Arte, ciência e desenvolvimento

Belo ensaio, recomendo a leitura. Ha que existir um diálogo entre a Ciencia e as artes. O livro do Snow, citado por Joãozinho, é muito bom

ENSAIO

Um documentarista se dirige a cientistas
Arte, ciência e desenvolvimento

RESUMO Neste ensaio, derivado de uma participação do documentarista João
Moreira Salles em simpósio da Academia Brasileira de Ciências, discute-se
a hipervalorização das artes e humanidades em detrimento das ciências
“duras” e da engenharia, e as consequências do processo para o
desenvolvimento tecnológico, científico e cultural do país.

JOÃO MOREIRA SALLES

Agradeço ao professor Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de
Ciências, o convite que me fez para falar a uma plateia de colegas seus,
na crença de que eu pudesse servir de porta-voz das humanidades num
encontro de cientistas. Peço desculpas por desapontá-lo.
Sou ligado ao cinema documental e, mais recentemente, ao jornalismo,
atividades que, se não são propriamente artísticas, decerto existem na
fronteira da criação. Jornalismo não é literatura nem documentário é
cinema de ficção. Nosso capital simbólico é muito menor e nosso horizonte
de possibilidades é limitado pelos constrangimentos do mundo concreto.
Não podemos voar tanto, e essa é a primeira razão pela qual, com notáveis
exceções, o que produzimos é efêmero, sem grande chance de permanência.
Não obstante, é fato que minhas afinidades pessoais e profissionais estão
muito mais próximas de um livro ou de um filme do que de uma equação
diferencial -o que não me impede de achar que há um limite para a
quantidade de escritores, cineastas e bacharéis em letras que um país é
capaz de sustentar.
Isso deve valer também para sociólogos, cientistas políticos e
economistas, mas deixo a suspeita por conta deles. Na minha área, creio
que já ultrapassamos o teto há muito tempo, e me pergunto de quem é a
responsabilidade. Em 1959, o físico e escritor inglês C.P. Snow deu uma
famosa palestra na Universidade de Cambridge sobre a relação entre as
ciências e as humanidades. Snow observou que a vida intelectual do
Ocidente havia se partido ao meio.
De um lado, o mundo dos cientistas; do outro, a comunidade dos homens de
letras, representada por indivíduos comumente chamados de intelectuais,
termo que, segundo Snow, fora sequestrado pelas humanidades e pelas
ciências sociais. As características de cada grupo seriam bem peculiares.
Enquanto artistas tenderiam ao pessimismo, cientistas seriam otimistas.
Aos artistas, interessaria refletir sobre a precariedade da condição
humana e sobre o drama do indivíduo no mundo. O interesse dos cientistas,
por sua vez, seria decifrar os segredos do mundo natural e, se possível,
fazer as coisas funcionarem. Como frequentemente obtinham sucesso, não
viam nenhum despropósito na noção de progresso.
Estava estabelecida a ruptura: de um lado, o desconforto existencial,
agravado pela perspectiva da aniquilação nuclear; do outro, a penicilina,
o motor a combustão e o raio-X. Na qualidade de cientista e homem de
letras, Snow se movia pelos dois mundos, cumprindo um trajeto que se
tornava cada vez mais penoso e solitário.
“Eu sentia que transitava entre dois grupos que já não se comunicavam”,
escreveu. Certa vez, um amigo seu, cidadão emérito das humanidades, foi
convidado para um daqueles jantares solenes que as universidades inglesas
cultivam com tanto gosto. Sentando-se a uma mesa no Trinity College -onde
Newton viveu e onde descobriu as leis da mecânica clássica- e feitas as
apresentações formais, o amigo se virou para a direita e tentou entabular
conversa com o senhor ao lado.
Recebeu um grunhido como resposta. Sem deixar a peteca cair, virou-se para
o lado oposto e repetiu a tentativa com o professor à sua esquerda. Foi
acolhido com novos e eloquentes grunhidos.
Acostumado ao breviário mínimo da cortesia -segundo o qual não se ignora
solenemente um vizinho de mesa-, o amigo de Snow se desconcertou, sendo
então socorrido pelo decano da faculdade, que esclareceu: “Ah, aqueles são
os matemáticos.
Nós nunca conversamos com eles”. Snow concluiu que a falta de diálogo
fazia mais do que partir o mundo em dois. A especialização criava novos
subgrupos, gerando células cada vez menores que preferiam conversar apenas
entre si.

