A arte como fonte, em Piketty e Moretti

Por Luís Augusto Fischer e André Dutra Boucinhas
ILUSTRÍSSIMA/FOLHA DE SÃO PAULO

RESUMO

O italiano Franco Moretti e o francês Thomas Piketty, em obras de história literária e econômica, retomam projetos de grandes sínteses. Moretti recorre à pintura como fonte documental, enquanto Piketty se serve do romance, do cinema e de séries
de TV para abordar questões relativas à desigualdade no capitalismo.

*
A época é de superespecialização, que obriga ao detalhe e tira do radar a visada de
conjunto. Grandes sínteses, tramadas em narrativas amplas, parecem ter ficado no
passado. Mas eis que duas figuras, vindas de excelentes universidades, apontam na
direção oposta.

Um é Franco Moretti, italiano, professor em Stanford e já conhecido do público
brasileiro por livros como “Atlas do Romance Europeu” (Boitempo, 2003) e “A Literatura Vista de Longe” (Arquipélago, 2008); agora lança “O Burguês ­ Entre a História e a Literatura” [trad. Alexandre Morales, Três Estrelas, R$ 45, 247 págs.].

O outro era pouco conhecido até que seu livro, fruto de uma pesquisa de 15 anos, saiu
em inglês no primeiro semestre deste ano, com enorme repercussão internacional: O autor, Thomas Piketty, é francês, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e professor da Escola de Economia de Paris.

O italiano é um historiador da literatura de grande originalidade, afeito à perspectiva
empirista. Alinha­se com Lukács e outros marxistas, como Roberto Schwarz ­crucial
para Moretti­, mas sem ortodoxia. Já se declarou um darwinista, o que ajuda a entender suas teses principais, voltadas para a análise do modo como a forma romance triunfou.

No livro atual, estuda o burguês na ficção, começando com o caso de Defoe e seu
“Robinson Crusoé”, passando por Balzac, Flaubert, Jane Austen, entre outros, e
alcançando Conrad, Machado de Assis, Giovanni Verga e, numa exceção, o
dramaturgo Ibsen. Moretti mostra como certas palavras­chave ­”utilidade”, “eficiência”, “conforto”, “ritmo de continuidade” etc.­ e certas estruturas narrativas dão substância ao processo de consolidação histórica dessa figura.

Piketty está na ordem do dia do debate econômico. A força de seu livro começa no
título, que ousa evocar Marx, com bem menos ambição teórica, e puxa o debate para o nosso tempo.

Como se sabe, ele demonstra, com números e gráficos acessíveis, a tendência do
capitalismo de aumentar a concentração de riqueza. Trata como fantasia a tese da
virtude distributiva do mercado autônomo e sublinha que apenas crises prolongadas
(como as Guerras Mundiais e a que se seguiu ao crack de 1929) ou a intervenção
estatal podem evitar esse movimento. Também mostra, e insiste, que a difusão do
conhecimento e o investimento em educação compõem uma força nítida a favor da
diminuição da desigualdade.

Pretensão demasiada na opinião de muitos, em particular de economistas afeitos ao
debate teórico ­que não será abordado aqui, porque está muito acima das tamancas
dos resenhistas.

O foco deste texto está em dois traços fortes do livro. Um deles é a sua perspectiva
histórica ampla, que descreve a trajetória da desigualdade econômica no Ocidente, em particular na França e no Reino Unido, mas também em outros países da Europa e nos EUA. São nações onde há dados confiáveis sobre renda e propriedade, em séries históricas largas, algo que o Brasil não oferece ­e por isso ficou fora do livro. O segundo traço é o peculiar aproveitamento que Piketty faz do romance (e do cinema) para exemplificar essa história.

O atual livro de Moretti, de escrita clara e antipernóstica, ganha ao ser lido na
companhia de sua obra anterior, mas é autônomo. O catatau de Piketty também se
deixa ler com grande fluência por qualquer interessado em história e ciências sociais.

Para o eventual interessado, há um suplemento on­line com uma profusão de dados,
tabelas e cálculos (intrinseca.com.br/ocapital/anexo­tecnico.html).

