Arqueologia tragicômica

Ver um dos maiores atores brasileiros em cena foi, a princípio, o móvel que me fez ficar por mais de três horas numa fila “bíblica”, em busca de dois ingressos para a premiada peça teatral “Pterodátilos”, que teve sua primeira apresentação em Natal, ontem, no controverso Teatro Riachuelo.

Valeu a pena.

De logo, vale dizer que um espetáculo como aquele só podia se realizar aqui, ao preço de R$ 20,00 (vinte reais) por entrada “inteira”, porque contou com o expressivo apoio da nossa valorosa (e valiosa) Petrobras e do indefectível mecenato público do Ministério da Cultura. Du-vi-de-o-dó que, sem um patrocínio cultural dessa ordem, o teatro abandonasse a sua prática de preços elevados (que quase sempre se mantêm além dos cem reais), enquadrando-se numa nova e permanente realidade a que todos os natalenses com verdadeiros interesses culturais e algum bom senso almejam.

Por sinal, fico me perguntando o porquê de o público cultural de Natal, tão afeito a campanhas nas ruas e nos tuíteres, ainda não ter trabalhado uma grita geral, ampla, irrestrita contra os valores cobrados na bilheteria do maior teatro da capital. Será que o Riachuelo não vale mesmo qualquer mísera batalha ou tuitada mais convicta?

Deixando de lado tal problemática, volto-me ao comentário sobre a peça, já destacando o desempenho do seu principal ator, Marco Nanini, em duplo papel, encarnando pai e filha, num contexto absolutamente inusitado do humor negro derramado ao longo dos diálogos ácidos e hilários entre os personagens. Nanini, ao trocar de roupa, troca é de pele. Ao sair do palco como pai alienado e fracassado e voltar como a filha complexada, que, por sinal, diz não caber na própria pele, faz uma transformação que beira o absurdo, sendo possível e verossímil porque é Nanini quem joga com isso.

Nanini e os outros atores conseguem literalmente um importante equilíbrio no palco. Além da convincente e isonômica troca de esforços dramáticos, com papéis desempenhados com maestria por Mariana Lima, Álamo Facó e Felipe Abib, vale destacar que o palco é uma estrutura móvel e pênsil, que vai sendo desconstruído por um dos personagens ao longo da apresentação. Essa criação de Daniela Thomas assume, no inusitado que provoca, verdadeiro lugar de mais um decisivo personagem. Parece mais um vivo barco à deriva, com os buracos surgindo a todo o tempo junto com a revelação de trágicos segredos e uma realidade que fede abaixo do piso, abaixo do piso da sala de (mal) estar, de onde os (nossos?) ossos ancestrais são desenterrados no exercício de uma arqueologia tragicômica.

Temas como dramas familiares, abandono, violência, homossexualismo, AIDS, alcoolismo, traição, suicídio e misérias humanas a granel e milacrias do capitalismo selvagem, tudo é trabalhado na peça de uma maneira tão aparentemente leve e engraçada que por vezes dá até para esquecer que estamos no campo da tragédia. Ou melhor: da tragicomédia, que, em última análise, é o que melhor retrata a peça e a vida. O texto original do norte-americano Nicky Silver e a direção meticulosa de Felipe Hirsch, com produção “idem” de Fernando Libonati, conduzem-nos a uma viagem em torno de nós mesmos e para diante do espelho. Esse espelho que insiste em nos esbofetear sem piedade se encontra diante de nossas faces perplexas e aturdidas.

Em suma, um espetáculo de alto nível e a preço módico. Dá até para afirmar que continuarei frequentando o excelente equipamento cultural que é o Teatro Riachuelo, garimpando e tentando usufruir de oportunidades como essa. Mas, por favor, não contem comigo para apresentações como a de Rafinha Bastos a cento e poucos reais ou de um cover do Abba a ricos R$ 300,00 (trezentos reais).

Pterodátilos, sim! Antas e Tiranossauros Rex, não! Tuiteiros, blogueiros e jornalistas culturais militantes do mundo todo, uni-vos em torno dessa boa causa contra os pesados ingressos teatrais e as insuportáveis “atrações milionárias” que vez ou outra tentam nos impor.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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