SÍNTESE E ORDEM Não sei se alguém já voltou a conversar com os
matemáticos. Torço para que sim, apesar das evidências em contrário. Seria
um desperdício, pois a matemática, para além dos seus usos, é guiada por
um componente estético, por um conceito de beleza e de elegância que a
maioria das pessoas desconhece.
O que move os grandes matemáticos e os grandes artistas, desconfio, é um
sentimento muito semelhante de síntese e ordem. Os dois grupos teriam
muito a dizer um ao outro, mas, até onde sei, quase não se falam. (No
passado, o poeta Paul Valéry deu conferências para matemáticos e o
matemático Henri Poincaré falou para poetas.)
Segundo Snow, com a notável exceção da música, não há muito espaço para as
artes na cultura científica: “Discos. Algumas fotografias coloridas. O
ouvido, às vezes o olho. Poucos livros, quase nenhuma poesia.” Talvez seja
exagero, não saberia dizer. Posso falar com mais propriedade sobre a outra
parcela do mundo, e concordo quando ele diz que, de maneira geral, as
humanidades se atêm a um conceito estreito de cultura, que não inclui a
ciência.
Os artistas e boa parte dos cientistas sociais são quase sempre cegos a
uma extensa gama do conhecimento. Numa passagem famosa de sua palestra,
Snow conta o seguinte: “Já me aconteceu muitas vezes de estar com pessoas
que, pelos padrões da cultura tradicional, são consideradas altamente
instruídas.
Essas pessoas muitas vezes têm prazer em expressar seu espanto diante da
ignorância dos cientistas. De vez em quando, resolvo provocar e pergunto
se alguma delas saberia dizer qual é a segunda lei da termodinâmica. A
resposta é sempre fria -e sempre negativa. No entanto, essa pergunta é
basicamente o equivalente científico de ‘Você já leu Shakespeare?’.
Hoje, acho que se eu propusesse uma questão ainda mais simples -por
exemplo: ‘Defina o que você quer dizer quando fala em ‘massa’ ou
‘aceleração”, o equivalente científico de ‘Você é alfabetizado?’-, talvez
apenas uma em cada dez pessoas altamente instruídas acharia que estávamos
falando a mesma língua”.

RESPONSABILIDADE Vivendo quase exclusivamente no hemisfério das
humanidades, recebo poucas notícias do lado de lá. O que eu teria a dizer
sobre ciência fica perto do zero. Por outro lado, como especialista na
minha própria ignorância, posso discorrer sobre ela sem embaraços. Com as
devidas ressalvas às exceções que devem existir por aí, estendo minha
ignorância a todo um grupo de pessoas e me pergunto de quem seria a
responsabilidade por sabermos tão pouco sobre as leis que regem o que nos
cerca.
As respostas são previsíveis. Em parte, a responsabilidade é dos próprios
cientistas, que não fazem questão de se comunicar com a comunidade
não-científica; em parte é dos governos, que raramente têm uma política
eficaz de promoção da ciência nas escolas; e em parte -e essa é a parte
que mais me interessa- é nossa, das humanidades, que tomamos as ciências
como um objeto estranho, alheio a tudo o que nos diz respeito. A quase
totalidade dos personagens de classe média da literatura e do cinema
brasileiro contemporâneos pertence ao mundo dos artistas e intelectuais.
São jornalistas, escritores (geralmente em crise e com bloqueio),
professores (quase sempre de história, filosofia ou letras), antropólogos,
viajantes (à deriva), cineastas, atores, gente de TV ou filósofos de
botequim. Quando muito, um empresário aqui, um advogado acolá. Para
encontrar um engenheiro ou médico, é preciso voltar quase a Machado de
Assis. Cientistas são pouquíssimos, se bem que no momento não me lembro de
nenhum. (Os filmes de Jorge Duran são uma exceção, mas ele nasceu no
Chile.)
É como se, do lado de fora das disciplinas criativas, não houvesse
redenção. Em “Cidade de Deus”, o menino escapa do ciclo de violência
quando recebe uma máquina fotográfica e vira fotógrafo. Não parece ocorrer
a ninguém -nem aos personagens, nem ao público- a possibilidade de ele
virar biólogo, meteorologista ou mesmo técnico em ciência.
“Cidade de Deus” é uma narrativa realista, e portanto tende a preferir o
provável ao possível. Mas não é só isso. Nenhuma daquelas profissões
soaria suficientemente cool ao público -seria um anticlímax. Em nome da
eficácia narrativa, bem melhor ele virar artista. Eleição para a Academia
Brasileira de Letras dá página de jornal.
Já no caso da Academia Brasileira de Ciências, saindo da comunidade
científica, é improvável achar alguém que tenha pelo menos noção de onde
ela fica, que dirá saber o nome de algum acadêmico.
Há pouco tempo, escrevi o perfil de um jovem matemático carioca, Artur
Avila. Boa parte dos meus amigos -alguns deles muito bem informados- não
sabia da existência do Impa [Instituto Nacional de Matemática Pura e
Aplicada], sob vários aspectos a melhor instituição de ensino superior do
país (o número de artigos publicados em revistas de circulação
internacional de alto padrão científico, por exemplo, põe o Impa de par em
par com alguns dos grandes centros americanos de matemática, como Chicago
e Princeton).