Sendo de natureza bem diversa ­um de teoria e história da literatura, outro de história
econômica­, os dois livros compartilham a vontade de intervir no debate público
mediante um desenho panorâmico que parte de amplo conjunto de dados. Moretti se
fixa nos séculos 18 e 19, ao passo que o arco temporal de Piketty vem de 1789 a 2010.
Têm os dois o mesmo assunto, no final das contas: o mundo burguês em sua
afirmação.

Os materiais literários e artísticos dos dois livros se complementam. Moretti, que leva muito em conta a pintura holandesa do século 17, como Vermeer e Jan Steen, desce a detalhes na análise do protoburguês Robinson Crusoé, personagem­título do romance publicado em 1719, representante do mundo anterior à Revolução Industrial e totalmente ausente da análise de Piketty.

A ênfase inicial da obra do francês recai em Jane Austen (1775­1817), cujos grandes
romances vieram a público na década de 1810, e em Balzac (1799­1850), cujo “Pai
Goriot” foi editado em 1835. Austen e Balzac também aparecem bastante em Moretti, mas o italiano avança para a parte final do século 19, com Machado de Assis, Conrad, Verga ­e, na pintura, com Ingres, Manet e o inglês Millais­ e Ibsen. Piketty lhe toma o bastão e vai adiante, citando bastante cinema ­Orson Welles, William Wyler, Stanley Kubrick, mas também “… E o Vento Levou” e o Walt Disney dos “Aristogatas”­, para alcançar Tarantino e as séries da atualidade, como “Dr. House” e “Desperate Housewives”.

HERANÇA

Tomemos um caso particular do livro de Piketty, o capítulo 11, “Mérito e Herança no
Longo Prazo”, de grande interesse para o debate sobre o romance. Estabelecida a
premissa de que em todas as sociedades só há duas maneiras de alcançar patamar
confortável de vida, o trabalho ou a herança, ele evoca um célebre caso balzaquiano,
retomado várias vezes na análise, extraído de “O Pai Goriot”.

O vivido e cínico Vautrin explica ao provinciano e iludido Rastignac que, se ele estudar direito e se dedicar bastante, num cenário bastante otimista, receberá um pagamento de 1.200 francos por ano como juiz; por outro lado, se casar com uma herdeira de 1 milhão de francos que parece ter uma queda por ele, terá uma renda anual de 50 mil francos ­o que equivalia ao máximo que um advogado poderia sonhar ter após 40 anos de trabalho duro e muita sorte.

O ponto levantado pelo autor é o rendimento sobre o capital (em especial terras) ser
muito superior do que o obtido através de salários no século 19, mesmo os mais altos.

Essa foi a lógica elementar da desigualdade, tema do estudo, desde o começo do
período considerado até a Primeira Guerra, quando começa a mudar a relação entre
trabalho e herança, as duas possibilidades de acesso a um padrão de vida elevado.
Piketty demonstra que os valores indicados nos romances são muito precisos.
Piketty usa a literatura também para estudar atitudes. Cesar Birotteau, outro
personagem de Balzac (“Ascensão e Queda de Cesar Birotteau”), resolve se arriscar
em um complexo negócio que promete render de 7% a 8% ao ano, mesmo contra os
conselhos de sua mulher, que insiste para que ele compre uma fazenda.

Nem ela nem o narrador mencionam por que seria mais seguro investir em uma
propriedade rural, já que todos os leitores conheciam a estabilidade desse tipo de
capital, contrastando com seu menor rendimento (em torno de 5%).

Aqui, poderíamos dizer que Piketty perde uma oportunidade de intensificar o
cruzamento da análise econômica com a crítica literária. Não há em seu trabalho
qualquer problematização acerca do ponto de vista do narrador ­questão essencial para a interpretação de um texto ficcional­, que bem pode estar distorcendo ou exagerando os dilemas e as decisões das pessoas no século 19. Birotteau, por exemplo, foi criado para ser o típico burguês na visão dos narradores reacionários de Balzac: ambicioso, ingênuo, intelectualmente limitado.

