Arrastão do Boi Livre em Currais Novos

Fotografias: Rayssa Aline

Um dos poemas mais belos que li de Zila Mamede se chama “Bois dormindo”. Nele, o leitor é convidado a vislumbrar um “destino não de bois mas de meninos/ libertos que vadiassem chão de feno”, numa bela e utópica imagem de liberdade plenamente possível no reino dos sonhos.

E se, no universo onírico, os bois conquistam mundos “ausentes de limites e porteiras”, a realidade pode ser ainda mais aglutinadora de vontades, tornando tangível o que antes ficava restrito aos domínios de Morfeu.

Numa livre analogia entre o boi e o povo, nasceu o Arrastão do Boi, em Currais Novos, interior do Rio Grande do Norte. Uma das manifestações populares típicas do lugar é o chamado “Boi do Trangola”, versão seridoense do Boi Bumbá.

Desde 2013, o Arrastão tem colorido as ruas da cidade com o seu desejo de resgatar uma tradição e, ao mesmo tempo, questionar a realidade vigente com suas alegorias emblemáticas e com o povo assumindo seu lugar na avenida da vida: lugar de liberdade, resistência e sonhos.

Apesar do conservadorismo que quase sempre imperou no setor governamental em Currais Novos, iniciativas de participação popular aconteceram ao longo de sua história.

Na década de 1990, destaca-se o Arrastão da Gorette, bloco carnavalesco nascido na periferia da cidade e que ficou conhecido por seus bonecos gigantes marcados por um forte teor de crítica social e pela ressignificação constante de nossos costumes. Depois de inúmeras tentativas infrutíferas de se manter essa tradição, um vácuo se estabeleceu no carnaval dos Currais.

Desde 2013, o Arrastão colore ruas de Currais Novos para resgatar uma tradição e questionar a realidade

Sonhos de uma criança brincante

Entretanto, o Boi que antes dormia, ruminava sonhos de um retorno apoteótico, e o povo que tinha em seus olhos o brilho de quem se viu representado pelas cores do Arrastão, viu-se mais uma vez conduzido à cartografia genuína de seus sonhos de criança brincante, um tanto ingênua na fé quanto ao futuro, e perspicaz para não deixar morrer aquilo que lhe é essencial.

Desse modo, resiste há sete anos o Carnaval Cultural de Currais Novos, uma iniciativa autenticamente popular que revela a força do povo em fazer prevalecer sua identidade plural e digna de valor.

Um projeto de tal magnitude, apesar de, ao longo dos anos, ter sido mais abraçado pelo poder público, é, sem dúvida, uma prova de que a sociedade civil organizada é suficientemente capaz de romper com as malhas da mediocridade em que a cultura é geralmente emaranhada, o que não desobriga os órgãos governamentais de fazer a sua parte: tratar a arte e a cultura como veículo de transformação do indivíduo e da sociedade, bem indispensável para a sobrevivência em um mundo cada vez mais materialista e esquecido daquilo que é humano, demasiadamente humano.

Enquanto não for criado o espaço de direito para a cultura em sua condição dialética, que atua negando os entornos da realidade para transformar o homem e seu mundo social, a necessidade de expressão artística e do belo ainda persistirá nas manifestações populares, reivindicando o reconhecimento devido.

O Arrastão do Boi é uma prova desse desejo.

E se os “bois” de Zila ainda dormem, pois “cansaram/ de ver que o chão em pasto não rebenta”, o Boi do Carnaval faz dos 365 dias do ano um constante despertar, lúdico e lírico, mas sobretudo, lúcido, na tarefa árdua e prazerosa de ver nossa cultura resistir e se espalhar.

Escritora, agente cultural, graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem [ View all posts ]

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