DESCOLADOS Uma das minhas obsessões é folhear a revista dominical do
jornal “O Globo” . Existe ali uma seção na qual eles abordam jovens
descolados na saída da praia, de cinemas, lojas e livrarias, para conferir
o que andam vestindo. No pé da imagem, informa-se o nome e a profissão da
pessoa.
Um número recente trazia um designer, uma produtora de moda, um estudante,
uma dona de restaurante, um assistente de estilo, outra designer, uma
jornalista, uma publicitária, um “dramaturg” (estava assim mesmo), uma
estilista, outra estilista e alguém que exercia a misteriosa profissão de
“coordenadora de estilo”.
Acompanho essas páginas há um bom tempo, e estatisticamente o resultado é
assombroso. Conto nos dedos o número de engenheiros, médicos ou biólogos
que vi passar por ali. Eles não podem ser tão malvestidos assim. De duas,
uma: ou são relativamente poucos, ou a revista prefere destacar as
profissões que considera mais charmosas.
As duas alternativas são muito ruins, mas a segunda me incomoda
particularmente, pois sei por experiência como é poderosa a atração
exercida por algumas profissões com alto cachê simbólico.
Dou aula na PUC-Rio, no departamento de comunicação, que num passado
recente oferecia apenas cursos de jornalismo e publicidade. Durante alguns
anos, lecionei história do documentário para turmas de futuros
jornalistas. Em 2005 foi criada a especialização em cinema -e, hoje, quase
todos os meus trinta e poucos alunos são estudam cinema.

PESADELO Existem no Rio quatro universidades que oferecem cursos de
cinema; no Brasil, são ao todo 28, segundo o Cadastro da Educação Superior
do MEC. No ano passado, a PUC-Rio formou três físicos, dois matemáticos e
27 bacharéis em cinema.
Existem 128 cursos superiores de moda no Brasil. Em 2008, segundo o Inep
[Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira],
o país formou 1.114 físicos, 1.972 matemáticos e 2.066 modistas. Alimento
o pesadelo de que, em alguns anos, os aviões não decolarão, mas todos nós
seremos muito elegantes.
É evidente que um país pode ter documentaristas demais e físicos de menos.
O Brasil já sofre uma carência de engenheiros. Segundo dados de um
relatório do Iedi [Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial]
entregue ao ministro da Educação, Fernando Haddad, a taxa de formação de
engenheiros no Brasil é inferior à da China, da Índia e da Rússia, países
emergentes com os quais competimos.
A Rússia forma 190 mil engenheiros por ano, a Índia, 220 mil e a China,
650 mil, diz o relatório. Nós formamos 47 mil. Os números da China são
pouco confiáveis, mas outras comparações eliminam possíveis dúvidas. A
Coreia do Sul, por exemplo, com 50 milhões de habitantes, forma 80 mil
engenheiros por ano, 26% de todos os formandos.
Na China, a crer nas métricas, essa proporção chega a 40%. Em 2006, a taxa
por aqui era de apenas 8%. Até o México, país com indicadores sociais
semelhantes aos nossos, hoje possui 14% de seus formandos nessa área.

