Art Spiegelman

art“O desenhista americano Art Spiegelman, de 61 anos, faz quadrinhos, mas nem tanto, e literatura, mais do que conseguiria admitir. Desde que encenou a experiência do pai em um campo de concentração na densa e linear história Maus, de 1986, ele tornou os gibis sérios. Ninguém brinca com Art Spiegelman. Ninguém ri.

O artista expressa seu pensamento neste admirável Breakdowns (Companhia das Letras, 312 págs., R$ 79), um livro como um surto, reunião de histórias editada pela Nostalgia Press, em 1978, e acrescida de uma introdução tão grande quanto o volume original. Ali está o Maus pioneiro, três páginas de 1972 que originaram o clássico, um pesadelo real que o pai conta ao filho na hora de dormir.

A imaginação explosiva desse artista de todas as técnicas exclui o humor aberto, mas não a explicação sobre ele, já que a personalidade certeira de Spiegelman é sempre a do crítico extremado, a do intelectual.

Desconstruindo Piadas, de 1975, mostra por que o incomoda a necessidade de fazer rir. A graça, ele entende, dança perigosamente entre a tragédia e o insulto. “Ainda rimos dos desafortunados, dos deformados e dos loucos”, escreve em um quadro, ao analisar uma piada de psicanalista. “Mas, para evitar um sentimento de culpa capaz de impedir os prazeres do riso, deve haver um equilíbrio habilidoso entre agressão e afeto”, ensina.

No dia em que Spiegelman descobriu que os cartuns não nasciam em árvores, quis ser um daqueles que os faziam. Ser um cartunista equivaleu a uma salvação pessoal, ele que fora internado em hospital psiquiátrico e sofrera horrores com o suicídio da mãe. Mas haveria muitos obstáculos à realização dessas pequenas peças cômicas, como lhe ensinaria Chris Ware. “Quando você não entende uma pintura, você acha que é burro. Quando não entende uma história em quadrinhos, acha que o cartunista é burro.”

Robert Crumb o libertou da necessidade de ser popular nos anos 70. Justin Green ensinou-lhe que um artista dos quadrinhos poderia falar da própria vida. Ken Jacobs o fez olhar para a arte. Na vanguarda do pensamento artístico do século XX, ele encontrou uma explicação para seu desejo de experimentar nos quadrinhos. Consagrado, Spiegelman ainda, e estranhamente, persegue o passe para a ousadia.

“A arte existe para que se possa recupe-rar a sensação da vida. Ela existe para te fazer sentir”, diz Victor Shklovsky em A Arte como Técnica, de 1917, que o desenhista ilustra ao fim de sua introdução. “A técnica da arte é tornar os objetos estranhos, dificultar as formas, aumentar a dificuldade e a duração da percepção”, ensinou-lhe o teórico russo. “A arte é uma forma de experimentar o artifício de um objeto. O objeto não é importante.”  Rosane Pavam – Carta Capital

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