Apresentação do livro “No outono da memória”

Nelson Patriota

Cada vida humana é de tal modo única que começa a se distinguir de todas as demais desde antes da sua concepção. E isso tem uma explicação simples, na medida em que cada vida nasce da história que se entrecruza com outras vidas que não se resumem exclusivamente à de seus pais biológicos; nela palpitam os anseios, as esperanças, desejos e ações de avós, primos, cunhados, sobrinhos, netos, amigos, numa teia que parece se expandir em todas as direções.

Com mais razão, a vida que amadurece longamente é um encadeamento de vidas, paralelas, compartilhadas aqui, separadas acolá, mas voltando a se contatarem com maior ou menor regularidade, de acordo com as conveniências sociais, familiares, pessoais…

É assim a vida do jornalista Ubirajara Macedo na sua longa expansão vital, cujo núcleo originário se localiza num humilde distrito do município de Macaíba, RN, mas cujo vértice está sempre mais além de um vértice anterior, que ficou para trás, nalgum projeto concretizado. Como não esquecemos a lição do poeta de Itabira, repetimos: “as coisas findas/muito mais que lindas/ essas ficarão”.

Ubirajara Macedo, ou Bira, como é carinhosamente tratado pelos familiares mais próximos e pelos amigos mais chegados, tem muito que dizer, e o diz, em termos das coisas findas referidas no poema de Drummond, neste depoimento em primeira pessoa que recolhemos ao longo de seis meses de conversas intermitentes, mas obedecendo a uma cronologia até certo ponto conservadora, na medida em que o relato de uma vida o exige.

Da infância em Macaíba a memória voluntária de Bira (às vezes, a involuntária também) sai em busca de uma última lição de Dona Olímpia, sua mestra de coisas campestres, para se deter num verso de Bilac; capta em seguida a figura do Dr. Ubirajara Ferreira, dentista com veleidades de música clássica e que gostava de compartilhá-la em sua casa com os alunos de Dona Olímpia, aliás, Dona Olímpia Ferreira, sua muito digna senhora. Outros personagens desfilam ante o palco, sendo paulatinamente chamadas ao proscênio das lembranças mais caras.

Aí se demoram, por razões óbvias, figuras que protagonizaram papéis fundadores dos valores de Bira, como seu pai, Antônio Corcino de Macedo, mestre-escola, e sua mãe, Alice de Almeida Macedo, doméstica. Ditos assim, encerrados num único papel, seus genitores poderiam parecer atores transitórios no drama do narrador. A leitura do livro mostrará, porém, que seu pai não se cingiu única e exclusivamente ao papel de mestre-escola, tampouco sua mãe ao de prendas domésticas.

No decorrer da narrativa ver-se-á que, apesar da sua sólida formação católica, ou melhor, graças a ela, Bira protagonizou atos de coragem e civismo que emularam os feitos de militantes políticos de esquerda, especialmente aguerridos, de sua época, quando as sombras do arbítrio desceram sobre a nação.

Não se deve ignorar que Bira revelou desde cedo uma clara vocação para o jornalismo. E essa profissão, como sabemos, abre portas e descortina frestas do mundo que permanecem fechadas à maioria das pessoas. De fato, o jornalista Ubirajara Macedo tem o muito que contar. Conviveu com homens rudes, do agreste e algures, mas também com párocos, migrantes e refugiados políticos que buscaram abrigo na casa de seus pais, agora em Natal, quando da desastrado levante comunista de 1930; estudou no Ateneu Norte-rio-grandense numa época em que o escol da inteligência natalense nele pontificava. Em seus corredores era comum um estudante deparar com o professor Câmara Cascudo ou com seus colegas Clementino Câmara, Hostílio Dantas, Edgar Barbosa, Esmeraldo Siqueira; ou trocar idéias com Luís Maranhão, José Gonçalves de Melo, João Wilson Mendes Melo, José Hermógenes de Andrade Filho…

Após uma curta experiência no rádio, Bira se desloca finalmente para o centro dos seus interesses: as notícias do mundo. O veículo que lhe forneceria essa plataforma seria o tradicional e combativo jornal A República. O período que ali passou, nos anos 1960, valeria por um diploma superior. Na sua redação, encontrou Veríssimo de Melo, Myriam Coeli, Celso da Silveira, Sebastião Carvalho… Era no tempo em que escritores militavam na bastilha dos jornais.

Mas a culminância desse processo de eventos “jornalísticos” ainda estava em gestação nos desvãos do tempo. Ou no ovo da serpente. Para lembrar a metáfora que o sueco Ingrid Bergman usou para nomear o clima pré-nazista na Alemanha de Weimar, assunto de um famoso filme seu.

Em 1º de abril de 1964, Bira estava à frente da editoria da Tribuna do Norte quando eclodiu o golpe militar e teve de dar satisfações aos mandatários da hora. Não demorou a que as guantes do arbítrio lhe retirassem do seio do seu lar. Uma contemporânea sua, a escritora Mailde Pinto, resumiu esses acontecimentos sob a rubrica  “Aconteceu em 64”, nome do livro que dedicou ao tema.

