Arte e vertigem

Por Francisco Quinteiro Pires
O Estado de S.Paulo

De repente, o que era familiar se transformou. “As coisas à volta ganharam novos contornos e uma tradição zelosamente cuidada desapareceu como uma vertigem.” O artista chinês Wang Qingsong anda espantado com as novidades e as bizarrices do seu país. A China colidiu com o Ocidente e os efeitos dessa colisão são criticados por Qingsong, um dos artistas visuais mais aclamados dentro e fora da sua terra natal.

Em cartaz no International Center of Photography, em Nova York, até 8 de maio, When Worlds Collide é a maior exibição de obras de Qingsong nos Estados Unidos. Os 15 trabalhos selecionados contemplam as principais fases da carreira do artista, questionador do impacto da economia de mercado e da migração dos trabalhadores da zona rural para os centros urbanos. “Com a minha arte, espero capturar a velocidade com que a China se move e o ethos em mutação dos chineses”, diz em entrevista ao Estado. Segundo Qingsong, a civilização chinesa está se desligando da sua tradição com a chegada do capitalismo. “A atitude mental dos chineses mudou totalmente”, diz. “Eles só pensam em dinheiro.” Os seus compatriotas, ele explica, entregam aos poucos “a mente e a alma para os falsos desejos da sociedade de consumo”.

O espaço público na China se recria diariamente por conta do interesse comercial cada vez mais agressivo. A especulação imobiliária se aliou aos anúncios publicitários para enterrar os símbolos da civilização chinesa. “Os templos foram demolidos nas grandes cidades.” Bathhouse (2000) e Competition (2004) abordam essa transformação urbana promovida pela ânsia materialista.

Na primeira obra, Qingsong encontra-se no centro de uma banheira, segurando um arranjo de flores. Está cercado de mulheres, além de garrafas e latas de coca-cola. O banho público era prática comum da vida chinesa, mas se extinguiu no fim dos anos 1990. Agora, grandes spas oferecem os banhos juntamente com outros tratamentos estéticos. Fotografia de cores saturadas reproduzida em larga escala, Competition exibe inúmeros pôsteres escritos à mão. Inspirada em cartazes feitos por artistas durante a Revolução Cultural, ela contém cerca de 600 anúncios que debocham da vulgaridade do consumismo representada por multinacionais como Starbucks, Citibank e McDonald”s.

Nos anos 1990, Qingsong abandonou a pintura para se dedicar à fotografia, ferramenta mais ágil. “A câmera fotográfica se tornou um meio mais adequado que o pincel e a tinta para registrar movimentos sociais drásticos”, diz. Era a época do grupo Gaudi Art, movimento de arte pop com o qual Qingsong se projetou. Elogiado pelo influente crítico de arte Li Xianting, o Gaudi Art apresentou a primeira produção artística sobre as transformações da China contemporânea. E mudou o estilo de Qingsong, até então autor de telas introspectivas, feitas sob a influência de um estilo expressionista.

Tal como um diretor de cinema, ele passou a conceber grandes cenários e a contratar modelos para fazer as fotografias coloridas de grandes proporções. O artista aparece em algumas imagens. “Só me coloquei nelas porque não precisava gastar dinheiro com modelos. Foi aí que percebi que me enquadrava bem como personagem.” O artista assume o papel de um inquisidor silencioso: ele se porta como uma incômoda testemunha das mudanças.

Nascido no primeiro ano da Revolução Cultural (1966-1976) na Província de Heilongjiang, Qingsong chegou a Pequim em 1993 para viver de arte e passar aperto. Por ser migrante, ele se debruçou sobre o êxodo em massa de trabalhadores rurais para os grandes centros. Sentry Post (2002) critica a dificuldade de locomoção dos migrantes, que devem comprar uma permissão para entrar e permanecer nas cidades. Qingsong elaborou um cenário que mimetiza uma batalha campal. Ele surge na foto segurando um coquetel molotov – criado com uma garrafa de coca-cola – para ser atirado contra os migrantes do outro lado da cerca de arame farpado. Os modelos que representam os trabalhadores estão machucados e vestem roupas em frangalhos. Dormitory (2005) trata da falta de espaço para acomodar os recém-chegados. Os personagens, na maioria nus, jazem em camas dentro de cômodos claustrofóbicos.

Os mais de 130 milhões de trabalhadores que rumaram para as cidades nos últimos anos são tratados pela sociedade urbana como causa de distúrbio. Qingsong denuncia essa perspectiva em Dream of Migrants (2005). Ele construiu um edifício de três andares com elementos da arquitetura soviética, europeia e chinesa. O sonho é rejeitado pela árdua realidade nesse imóvel fictício. “Quando tudo se transforma em algo a ser vendido e comprado, as crenças ligadas ao espírito e à lealdade nacional são destruídas.”

O artista vê com ressalvas os anos do governo de Mao Tsé-tung. Considera, porém, mais alarmantes os efeitos da economia de mercado. “De fato, o culto da personalidade promovido por Mao causou a aniquilação espiritual do país”, diz. “Mas o materialismo e a busca desenfreada pelo lucro criam hoje uma ruína ainda mais nociva e invasiva.”

O sucesso artístico trouxe um fardo para Qingsong. Ao chamar a atenção, ele teve as suas atividades interpeladas pela polícia chinesa. “O governo está mais atento à arte contemporânea”, afirma. “Quando os artistas chineses se tornam conhecidos mundialmente, atraem o olhar das autoridades.” Ele afirma que, na comparação com a década passada, a censura oficial se acirrou. “Antes, ninguém se importava muito com o que os artistas diziam e faziam. Agora, as suas opiniões e o seu comportamento estão sob firme vigilância.” É o preço a pagar pelo radicalismo. Wang Qingsong está revolvendo as raízes de um país em busca do futuro.

QUEM É

WANG QINGSONG

ARTISTA PLÁSTICO

Ele nasceu em 1966 e aos 15 anos, com a morte do pai, teve de trabalhar em campos de petróleo por oito anos para se sustentar. Após cinco tentativas em várias instituições, foi aceito na Sichuan Academia de Artes de seu país.

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