Arménio Vieira

Lisboa, 24 Jul (Lusa) – Arménio Vieira declara-se essencialmente poeta, mesmo quando escreve em prosa. Tem a este respeito uma opinião expressa à agência Lusa com a firmeza de quem não admite contestação: “Se a prosa não for poética não é literatura”

Não se limita a afirmá-lo – aponta exemplos, cita “O principezinho”, de Saint-Exupéry, “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carrol, sermões do Padre António Vieira. “Não acredito na prosa. Aquilo é inteiramente poesia”.

Na sua própria produção literária em prosa – dois livros – aponta um título em que a poesia é a marca dominante: “O eleito do sol”. Primeiro autor cabo-verdiano a receber o Prémio Camões – 100 mil euros de dotação e a mais importante distinção literária da Língua Portuguesa -, Arménio Vieira diz-se um escritor “pouco lido”, dentro e fora de fronteiras, e escassamente traduzido.

Um mês e alguns dias depois de ter recebido o Prémio Camões, faz este balanço: “nada mudou” e não espera que mude. Concretamente, o poeta cabo-verdiano ainda não recebeu qualquer proposta editorial para a tradução de obras suas, obras completas e não apenas, como até agora, poemas, textos avulsos.

Não estava à espera do Prémio, não escreve “a pensar no dinheiro”, e confessa-se incomodado com o caminho que o mundo dos livros está a tomar – tudo muito «contaminado», «demasiado comercial».

Hoje, às 18:30, Arménio Vieira estará em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, para ser alvo de uma homenagem em que participam Manuel Alegre, Filipa Leal e durante a qual alguns dos seus amigos – Celina Pereira, José Cunha, Mito Elias, Vera Cruz e Xan – lerão poemas que escreveu.

Depois, regressado a Cabo Verde, vai tratar de duas coisas: a publicação de poemas escritos através de mensagens telemóveis e a reedição da sua obra num volume.

Aos olhos do poeta cabo-verdiano, verter, transformar em poema mensagens escritas em telemóvel nada tem de extraordinário. O telemóvel, argumenta, é um suporte como outro qualquer, como, por exemplo, o computador que tem em casa e em que habitualmente escreve os seus textos.

“Em casa escrevo no computador. No café, escrevo no telemóvel, posso escrever no telemóvel”. A reedição da sua obra não foi ideia dele, mas “de um amigo”. E pode ser – espera – que contribua para uma maior divulgação do que até agora escreveu.

Em Novembro, vai ao Brasil. A convite. Não sabe ainda pormenores, nem está particularmente preocupado com agendas. O que sabe é que esta viagem é, depois da homenagem em Lisboa, um dos primeiros «efeitos» do Prémio Camões, criado em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil e que anualmente distingue um escritor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra.

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