Arnaldo Antunes e a poesia

Por Marcel Lúcio

(Exercício a partir de palavras proferidas durante Festival Literário de Pipa/RN – 2011)

Existe a concepção de que a poesia está em tudo e em todos: onipresente.

A forma de expressão não interessa, existe poesia sempre, onde menos se espera.

Arnaldo Antunes e sua arte comprovam por A mais B as sentenças descritas acima.

Partindo sempre da palavra, Arnaldo Antunes consegue chegar a níveis artísticos inesperados: poesia visual, poesia e música, poesia vocal, arte postal, vídeo-poema, poesia e performance corporal…

Equilibrando seu texto entre a densidade composicional e a leveza da forma, promove, em sua poesia, interação entre linguagens artísticas, em princípio, dissonantes: música, dança, cinema, artes plásticas e literatura.

Assim, sua produção poética pode ser considerada híbrida, por envolver diferentes linguagens artísticas, distintos sistemas semióticos.

Aliás, toda a poesia de Arnaldo Antunes pode ser compreendida como uma tentativa de superação de preconceitos que ocorrem entre os “limites” das manifestações artísticas. A música popular não é menor que a literatura, o texto não-verbal não é inferior ao texto verbal… Arnaldo Antunes trabalha para derrubar as fronteiras entre as linguagens!

Ele sabe que as linguagens estão ligadas entre si, que os diversos sistemas de comunicação precisam uns dos outros para que possam existir. Por isso, a percepção de que as fronteiras entre as linguagens são totalmente permeáveis. A obra de Arnaldo Antunes é a prova!

A abordagem múltipla que as invenções de Arnaldo Antunes oferecem às diversas linguagens serve como pista para as fontes de sua poesia. Pois, em meio à multiplicidade de sua produção, as fontes são irremediavelmente múltiplas e, de início, incongruentes.

As três fontes básicas da poesia de Arnaldo Antunes são: tradição construtivista da poesia (no Brasil, evidenciada principalmente pela Poesia Concreta); tradição lírica da poesia (vertente forte por meio de Bandeira, Drummond e Vinícius de Moraes); e influência da contracultura (visível no espírito de contestação, na necessidade de subversão, na ânsia por atacar o purismo da arte).

A coragem de produzir utilizando diversas linguagens é uma das características da poesia de Arnaldo Antunes. E, desse modo, cada vez mais, fica evidente que os limites entre os sistemas semióticos não existem para o artista que está disposto a trabalhar a multiplicidade da expressão com liberdade e originalidade, como dois corpos que ocupam o mesmo espaço.

Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira – IFRN Campus Natal Cidade Alta

Comentários

Há 12 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 × 4 =

ao topo