ESTAGNAÇÃO Companhias que integram a “Fortune 500”, lista das maiores
empresas do mundo, mantêm 98 centros de pesquisa e desenvolvimento na
China e outros 63 na Índia. No Brasil aparentemente não é feita esta
contagem; se o número existe, consegui-lo é uma proeza, o que só confirma
a pouca importância atribuída ao assunto. O relatório do Iedi mostrou que
os gastos totais em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB estão
estagnados no país. Há cinco anos não cresce o número de empresas que
investem em desenvolvimento.
Em 2009, apesar da crise, a Toyota sozinha registrou mais de mil patentes.
A soma de todas as patentes requeridas pelas empresas brasileiras não
chegou à metade disso, segundo a Anpei [Associação Nacional de Pesquisa e
Desenvolvimento das Empresas Inovadoras]. Somos detentores de 0,3% das
patentes do planeta. Em termos de inovação, ocupamos o 24º lugar entre as
nações. O país prospera à força de consumo, não de investimento ou
invenção.
Compramos coisas que foram pensadas lá longe, as quais serão brevemente
superadas por outras coisas que também não terão sido pensadas aqui. É um
processo estéril. Escritores, cineastas e editores de suplementos
dominicais se espantariam em saber que, na China, a proficiência em
matemática desfruta de uma forte valorização simbólica.
Na Índia, um jovem programador de software se sente no topo do mundo. Há
pouco tempo, o jornalista Thomas Friedman, do “New York Times”, publicou
uma coluna sobre os 40 finalistas de um concurso promovido pela empresa de
processadores Intel, que premia os melhores alunos de matemática e
ciências do ensino médio americano.
Cada um deles solucionou um problema científico. Eis o nome dos jovens
americanos premiados: Linda Zhou, Alice Wei Zhao, Lori Ying, Angela Yu-Yun
Yeung, Kevin Young Xu, Sunanda Sharma, Sarine Gayaneh Shahmirian, Arjun
Ranganath Puranik, Raman Venkat Nelakant -assim prossegue a lista, até
terminar com Yale Wang Fan, Yuval Yaacov Calev, Levent Alpoge, John
Vincenzo Capodilupo e Namrata Anand.

VALORIZAÇÃO PÍFIA Enquanto isso, como lembra o matemático César Camacho,
diretor do Impa, várias universidades brasileiras têm vagas abertas para
professores de matemática, não preenchidas por falta de candidatos. A
valorização das ciências entre nós é pífia. Sempre me espanto com a
presença cada vez maior de projetos sociais que levam dança, música,
teatro e cinema a lugares onde falta quase tudo.
Nenhuma objeção, mas é o caso de perguntar por que somente a arte teria
poderes civilizatórios. Ninguém pensa em levar a esses jovens um
telescópio ou um laboratório de química ou biologia? Centenas de
estudantes universitários gostariam de participar de iniciativas assim.
Com entusiasmo -e um pró-labore-, mostrariam que a ciência também é legal
e despertariam talentos. Seria bom também se o nosso sistema educacional
fosse mais flexível, com cadeiras de humanidades e iniciação científica no
ciclo básico de todos os cursos universitários.
É imprudente tomar uma decisão definitiva aos 18 anos de idade, mas é
exatamente o que têm de fazer os alunos ao entrar na universidade -embora,
como norma, eles não saibam para o que têm vocação. Uma vez escolhido o
escaninho, somem as oportunidades de conhecer outras áreas e eventualmente
migrar.
Se em algum momento a vocação se manifesta, em geral o aluno e sua família
consideram que é tarde. Circunstâncias econômicas ou psicológicas -começar
de novo exige determinação férrea- dificultam muito um ajuste de rota.
(Sei bem como é, porque foi o meu caso.) É absolutamente certo que, neste
momento, alguns milhares de jovens estão prestes a cometer o mesmo
equívoco.
Muitos se revelarão apenas medianos ou preguiçosos, e é provável que a
ciência não tenha como alcançá-los. Sem desmerecer os excelentes alunos de
cinema, letras ou sociologia, é impossível negar que, para alguém sem
grande talento ou dedicação, será sempre mais fácil ser medíocre num curso
de humanas do que num de exatas.
Alguns desses jovens sem orientação provavelmente terão inclinação para as
ciências e ainda não descobriram. É preciso criar mecanismos que os ajudem
a escolher o caminho certo. Infelizmente, as artes e as humanidades, pelo
menos por enquanto, não colaboram muito. Ao contrário. Nós disputamos
esses jovens e, infelizmente, até aqui estamos ganhando a guerra.

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