Aquele misterioso momento

Por Luís Fernando Veríssimo
O Gloho

Nas fotos publicadas nas orelhas dos seus livros, Roberto Calasso parece uma imagem idealizada de intelectual italiano.

Um perfil aristocrático como perfeita expressão de uma mente de primeira.

Pode-se imaginar o que completa o perfil: um gosto rarefeito por boa comida e bons vinhos, um papo estimulante.

Não sei onde ele nasceu, mas as fotos são de um irretocável espécime da cultura da elegância que distingue Milão, onde ele mora.

(Nada disso pode ser verdade, claro. As fotos não mostram se ele é um baixinho com voz de pato, ou um chato. Mas o perfil impressiona.)

Roberto Calasso dirige a editora Adelphi e escreve livros sobre mitologia, literatura, arte e política com uma inteligência aguda — se bem que, às vezes, uma complexidade impenetrável.

Chamou a atenção pela primeira vez com “O casamento de Camdus e Haronia”, uma longa reflexão sobre mitos ocidentais.

Também escreveu sobre mitos orientais (“Ka”) e Kafka (“K”), sobre Talleyrand e a história europeia em “As ruínas de Kasch”, e coleções de ensaios sobre cultura em “Literatura e os deuses” e “Os quarenta e nove passos”.

Seus textos estão cheios de sacadas, digressões que podem levar o leitor de um pequeno detalhe a uma cosmogonia, e são nunca menos que instigantes.

No seu último livro, “Rosa Tiepolo”, em inglês “Tiepolo pink”, Calasso escreve sobre o pintor veneziano do século dezoito Giambattista Tiepolo, e comenta uma série de gravuras feitas pelo seu filho Giandomenico sobre a fuga para o Egito de José, Maria e Jesus, segundo o relato bíblico.

Uma das gravuras mostra a sagrada família na estrada passando pela estátua de uma deusa seminua — cuja cabeça acaba de cair, e está a centímetros de se estilhaçar no chão.

Escreve Calasso: “Pode ser dito que este momento marca o fim da era pagã e o começo de algo que a princípio é apenas uma jovem mulher com um bebê numa estrada solitária. Muitos tentaram, em palavras ou imagens, retratar aquele misterioso momento a partir do qual os mundos pagão e cristão coexistiram, o primeiro como uma paisagem de ruínas e uma estátua mutilada, o outro como uma débil, obscura pulsação de vida. Mas só Giandomenico ousou fixar o momento no instantâneo de um detalhe. É assim que a história acontece, nos diz a imagem. Por meio de fraturas que podem facilmente passar despercebidas. Mas que são irreversíveis.”

Uma era pode estar acabando e outra começando neste momento.

Só saberemos quando um Tiepolo, ou um Calasso, nos disserem.

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