Os longos meses que Bira passou nas masmorras do regime autoritário pós-64 não conseguiram fazê-lo abjurar os seus valores cristãos-cívicos, cristãos-nacionalistas, cristãos-políticos. Nesse período, ele permaneceu, como se verá, mais próximo à visão de mundo dos comunistas com quem dividiu celas – Luiz Maranhão, Djalma Maranhão, Carlos Lima, Vulpiano Cavalcanti, entre tantos outros – do que com qualquer outra visão de mundo, inclusive aquela que a Igreja tradicionalmente pregava.

Os detalhes dessa experiência Bira os contou no livro “E lá fora se falava em Liberdade” (Natal. Sebo Vermelho: 2001).

Dissipadas as sombras do arbítrio, Bira está em São Paulo, e se entrega ao burburinho da Cidade Grande, com suas ofertas inesgotáveis de bens concretos ou simbólicos, de vida luxuriante de prazeres e de trabalho. E aí o jornalista macaibense, também funcionário público dos Correios, se desdobra em rotinas diárias e noturnas de trabalho, estas últimas, inicialmente no rádio, em seguida na prestigiosa Folha de S. Paulo.

Dessas experiências, Bira guarda lições preciosas, como revela neste livro. Guarda também modos de amizades que ali começaram ou lá se consolidaram, bens simbólicos inestimáveis na contabilidade dos afetos e do crescimento interior.

Uma dessas amizades responde pelo nome de Carlos, o livreiro Carlos Lima, da Clima Editora e que encontrou em Bira o sócio ideal para um projeto ousado no campo jornalístico. O lançamento da “Folha dos Municípios” se tornou possível com a volta de Bira de São Paulo, já aposentado dos Correios e carente dos ares da província.

A experiencia, com duração de três anos, terminaria com a ida de Bira para o Diário de Natal, jornal onde encerraria suas atividades profissionais em grande estilo.

Outros apelos que já gestavam no seu vasto ciclo de amizades logo o colocaram no centro de um projeto artístico. O local foi o “Beco da Glória”, da cantora Glorinha Oliveira, onde se reuniam jornalistas, poetas, boêmios. O radialista Luiz Cordeiro foi o idealizador. Mas a presença de Bira no grupo foi fundamental para o nascimento do Clube dos Amantes da Boa Música, grêmio que logo ficou conhecida em toda a cidade pela sua sigla: Clambom. Para se aquilatar a verdadeira importância desse clube é preciso se ler o livro “Clambom: um clube em defesa da boa música – 16 anos defendendo a Música Popular Brasileira”, que Bira escreveu em parceria com o clambonista Pedro Ivo Cavalcanti, em 2008.

Nesse ínterim, Bira descobriu o pendor para as viagens, longas viagens que o levaram a países os mais exóticos, os mais distantes, os mais corajosos. Algumas delas deixaram lembranças imorredouros, como ele destaca; outros foram tão instigantes, que ele precisou retornar para conferir um detalhe, uma emoção incompleta, uma bebida exótica ou um prato tradicional.

As testemunhas e protagonistas da vida do jornalista Ubirajara Macedo, seus afetos familiares, estão todos aqui. A primeira esposa Doralice, com quem teve os filhos Júlio Mário Varela de Macedo, Rosana Varela de Macedo e Isabela Varela de Macedo. Veio depois o divórcio, quando Bira casou-se em segundas núpcias com Maria de Lourdes Pereira, adotando suas filhas Virna e Viveca que, com o passar dos anos, se tornaram também filhas dele. E teve os amigos: Taís Marques,

Nessa economia de afetos familiares, há abundantes provas de amor filial e paternal. Declarações em prosa e em verso do próprio narrador e uma carta da sua filha Rosana, que autorizou sua publicação aqui.

Era previsível que uma obra desta natureza se encerrasse sob uma atmosfera de desvelos e desprendimentos em torno do eixo familiar, confirmando que “a família é verdade”, como reza o verso de Pessoa.

Nosso trabalho foi traçar um roteiro para esse panorama simultaneamente uno e múltiplo, como o é toda vida humana. Depois, precisamos questionar suas possibilidades, explorar suas lembranças, dar-lhe uma forma coerente e regular até o seu desfecho, corrigindo e retocando o texto conforme as exigências nossas, digo: nossas e do narrador, mas em ordem inversa de prioridade.

Caberiam alguns lugares-comuns neste último parágrafo, porém preferimos dispensá-los do leitor, a fim de não retardar por mais tempo o seu prazer de conhecer a história do jornalista Ubirajara Macedo, um homem do seu tempo. Seria preciso dizer mais a seu favor? Acrescentaríamos que ele se mostrou à altura dos desafios que teve à frente e deu provas de amor à liberdade.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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