Ardiloso Delfim

Li a entrevista de Delfim Neto na FSP (“Quem quebrou o Brasil foi o Geisel”). Delfim é homem muito inteligente. Fui aluno de Fernando Novais, que, antes de lecionar no Departamento de História da FFLCH/USP, foi professor de História na Faculdade de Economia e Administração da USP (a catedrática da disciplina, Alice Cannabrava, admirava muito Novais) e contemporâneo de Delfim como docente. Embora pertencessem a universos políticos opostos, Fernando elogiava a inteligência do outro – e tinha razão, ele é mesmo muito inteligente, os quadros da ditadura não eram formados por ignorantes, o que tornava o panorama ainda mais perigoso para a população! Muitos anos depois, em conversa comigo, o ex-deputado carioca Milton Temer disse que durante seu mandato, dividiu elevador com Delfim em mais de uma ocasião e ficava muito impressionado com sua simpatia e capacidade de criar intimidade, tinha até medo de, sem querer, virar amigo dele… São talentos de sedução que reforçam muito o poder de um intelectual e político, como Delfim é.

Inteligência e sedução não significam fazer análises apoiadas em explicação e demonstração adequadas. Nessa entrevista, Delfim age como marido traído que acreditou na esposa quando ela lhe declarou não haver tortura no país. Qualquer estudante de segundo grau, durante o governo Médici (eu já estava na graduação), tinha condições de atingir essa informação, imaginem o principal ministro do Brasil na época!

Delfim, inteligentemente, transfere o caos econômico para Geisel, que presidiu a Petrobrás antes de presidir o país. Nunca pesquisei as relações entre ambos. Tenho lembrança pessoal de rumores na Imprensa alternativa sobre franca hostilidade desse ditador em relação ao ex-ministro, corria a boca pequena que o próprio Médici visitou seu sucessor, no começo do mandato deste, para por panos quentes em eventuais investigações sobre aquele ex-ministro, que virou embaixador em Paris, com fama de cobrar percentuais sobre operações econômicas – não sei se é verdade, as investigações sobre corrupção, na época, eram escondidíssimas.

Apesar de muito esperto, a ideologia conduz Delfim a grosseiras falsificações. Dizer que Jango abandonou o governo é piada de mau gosto – ele foi abandonado pelo governo através de um golpe de estado, doutor! Em sua narrativa sobre o convite para ser ministro de Costa e Silva, o nome de uma estrela civil em ascensão, com superpoderes na Associação Comercial de São Paulo, nem apareceu: Paulo Maluf. Hoje, esse nome está muito gasto, perdeu processos no exterior por operações criminosas etc. Não merece ser evocado por antigos aliados e protegidos, pelo visto.

Falando sobre a escandalosa diferença entre pobres e ricos no Brasil sob seu comando econômico, mais uma vez, age como marido traído que sabe por último que as camisinhas usadas encontradas no banheiro não tinham revestido seu falo nem abrigado seu sêmen. Uma leitura ligeira nas páginas dos jornais alternativos “Opinião” e “Movimento” demonstra consciência sobre o problema e indicações alternativas por economistas e cientistas sociais que não eram militantes de extrema esquerda. Sobre ensino básico, idem, ibidem – no caso, consciência por educadores. Só o governo não sabia do descalabro que produzia, ‘tadinho!

A frase principal da entrevista (“o governo nunca teve a menor interferência militar”) requer uma exegese especial: não teve porque ERA interferência militar! Era uma ditadura que começou com golpe militar e se desdobrou em presidências comandadas por militares, com o auxílio luxuoso de civis, como Delfim e Maluf. E o poder de Geisel (presidente de uma estatal) para não seguir diretriz de Delfim (ministro da Fazenda) é uma prova desse teor militar do governo. Peço desculpas por lembrar o óbvio.

Faz parte da grande inteligência delfinesca uma enorme capacidade de sobrevivência, a ponto de ser citado como autoridade por Lula e as torcidas do Flamengo e do Corinthians.

Relembrando o detestável talentoso Chico Anísio: “E o salário, ó!”

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 9 comments for this article
  1. Tácito Costa
    Tácito Costa 7 de Abril de 2014 10:31

    Texto importante de Marcos. Tem muita gente com amnésia por aí, de vez em quando é preciso alguém colocar os “pontos nos is”.