No geral, aliás, Piketty trata os enredos e personagens de modo direto, sem mediação ­ trata-­os como eloquentes documentos (o que tem bom cabimento em se tratando do romance de vocação realista, como é o caso). Nisso, Moretti dá grandes lições ­por exemplo, quando demonstra que a utilização do discurso indireto livre, a partir de Flaubert, faz com que personagem e narrador percam sua distinção, “subsumida pelo discurso compósito da doxa burguesa”. Mas o leitor não especialista sente falta, em Moretti, de uma costura entre as diversas evidências apontadas.

MERITOCRACIA

Nos comentários sobre a atualidade, Piketty tem notável ousadia. Para evidenciar o
modo pelo qual a grande desigualdade nos EUA de hoje é mascarada de forma
sutilíssima pelo discurso meritocrático, ele encontra nas charmosas séries televisivas atuais o material certo.

“Não são apenas as referências monetárias explícitas que desapareceram da literatura depois que a inflação acabou com todas as antigas referências: os próprios rentistas sumiram e, com sua partida, toda a representação social da desigualdade se
transformou. Na literatura e na ficção contemporânea, as desigualdades entre os
grupos sociais aparecem quase exclusivamente sob a forma de disparidades em
relação ao trabalho, aos salários, às qualificações.”

O sumiço dos “de baixo”, dos “losers”, assim como a desaparição das referências do
mundo da ascensão social, junto ao protagonismo quase exclusivo, em muitas dessas séries, de heróis cheios de diplomas e doutorados, pode ser lida, diz o autor, como “um hino” a uma desigualdade vista, perversamente, como justa.

Se Piketty vivesse no Brasil, talvez se deliciasse com as telenovelas de sucesso,
tramadas com fartura de heranças, filiações obscuras, alianças via casamento, e
ascensão social para os bem­comportados de baixo. Mas ele, como qualquer outro
cientista social, também encontraria material maiúsculo para a reflexão sobre a
desigualdade social nos grandes romancistas brasileiros.

Economistas e historiadores econômicos brasileiros, de forma geral ­ilustre exceção é o ensaio “A Economia em Machado de Assis ­ O Olhar Oblíquo do Acionista”, de Gustavo Franco (Zahar, 2007)­ pouco exploraram as obras de Machado de Assis e José de Alencar, entre outros, em que proliferam as referências a heranças, oportunidades de negócio, falências, salários, rendimentos, preços.

Certamente não foi à toa que Machado, ao descrever a herança deixada por Quincas
Borba para Rubião em seu testamento, se preocupou em especificar que não eram
“cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital inteiro, especificados os bens,
casas na Corte, uma em Barbacena, escravos, apólices, ações do Banco do Brasil e de
outras instituições, joias, dinheiro amoedado, livros”.

Tentando calcular quanto isso tudo valia, Rubião chega a imaginar algo em torno de
300 contos ­o que, para termos uma ideia, equivalia a 300 escravos por volta de 1870.
Somente esse trecho já renderia uma análise sobre possibilidades de investimento no
Brasil do Segundo Reinado, além de uma ideia precisa do que se considerava uma
grande riqueza imperial. E, com mais calma, seria possível tentar traçar relações entre o tipo social de Quincas Borba e suas opções de aplicação de dinheiro.

Esse exemplo atesta a importância da herança na formação da riqueza brasileira
oitocentista e dá uma pequena amostra de sua expressiva presença no romance da
época, exatamente o que Pikkety apontou para a Europa e Estados Unidos no mesmo
período, reforçando a ideia de que suas hipóteses têm validade para nosso país ­até
que ponto, ainda precisamos averiguar. Mas é fora de dúvida que seu livro abre
caminhos novos para o debate. Mais ainda no Brasil de nosso tempo, em que a
mobilidade social é uma evidência, que a ficção por certo acompanha.
LUÍS AUGUSTO FISCHER, 56, é professor de literatura brasileira da UFRGS e autor de, entre outros, “Machado e Borges” (Arquipélago).

ANDRÉ DUTRA BOUCINHAS, 36, é historiador, autor de “Pernambuco em Chamas” (Fundação Joaquim Nabuco) com Rubim Santos Leão de Aquino e Francisco Roberval Mendes.

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