Argullol escava com palavras

Por José Castello
O GLOBO

Meu amigo Flávio Stein me traz de Buenos Aires um exemplar do “Breviário de la aurora”, livro de aforismos do filósofo catalão Rafael Argullol. Ele foi lançado em 2006 pela editora Acantilado, de Barcelona. Estou sempre a ler Argullol – um pensador, infelizmente, pouco conhecido (e pouco traduzido) no Brasil. Ele escreveu seus aforismos enquanto trabalhava em outro livro, a “Enciclopedia del crepúsculo”, lançado pela mesma Acantilado um ano antes. A enciclopédia _ de 860 páginas _ reúne, em sua maioria, ensaios breves que Argullol publicou em de “El País”.

Fixo-me, a princípio, nos aforismos, editados em ordem alfabética, começando por “Absoluto” e terminando em “zoo”. À página 84, no verbete “Nostalgia”, encontro uma definição esplêndida: “O retorno à pátria que em realidade nunca tivemos”. Recuando até o verbete “Filosofia” _ “pensar ao ar livre” _ e depois avançando até “Literatura” _ “experiência + experimento”, chego a um tripé que me ajuda a pensar não só a literatura de Argullol, mas toda literatura. Se agrego o verbete “sabedoria” _ “o mestre que quer ser aprendiz” _, a reflexão se adensa.

Por que os escritores estão sempre a escrever e escrever? Por que raríssimos deles (Raduan Nassar?) dão sua obra por concluída? Justamente porque escrevem movidos pela nostalgia. Se a nostalgia é a tentativa de retornar a uma pátria que nunca tivemos, e que portanto nunca será alcançada, tudo o que resta ao escritor é continuar a escrever e escrever, sem nenhuma perspectiva ou certeza de um fim. Os próprios livros: em geral, os escritores só os dão como prontos por cansaço. Há um esgotamento _ que pode ser visto também como embotamento _ que paralisa a escrita e o livro, enfim, mesmo “sem terminar”, é entregue a seu editor. Este escritor enfraquecido que entrega seus originais tem a aparência de um homem derrotado. Contudo, ele preciso perder para que seu livro surgisse.

Trata-se de uma experiência não apenas intelectual, mas que atinge o escritor pessoalmente. Em que ele engaja não só tudo o que tem, mas tudo o que é. Daí Argullol definir a literatura como a soma da experiência com o experimento. A experiência aponta para a existência e para o pessoal. Já o experimento é uma maquinação gerada por aquele que experimenta e vive. As duas coisas estão ligadas. Por isso, toda literatura _ se feita para valer _ envolve um sofrimento pessoal. Um desgaste. Uma corrosão na qual o homem que escreve _ como as rochas açoitadas pelo mar _ perde partes de si.

Nada disso está pronto. Daí Argullol definir a sabedoria como o esforço (contínuo) do mestre para se transformar em um aprendiz. O que parece, talvez, um retorno ao passado (uma regressão) é, na verdade, uma aposta no futuro (um avanço). O aprendiz não é só aquele que apenas se iniciou em alguma aprendizagem. É, também, aquele que tem todo um caminho pela frente. É aquele que não está pronto (que não tem vícios ou automatismos) e que, em vez de se lamentar, disso se alimenta. Que está livre, portanto, para aprender.

O livro de aforismos de Argullol não deixa de ser um livro de aprendiz. Aliás: toda a sua filosofia. Rafael Argullol é um desses escritores sensíveis que escreve não para dar lições, mas para aprender. É no próprio ato da escrita que alguma coisa surge. A escrita não é um meio para transmitir alguma coisa pronta. Literatura não é comunicação. É, ao contrário, um instrumento de escavação. Como ele diz no verbete “Relatividade”: “Todos os centros são periferias”. Nada está pronto, a escrita se bifurca (Borges e seus caminhos) e se multiplica. Por isso está viva.

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