  2. Marcos Silva
    Marcos Silva 7 de Abril de 2014 10:47

    Pois é, Tácito, estamos aguentando, neste cinquentenário da ditadura, enxurradas de falsificações. Vem mais por aí!

  3. Marcos Silva
    Marcos Silva 7 de Abril de 2014 12:32

    Agradeço a Tácito pela excelente escolha de fotografia, que rima com o bordão de Chico Anísio, citado por mim no final do texto.

  4. Anchieta Rolim 7 de Abril de 2014 14:00

    Gostei, Marcos! Como sempre seus textos são bem embasados e mostram conhecimento dos assuntos tratados. Acho muito importante para todos nós brasileiros, que se façam sempre, independente de datas, uns esclarecimentos sobre esse trágico período de nossa história para que nunca caia no esquecimento, já que somos considerados um povo sem memória. Quanto a você, tens feito sua parte muito bem. Tenho notado desde que cheguei no SP que você, Jarbas e Françóis, sempre abordam esse tema. isso é muito imporante. Mas, tem também o outro lado, fico preocupado em ver que algumas pessoas defendem os corruptos da nossa atual democracia usando como exemplo o caos dos militares e de outros tipos governos catastróficos que por aqui se instalam. Deixa uma coisa curiosa no ar : Roubamos e desestruturamos a Nação, mas, vivemos em uma democracia. Se os outros roubaram porque nós não? Nós pelo menos, roubamos bem menos. Em outras palavras, é por aí…E essa conduta que se espalha país a fora, em minha opinião, também é muito triste, preocupante e perigosa. Já que uma coisa leva a outra, deveria-se debater mais um pouco sobre isso também. Um abração e parabéns por mais um texto esclarecedor!

  5. François Silvestre 7 de Abril de 2014 15:07

    Ardiloso, adjetivo perfeito! Marcos foi na jugular. Poeta Rolim, toda essa crítica que você faz ao quadro atual é procedente; porem, há uma ou umas oposições com liberdade plena pra denunciar tudo isso que você falou. O quadro atual não é impeditivo da contestação nem do ataque. Diferentemente daquela época, onde a crítica não só era proibida como punida. E violentamente. Quanto a falar “muito” nisso talvez seja carência do silêncio mal resolvido da época. Ou até a lembrança como catarse para impedir repetição. A corrupção é uma praga, você tem razão, e tem acontecido fartamente nos cômodos do poder, mas pode ser denunciada e combatida sem que denunciadores ou punidores sejam molestados. Essa é a diferença da ditadura para o regime de liberdade.

  6. François Silvestre 7 de Abril de 2014 16:24

    Meu caro poeta e mestre das artes Rolim, você sabia que três Ministros do Supremo Tribunal Federal foram aposentados compulsoriamente e impedidos de lecionar em faculdades, públicas ou privadas, por concederem Habeas-Corpus a presos políticos? Sem falar na violência direta nas escalas inferiores da Magistratura. O Supremo hoje pune quem quiser, solta quem quiser e sofre apenas crítica dos insatisfeitos.

  7. Anchieta Rolim 7 de Abril de 2014 21:43

    Mestre François, quanto a violência tanto física quanto psicológica e a falta da liberdade entre elas, a de expressão não tem como comparar. Você sabe muito bem o que é passar por isso. Sou eternamente grato a você e todos os que lutaram por um Brasil democrático.E quanto aos nossos três poderes, esses são dignos de pena. Um abração!

  8. Danclads Lins de Andrade 8 de Abril de 2014 21:48

    A amnésia parece ser geral. Vi certo dia, Célio Borja, que foi da ARENA na época da ditadura militar (partido apoiado pelos senhores de quepe), além de exercer cargos administrativos e políticos, disse que não existiu ditadura no Brasil. Aí vem Delfim Neto e disse nada saber sobre os descalabros da ditadura militar, informação que até as pedras do caminho sabem.

    O julgamento do tempo pode durar anos, mas não falha. Mas, para tanto, o povo tem que cultivar a memória do passado.

    Em tempo: só para reforçar o que disse François: os ministros do STF cassados, por concederem HC e impedidos de lecionar foram: Victor Nunes, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva.

  9. Marcos Silva
    Marcos Silva 9 de Abril de 2014 8:43

    Maurice Halbwachs fala sobre o caráter seletivo da memória, retomando tópicos de Freud. Vale lembrar que a ditadura, desde o começo, declarava-se democracia. Tinha gente que acreditava.

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