhos, um dos mais belos filmes de Kurosawa. Apesar da aparência banal, a pedra, na verdade, não era insignificante: ela marcava o lugar em que fora enterrado um soldado, morto durante a batalha de Boshin. Mesmo sem saber disso, as crianças do vilarejo cultivavam o ritual de cobri-la de flores. Não precisavam saber para fazer. Talvez, agora penso, se soubessem não fizessem.

Visitando um miserável lavrador, Kurosawa ouviu do velho: “Você deve estar curioso para saber de onde, em meio a tanta pobreza, eu tiro a felicidade”. Como tirar a felicidade de uma casa tão miserável e de uma comida tão frugal? O velho se apressou a responder: “Bem, eu lhe digo. É interessante apenas estar vivo”. Idéia delicada a respeito da existência, que no fim das contas sempre se basta, pensamento que estrutura e agita os grandes filmes do cineasta.

Admite Kurosawa que suas lembranças da pequena cidade paterna “perdem-se na distância, como um vilarejo visto pela janela de um trem, cada vez menor e mais nebuloso”. Mas é claro: é só porque é muito pequeno e mal pode ser visto que nos sentimos livres o bastante para reinventá-lo sem qualquer medo de errar. O medo: eis o maior inimigo da arte. É só por isso que a fantasia nada deve a ninguém, só porque ela não precisa ostentar qualquer poder, que ela consegue tantos prodígios.

Os filmes de Akira Kurosawa ensinam, eu penso, muitas coisas importantes aos escritores. A principal delas é, talvez, a de que, na maior parte das vezes, o silêncio (a imagem bruta) vale mais do que mil palavras. Uma pausa, uma respiração, uma página branca, um corte: e eis que, nas entrelinhas, a palavra, ainda ela, se encorpa.

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