Apresentação do novo livro (“43 Haicais”) do poeta Jarbas Martins

Caro Tácito, caros pluralistas, o poeta Jarbas Martins me autorizou a publicar no SPlural, em primeiríssima mão, o texto que fiz sobre o seu novo livro (praticamente, o texto definitivo). Segue adiante a apresentação do livro, lembrando que o lançamento deverá ser um dos eventos comemorativos pelo transcurso dos 70 anos do nosso querido Jarbas:

———-

Os 43 haicais de Jarbas Martins e sua inscrição em nosso tempo

(Lívio Oliveira)

Após algum tempo afastado do mundo das publicações em livro, o poeta Jarbas Martins nos traz, para gáudio de todos nós – seus fiéis leitores e admiradores – essas pepitas poéticas em número de 43, simbolizando o ano em que nasceu (1943) e tendo em vista o transcurso, neste 2013, de seus 70 anos a merecerem boas comemorações pelos que primam pela arte literária potiguar.

Diga-se de passagem que Jarbas Martins é um dos poetas de sua geração que mais tem incorporado e melhor tem convivido com as novas tecnologias em seu trabalho autoral, fazendo uso diário do contato, quase que desprovido de obstáculos, com leitores no mundo da internet (blogs, Facebook, dentre outros vários recursos da rede mundial de computadores), firmando uma ligação indissolúvel entre os séculos XX e XXI.

Possivelmente em face dessa visão desassombrada e generosa com a época que se descortina, Jarbas descobriu ou pôde constatar de maneira definitiva que o haicai (fórmula poética japonesa antiquíssima que tem sua origem reconhecida no século VII d.C) é uma modalidade estético-poética que atende aos anseios dos leitores deste nosso mundo novo, permitindo um diálogo direto, rápido e certeiro, realizando a apreensão de sentidos quase que no primeiro olhar que pousa sobre os três versos dos poemas haicaístas.

Há de se observar que, com o uso dos haicais, Jarbas se liberta (não sem a consciência exata disso) de quase todas as imposições formais da poesia (inclusive daquelas da construção clássica dos haicais, que exigiriam numa de suas etapas principais a construção silábica 5-7-5). Jarbas o faz sem desmerecer em momento algum a técnica, a exatidão conceitual e soluções altamente criativas que engendra.

Jarbas demonstra, no decorrer de seus poemas mínimos, a autenticidade e estilo da boa poesia, ocidentalizando a fórmula oriental, recorrendo em alguns instantes ao humor e à ironia desconcertantes e faiscantes, relembrando diretamente momentos de Millôr Fernandes, outro haicaísta de escol (“Teatral engano./A vida – uma fala esquecida./Cai implacável o pano.”) e, noutros, a um lirismo que toca e emociona, ainda com eventuais pitadas de sutil erotismo (“Ao dançar – cabrocha –/um deus de barba e tridente/entre as tuas coxas”).

Jarbas Martins também consegue seduzir poeticamente com construções de elevado conteúdo imagético, trazendo de maneira eficaz sua condição de amante do cinema, outro aspecto em que provoca a perfeita união entre os séculos XX e XXI (“Delgada e prátea unha./A lua rasura a tarde./Deus testemunha”). Essa concepção cinematográfica se repete em outros bons momentos, como nesse haicai que faz lembrar, mutatis mutandis, alguma cena incrustada em filmes do surrealista espanhol Luís Buñuel: “Travessura tua:/teu seio cortado ao meio./Uma meia lua.”

Um dos seus haicais agora transpostos para este pequeno e precioso livro sintetiza, a meu ver e de certa forma, a lógica e o espírito da presente obra, informando bem em que momento histórico e poético o autor se localiza: “Haicais, luta vã:/ se escrevo pro teu e-mail/caem na caixa de spam.”

Ao nos apresentar uma obra como a que o leitor tem em mãos, o poeta Jarbas Martins parece ter bem apreendido e/ou absorvido as célebres “Seis propostas para o próximo milênio”, conferências que o escritor/pensador cubano/italiano Italo Calvino desenvolveu para a Universidade de Harvard. Dentre elas, estavam “leveza”, “rapidez”, “exatidão”, “visibilidade”, “multiplicidade” e “consistência”, todos os conceitos que aqui são visualizados imediatamente. Jarbas consegue realizar aquilo que Calvino trata quando firma “a literatura como função existencial, a busca da leveza como reação ao peso do viver.”

A poesia que Jarbas nos oferece neste início de segundo milênio é leve, porém consistente; rápida, mas marcante como tatuagem e sem sofreguidão angustiada e angustiante; certeira, eficaz e, antes de tudo, sem medo e sem culpa. Uma poesia livre. Uma poesia destes e para estes tempos de novos sonhos e novas lutas, mesmo que aparentemente banais (“Até logo, CHE./A Revolução na esquina/e a barba por fazer.”). E essa boa e criativa luta com as palavras não é vã. Nunca é. Jarbas Martins nos mostrou isso, mais uma vez. Resta-nos, portanto, uma única “palavra de ordem”: deliciem-se!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo