Arizona uma vez mais

Por Carol Bensimon
BLOG DA COMPANHIA

Nesse momento, estou em uma varanda no Arizona, com uma vista de quase 3600 sobre o Verde Valley. O rio Verde é um dos três únicos rios do estado que não secam em nenhum momento do ano. Passarinhos do tamanho do meu dedo indicador estão brincando de pega-pega bem na minha frente.

Dois dias atrás, eu quase perdi um anel de turquesa e prata em algum lugar do Grand Canyon, e eu achei que isso ia ser muito irônico, perder um anel de turquesa e prata, um anel navajo, dois anos depois de tê-lo adquirido, bem no meio do Grand Canyon, que foi um território indígena, que tem ruínas, artefatos em salas escuras, que tem todo o tipo de quinquilharia navajo com turquesas nas lojas de souvenir, mas no fim o anel estava dentro do carro, e então é o que eu digo: não há mágica. No entanto, se por acaso eu tivesse perdido o anel navajo no meio do Grand Canyon, isso podia ser mais do que irônico, afinal de contas, podia ser um claro recado, uma comunhão, uma história que se conta com a certeza de que existe algo de sobrenatural nela, e ninguém da audiência ia ter dúvida de que os índios se vingam desse jeito: com anéis navajo voltando para o lugar de onde não deveriam ter saído.

Uma bandeira budista se sacode num mastro à minha esquerda. Toni é a proprietária dessa casa que eu eu aluguei no airbnb. Na descrição, ela dizia que sua filha podia fazer massagem a tantos dólares a meia hora. Tem um monte de coisas budistas pelos cantos aqui. Eu estou há três semanas nos Estados Unidos. Califórnia e Arizona. Nesse tempo, eu acho que cruzei com um monte de gente maluca, do tipo que enfeita e pinta seus carros com paisagens áridas ou com o rosto da Hillary Clinton, ou que toca harpa dentro de um supermercado de produtos orgânicos. Mas nem o pessoal da contracultura consegue simplesmente ser ateu. Sempre tem alguma dose de religiosidade dentro desses caras. Parece que é fácil largar a Pátria, mas não se pode abdicar de Deus. Eu acho que ainda estou tentando entender.

Uma frase corrente aqui no norte do Arizona é: Deus criou o Grand Canyon, e então foi morar em Sedona. Sedona é um desses lugares que você se pergunta porque não ouviu falar antes. Rochedos gigantes e avermelhados com formas bizarras cercam toda a cidade. Talvez seja mais impressionante que o Grand Canyon. O Grand Canyon é grandioso demais, um passeio convencional nunca vai conseguir apreender aquele monstro geológico. Sedona é mais ou menos a capital New Age do planeta porque supostamente há um monte de vórtex por aqui (representados nos mapas por uma espiralzinha meio ridícula), mas essa mistura de misticismo com capitalismo violento têm um resultado estranho: malls terracota, provavelmente construídos com gesso acartonado, cheios de lojinhas de cristais e gente que promete tirar uma foto da sua aura. A cidade toda cresceu ao redor da rodovia 89A, então essa é basicamente uma cidade centrada no carro, num diagrama totalmente norte-americano, de maneira que aquela ciclofaixa subutilizada da direita parece só mais uma hipocrisia dessa economia voltada para o invisível.

Mas provavelmente estou sendo dura demais.

O Arizona é um lugar legal, em Jerome tem uma menina gay dona de um café de esquina que serve comida fresca e saudável, sendo que Jerome é uma cidade de 448 habitantes, então você fica se perguntando como seria possível uma menina gay morar em um pequena cidade brasileira e cozinhar suas coisinhas ali, e a cidade nem precisaria ser tão pequena assim para a inviabilidade desse caminho. Mas o Arizona é também o estado que aprovou a lei mais dura para combater a imigração ilegal, e onde você pode encontrar um carro com palavras escritas em branco no vidro de trás, ocupando todo o vidro mesmo, que diziam mais ou menos assim: “Obama e Ebola: duas pragas que precisam ser combatidas”.

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Cheguei ontem em Los Angeles e tive a oportunidade de conversar com os alunos do querido José Luiz Passos na UCLA. O nome oficial da disciplina que o Zé ministra me foge agora, mas é impressionante pensar que 95% daqueles jovens não faz graduação em letras, há um monte de gente das ciências biológicas, e mesmo assim eles estão ali me lendo, lendo Daniel Galera, Elvira Vigna, Vanessa Bárbara, Carola Saavedra, Adriana Lisboa, discutindo mil e um aspectos do Brasil, vendo o Zé traçar um mapa no quadro e fazer comentários simpáticos sobre Recife, sua cidade natal, explicar para eles a “relação” entre caubóis e gaúchos, enfim, o Zé diz que esse é um curso para “complexificar o Brasil”. Melhor definição possível.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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