Artaud na janela

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Não existe nada que tenha sido alguma vez escrito, ou pintado, esculpido, modelado, construído, inventado, a não ser para sair do inferno. A frase não é minha, como sabem, mas de Antonin Artaud (1896-1948), o poeta, ator e dramaturgo francês, autor de O teatro e seu duplo. Eu a anotei, muitos anos atrás, em uma tira de papel que, sem nenhum motivo especial (acho), usei como marcador para O duplo, o romance de Dostoievski. A edição é dos anos 1970 e eu a ganhei de presente, vejo na dedicatória, de meu amigo João Antonio, o autor de Malagueta, Perus e Bacanaço. O papel está amarelado, roto, mordido pelo tempo. Mas aqui está, aqui resiste bem diante de mim.

Não carregasse a frase de Artaud, e há muito teria ido para o lixo. Guardei, portanto, a frase, não a tira de papel. E hoje eu a reencontrei. Uma frase que agora levo atravessada no peito. Uma frase, cogito, que talvez João Antonio tenha me enviado _ como uma mensagem destinada ao futuro. Sou agnóstico _ o inferno não me diz respeito. Mas Artaud nos fala de outro inferno. Não aquele mundo de fogo e horror representado na pintura renascentista. Não o inferno dos capetas e das brasas. Fala do inferno interior, esse espaço de desordem e contravença que todos carregamos dentro de nós. Quem dele escapa? Ninguém. Esse inferno intimo está sempre a arder, e desse fogo precisamos, sempre, fazer alguma coisa. Artaud está certo: o melhor é fazer alguma arte.

Sempre que leio na imprensa relatos de atrocidades cometidas por psicopatas, assassinos, prisioneiros irrecuperáveis, terroristas, penso em Artaud. Penso: o que esse sujeito miserável teria sido se, como Artaud, em vez de matar, tivesse criado? A idéia me arrepia porque liga a criação à morte. Ao crime _ e a arte não deixa de ser um crime contra a ordem bem pensante e bem orquestrada da realidade. Artaud não foi um homem de meias palavras; João Antonio também não. Como teria sido se tivessem se conhecido? Se tivessem a chance de tomar uma rodada de chope em um bar de Copacabana?

Os tempos mudaram. Pés sujos são, hoje, restaurantes elegantes. Bares fétidos se transformaram em bistrôs. Botequins, continuam a ser botequins, mas com sua griffe. Botecos, se tornaram cafés de degustação. Tempos mais limpos, mais proveitosos, mais suaves.

Copacabana ergueu-se, saiu da decadência de duas ou três décadas atrás, tornou-se (voltou a ser) um bairro elegante. Penso em Artaud, circulando pelos cafés de Copacabana. Penso em João Antonio, com suas bermudas antigas e suas havaianas desgastadas, resmungando contra as elites e os almofadinhas. Penso na loucura, de que todos lutamos sempre para escapar, mas para a qual a realidade (louca ela também) nos puxa.

Diz-se que Artaud era louco ou, pelo menos, que tinha um pé na loucura. Mas quem não tem? Dizia-se que João Antonio falava demais, que era inconveniente, briguento, resmungão. Verdades _ parciais. Faltam as sutilezas! Não podemos achatar os homens em fôrmas, a arte nos ensina isso. Ninguém é só o que é. Todos somos algo a-mais. E este a-mais é a potência que nos leva a criar. Que nos resgata não do inferno do Vaticano, mas de nosso próprio inferno pessoal, que é muito mais pavoroso.

Aí _ inevitável _ penso nos artistas sensatos, equilibrados, razoáveis, que pontificam na mídia, nas universidades e nos congressos. Em contrapartida, penso em Oswald de Andrade, penso em Glauber Rocha, penso em Paulo Leminski, os inquietos, os incontroláveis, ou homems “sem razão”. Foi dessa “sem razão” (os doutores diriam: dessa loucura) que tiraram sua arte. O psiquiatra de Van Gogh também desejou “curá-lo” da pintura! A arte é feita de fogo.

Para relaxar, ouço “Keith Jarret no Blue Note”, um cedê a que sempre retorno. A música de Jarret se dissolve no espaço, como uma condenação. Ela se entranha em minha mente e me agita. Ela é o inferno! _ diriam alguns. Digo ao contrário: ela nos tira do inferno e nos devolve ao humano. Com a arte, Artaud estava certo, abandonamos o inferno. Saímos de nós mesmos, como objetos que se desembrulham, e eis que somos! A arte nos tira do banal. Arranca-nos da repetição. Abre janelas onde já havia uma parede cerrada. Nelas nos debruçamos. Ao lado de Artaud, nelas resistimos.

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