Aprendizados

Sim, hei de aprender a andar na corda bamba sem rede de proteção.
Hei de aprender a me despenhar entre onda e estrela. A dançar em volta de fogueiras.
Hei de aprender o amor, seus meandros, porque o amor é bom e o bom se faz belo.
Saber mais: ninguém chega completo a um amor, porque é o amor que é coisa de completar.
Hei de saber que há vazios infinitos dentro de cada um, vazios que não serão habitados e permanecerão e nos ultrapassarão, se é que algo realmente nos ultrapassa, além do nosso próprio coração. “Nosso coração nos ultrapassa sempre”.
Hei de aprender que a vaidade é um exílio e um labirinto. É um lugar difícil de sair, e que pode ser o inferno.
Hei de aprender que existe mãe para tudo e que a mãe de tudo não é mais, nem menos, que um estrondo.
Sim, aprender sobre a mãe do ouro e da água. A minha. Orê Yeyê ô!
Hei de aprender a falar inglês.
Saberei não precisar de talismãs.
Hei de aprender que ídolos de carne só não têm pés de barro porque o criacionismo é um equívoco. Se não fosse, os ídolos teriam todos os pés de terra e seriam derrubados à mínima aproximação.
Hei de pertencer a uma tribo. Mas também hei de experimentar a solidão mais ampla, a de estar profundamente sozinha entre milhares.
Hei de aprender o destino das velas: não cessar de arder, até o último suspiro, a última gota de fogo.
Aprenderei, um dia aprenderei, a perdoar.
Algum dia saberei partir, desapegar-me. Algum tempo haverá, de desaprender saudades.
Aprenderei que mentiras, às vezes, são formas disfarçadas de verdades.
Hei de saber mentir e jejuar.
Saberei a diferença entre as serpentes venenosas e as que não contêm veneno.
E entenderei porque a alguns só cabe o destino de serem indefesos, enquanto outros vêm ao mundo destilando seivas letais.
Hei de compreender as obscuras razões das mulheres que trabalham com os atiradores de facas. E as mais obscuras razões dos atiradores de facas.
Hei de aprender a andar de patins e gostar de banhos de mar.
Hei de saber que a melancolia não é para ser sentida, mas para ser descrita.
Aprenderei a não chorar quando cortar as próximas cebolas.
E aprenderei a dormir quando tiver sono, como quem põe panos quentes sobre as ansiedades.
Mas não quero aprender a por compressas nas felicidades latejantes.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. zara pessoa cortez 11 de março de 2013 11:08

    Que texto maravilhoso! Quando li, pensei: não perde para Martha Medeiros!!! E fiquei orgulhosa da gente de minha terra!!! Preciosidade.

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