A ARTE DE SER TARDE

A tarde é um pássaro líquido, um voo pelo mundo,
um deus alado vagando crepúsculos,
soluçando cânticos.

Por inverossímil que seja toda tarde é invisível.
Ninguém a vê como tarde, mas uma fantasia
que transcende o improvável dia.

A tarde não é ocupada pelo corpo,
mas pelo espaço,
e tudo se reduz a seu elemento,
e nada é demasiado longe mas eterno.

É preciso atravessar a transparência, quebrar a vidraça,
a redoma que protege o dia;
é preciso libertar o peso,
como quem inveja o olhar do vizinho
e a sua viagem pelo infinito.

O que me fascina é voar sem asas,
negar a queda à superfície,
como um pássaro esculpido numa pedra.

Nele o espírito solitário se liberta,
deixa cair suas asas
e encontra o que lhe convém e o define:
a arte da ação e o repouso da arte.
Como a tarde que se vê na tela.

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