‘Aqui, ali, aí, sei lá’

Por Arthur Dapieve
O GLOBO

O colunista às vezes receia desenvolver uma lesão por esforço repetido ao bater tanto na mesma tecla: com raras exceções, a música popular brasileira produzida pela classe média tradicional passa por uma notável baixa de libido, com consequências entediantes. É muita vozinha, violãozinho, muita letrinha, sentimentozinho. Pouco tesão. Deus livre essa musiquinha popular brasileira de encostar a mão em alguém.

Por isso, o colunista saúda o lançamento do CD e do DVD “Infernynho — Marília Bessy convida Ney Matogrosso” pela Coleção Canal Brasil. Trata-se de um registro do show realizado no Teatro Rival, em 27 de julho do ano passado, e reprisado para o lançamento dos discos, no Teatro Net Rio, no último dia 30. Impedido de assisti-los ao vivo nas duas ocasiões, ao menos tive o prazer de vê-los da cama de casa.

Produzidos por Rodrigo Faour, pesquisador e anfitrião do programa “História Sexual da MPB”, Marília e Ney fazem um show maiúsculo, divertido, sacana. Não será possível exibir o DVD na recepção do consultório médico, a não ser se a especialidade do doutor for disfunção erétil ou frigidez. Em 17 ou 21 músicas, recria-se um cabaré. O extra do DVD é uma entrevista com eles feita por Faour na boate Erótika, em Copa.

“Infernynho”, a música que batiza o projeto e fecha ambos os discos, é uma parceria de Marília com Eduardo Dussek, outro músico a quem nunca faltou pegada. A letra cria um climão: “Você entra no escurinho/ De mansinho, devagar/ A muvuca me machuca (…)” E, a horas tantas, vem o refrão, glorioso, grudento, viscoso: “Meu amor/ O infernynho é aqui (ali, aí, sei lá…)/ Paradise, sim/ Mas com você juntinho a mim.”

No CD/DVD, Marília mostra mais o lado de intérprete do que o de compositora, que lhe valeu dois bons CDs, o independente “Marília Bessy” (2006) e “Doce devassa” (2011, lançado pelo selo Discobertas), no qual registrou pela primeira vez “Conga, conga, conga”, hit de Gretchen. No Rival, Marília vai se soltando conforme canta “A indecência”, de George Israel e Paula Toller, ou “Kátia Flávia, a godiva do Irajá”, de Fausto Fawcett e Carlos Laufer. Quando Ney se une a ela, já é a dominatrix da cena.

Ney sempre foi um dos reis do duplo sentido na música brasileira. Natural, portanto, que sua parte solo em “Infernynho” traga, por exemplo, “Açúcar candy”, de Sueli Costa e Tite de Lemos. Na entrevista a Faour, Ney conta ter se surpreendido ao descobrir que a música fora feita para uma peça infantil: “Tua pistola dispara baunilha/ Na minha boca, no meu dorso/ Ai precipício, que poço de delícias/ Ai que vertigem, ai que desmaio.” Ok, ok, mau exemplo meu… Aí não pode haver duplo sentido.

Juntos na parte final de “Infernynho”, Marília e Ney formam um casal animado, atacando “Vira de lado” e “Meu sangue ferve por você”. Há uma química interessante na combinação da voz grave de Marília com a voz aguda de Ney à frente de uma banda que não precisa pedir desculpas por ser roqueira, formada por Humberto Barros (teclados), Pedro Costa (guitarra), Wlad (baixo) e Rike Frainer (bateria e vocais).

O primeiro disco de Marília era dedicado aos avós, a Cazuza e a Cássia Eller. Estabeleceu-se aí uma genealogia. Ela já mostrava de onde veio — e a que veio. Não queria ser mais uma musa cool. Não há muitas vagas para roqueiras no mercado do Brasil, mas Marília não se intimidou. O segundo disco, produzido por Rodrigo Santos, outro filiado a Cazuza e Cássia, baixista do Barão Vermelho e dono de sólida carreira solo, apenas confirmou sua opção. Então, foi lógico convidar Ney — que participara de “Doce devassa”, em “O que você quer de mim” — para a noite no “Infernynho”.

A banda na qual Ney explodiu com João Ricardo e Gerson Conrad, os Secos & Molhados, foi uma espécie de Sex Pistols brasileiros — antes dos Sex Pistols ingleses. Seus dois únicos discos, de 1973 e 1974, ou seja, em plena ditadura, eram e continuam sendo pontos fora da curva, de delicada criatividade, ao nível da dos Mutantes. Terem sido também gigantescos sucessos comerciais atesta que ou deve haver demanda reprimida por ousadia hoje em dia ou que o público da época era menos careta.

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