O que aprendi com os incas

Por Lívio Oliveira

Por mais que escreva linhas e linhas de palavras acerca da pequena (mas intensa) viagem que recentemente fiz com minha mulher ao Peru, não será o bastante para expressar a grandiosidade e a riqueza cultural que vislumbramos naquela terra e no seu povo. De qualquer forma, acredito que vale dar aqui umas pinceladas, buscando reconstituir minimamente o panorama, a beleza da paisagem que se apresentou diante dos nossos olhos felizes, além das vivências muito ricas e impressões sobre todos os sentidos e que nos marcaram naqueles dias de fim de agosto, um fim de agosto e início de setembro inesquecíveis, de magia pura, em que experimentamos descobertas fantásticas sobre eles (os peruanos) e sobre nós, acerca da América do Sul e da nossa latinidade, nossa íntima latinidade e condição inafastável de “hermanos”, apesar da língua distinta.

A longa viagem de avião é um obstáculo à parte, desde Natal até São Paulo e, depois, mais uma parada em Lima, para chegarmos finalmente ao solo que se eleva a quase 3.400 metros acima do mar, quando descemos no aeroporto de Cusco (Cuzco, em espanhol), capital do povo inca e umbigo (ombligo) do mundo. Já chegamos levemente mareados da própria viagem e nos deparamos com a altitude impressionante daquela cidade de porte médio (cerca de trezentos mil habitantes). De tão atordoado que eu estava, sugeri que pegássemos logo um dos táxis do serviço oficial do aeroporto até o hotel. E nos levaram, com isso, de cara, trinta e seis soles peruanos – dinheiro mais valorizado atualmente que o real – quando o normal para a distância não chega a dez soles.

Os sintomas são realmente intensos, alguma tontura, respiração ofegante nas caminhadas, desconforto noturno, náuseas mil. Alguns sentem forte dor de cabeça. Desse sintoma, graças aos deuses incas, não sofri. Mas tive pequenos sangramentos nasais. Enfim, nada muito sério, nada que o reforço terapêutico de uma boa caneca de chá de coca diária não melhorasse. Aliás, a coca era matéria-prima para vários produtos por lá, desde potinhos de geleias que encontrávamos no excelente café-da-manhã do cativante e familiar hotel Tierra Viva, passando por balinhas vendidas aos pacotes em muitos estabelecimentos, até cápsulas farmacológicas com a substância reforçada contra o “soroche”, o mal da altitude.

Na verdade, dentre os males físicos sofridos no Peru, destacadamente na região montanhosa, o que mais me incomodou e me trouxe algum sofrimento foi o da dor nos joelhos. O esforço corporal é grande nesse setor. Já em Cusco nos deparamos com muitas ladeiras, algumas com pedras escorregadias, e seus muitos degraus. A cidade nos proporcionava surpresas maravilhosas a todo tempo, principalmente arte sacra, igrejas inacreditáveis, além das curiosas e belas artes inca e pré-inca. Não dava para ficar parado. Mas a “pedreira” (literalmente) viria mesmo nas explorações à celebrizada e eterna cidade inca de Machu Picchu e seus muitos mistérios e sensações Zen à porta da floresta amazônica. E também houve algum esforço em Águas Calientes, lugarejo movimentado (uma Pipa sem praia) na base da montanha. E os joelhos natalenses se ressentiram e não ficaram jamais intocados no Valle Sagrado de los Incas, em Ollantaytambo, onde brincamos com as Llamas, Alpacas, Vicunhas e as alimentamos. Claro que lá nos negamos peremptoriamente a provar o gosto de preás assados, os Cuy. Nada contra a cultura local, mas a nossa memória afetiva de um animalzinho de estimação dos filhos nos impediu.

Quando fomos conferir Lima, a coisa ficou bem mais fácil para os joelhos sofridos, já que a Capital peruana, altamente populosa (cerca de nove a dez milhões de habitantes), é uma cidade praticamente plana. Ali, junto ao Pacífico reconfortante, foi mesmo um passeio. Belezas litorâneas e os parques de Miraflores, as alturas iluminadas de Barranco, sabor de história no Centro, a marca forte também espanhola (Pizarro e inquisição, mais as belezas arquitetônicas e os espetaculares balcões de madeira nos prédios ao redor das praças). E as gastronomias desses lugares todos (não esqueceremos o ceviche  e a cerveza cusqueña do “Tanta” e os drinques e comidinhas apimentadas do “Picas”). Sem esquecer a marca intensa de Mario Vargas Llosa, ícone literário a todo instante lembrado por motoristas de táxi e gente orgulhosa de todos os quadrantes de Lima, cidade onde também empreendemos boa conversa intelectual e tomamos um vinho com o interessante Ezequiel Furgiuele, em inusitado encontro com esse artista visual argentino que morou em Natal nos anos 70 e que hoje possui um restaurante, o “Patagonia”, em Miraflores.

Atravessar caminhos e estradas pelo Peru, de trem, ônibus, vans, em meio às casas rústicas – com seus tourinhos protetores no cume – e margeando águas (saudades do rio Urubamba!) e montanhas, por vezes nevadas, banhadas por um sol intenso (templos lhe foram erguidos) e dourado se dispondo a nos acompanhar, pássaros voando e pousando na terra arada e a visão de um povo forte e resistente despertando e cantando cedo, dedilhando charangos e flautas de madeiras, mulheres e crianças belíssimas e rosadas, estas libertas a brincar pelas ruas ou pequeninas e carregadas em afeto íntimo às costas maternas.  E as mulheres e homens, todos do povo, todas e todos trabalhando e trabalhando com dignidade, fazendo suas artes e seus artesanatos multicoloridos, mostrando sua engenhosidade e sua simpatia, valorizando patrimônios materiais e imateriais e ancestralidades, não desprezando antigos conquistados e nem seus conquistadores (“todo cambia”, para lembrar a canção eternizada por Mercedes Sosa). Culturas em convívio. Tudo isso é impagável. Aprendizado perene. Tudo nos advertia que nossa americanidade e nossa latinidade são sagradas. E assim restará o sentimento intenso, cada vez maior, em nossos corações e mentes agradecidos. Volver. Volver. E novamente conversar com as montanhas.

 

Advogado público e poeta

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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