Apresento-vos minha avó moleca!

Minha avó, uma mulher negra, mãe da minha mãe, tinha o apelido de Moleca. Eu nunca questionei a origem do apelido, nem muito menos perguntei qual seu nome de batismo. Para mim, ela era “apenas” Vó Moleca. Anos depois, racializada e consciente politicamente, passei a refletir que quando precisava diferenciar minha avó materna negra da minha avó paterna branca, eu dizia vó Moleca e vó Maria. Mas as duas eram Marias, então, por que só uma manteve o nome? E, por que apenas meu avô paterno, um homem branco, era identificado pelo sobrenome Campos? As escalas hierárquicas estavam bem definidas, não acha?

Foi justamente após a leitura do conto Moleque, de Lima Barreto, que minha mente virou um vendaval de ideias. A crítica presente nesta narrativa se somou a outras vozes negras, guiando-me na compreensão. A intelectual Lélia Gonzales nos alerta que pessoas negras precisam ter nome e sobrenome, senão o racismo nos nomeia como quiser. O racismo nomeou minha avó negra de Moleca. O francês Aimé Césaire nos recorda que o Ocidente cria a imagem do outro para subjugá-lo. Dessa forma, a palavra “moleca” vem carregada de estereótipos criados e reproduzidos pelo colonizador. Não à toa, até os dias de hoje, “moleque” é sinônimo de marginal, pivete.

Vó Moleca “carregava a jovialidade em seus muitos anos de vida. A dureza das batalhas não foi capaz de solapar a leveza do seu coração.”

Historicamente, o indivíduo rotulado de “moleque/moleca” carrega o estigma de infantilizado, aquele/a que precisa de tutor/a, e, no caso neocolonial, abrange o sentido de dono/a. Sendo um termo usado de forma corriqueira para se dirigir a negres, a expressão os distanciava de seres confiáveis, responsáveis e capazes de produzir conhecimento crível. Atualmente, para alguns/as evangélicos/as, a palavra “moleque” está ligada a algo demoníaco, sendo um termo que, segundo eles, deve ser evitado para se dirigir às suas crianças brancas e cristãs, na maioria das vezes. Curiosamente, no conto de Lima Barreto, o Moleque recebe uma fantasia simbólica de diabo.

Ao pensar sobre tais informações fiquei triste. Não era possível que uma mulher tão sábia, benzedeira e que, mediante a morte precoce do marido, tivesse criado sozinha uma filha e um filho que viriam a se formar e serem servidores públicos anos depois, fosse lida como imatura e sem bagagem.

Mas, ainda suleada pelas reflexões de Lélia Gonzales, quando nos recorda que o brasileiro, na verdade, não fala português, mas sim pretuguês, fui buscar a origem da palavra “moleque”, e descobri que esta é de origem Angolana. Na língua kimbundu, “moleque” significa “garoto/a”, porém, por se tratar de uma herança africana/negra, a palavra foi demonizada do outro lado do Atlântico. Observando minha avó por esta ótica, chamá-la de Moleca faz todo sentido. Ela carregava a jovialidade em seus muitos anos de vida. A dureza das batalhas não foi capaz de solapar a leveza do seu coração.

Hoje já não tenho problema em nomeá-la assim. O apelido, na verdade, é um pedacinho de África que acompanhou minha avó durante sua passagem por este mundo. Então, para quem não a conheceu, apresento Maria Nogueira do Nascimento, para nós, Moleca.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jagô 7 de junho de 2021 18:43

    Boa reflexão! Vó Moleca simboliza muitas avós cujas raízes estão, sem elas nem perceberem, fincadas em África.

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