Arte e Vida

Uma das maiores pianistas da atualidade, Maria João Pires, que se apresenta amanhã em São Paulo, fala da mudança para a Bahia, do desejo de se aposentar e critica o mercado musical

Por João Luiz Sampaio
O Estado de S.Paulo

Seu sorriso é como música. Encanta e desconcerta com a mesma facilidade – e, no melhor espírito da grande arte, nos leva a implodir certezas. Até pouco tempo, ela era a grande pianista portuguesa Maria João Pires, uma das mais requisitadas e aplaudidas intérpretes do cenário internacional, tinha contrato de exclusividade com o poderoso selo alemão Deutsche Grammophon e uma agenda intensa de concertos. Nos últimos anos, porém, abriu mão da cidadania da terra natal e pediu a nacionalidade brasileira; trocou a Europa pelo clima do Nordeste; rompeu seu contrato de gravações. E não esconde, nem mede palavras. “Estou cansada. Não quero mais viajar o mundo tocando. O comércio da música nada tem a ver com a arte”, diz. E sorri uma vez mais.

Maria, que se apresenta amanhã na Sala São Paulo, recebe a reportagem do Estado na varanda da casa em Lauro de Freitas, município vizinho a Salvador. “Confesso que não tenho uma relação especial com a cidade, não mais do que com qualquer outra cidade brasileira. Acho que não gostaria de morar em Salvador, mas também é verdade que não gostaria de morar em cidade alguma. Mas conheci Lauro de Freitas a convite de amigos, passando férias, e, há seis anos, resolvi comprar esta casa”, conta. “Foi apenas mais tarde, no fim de 2008, que resolvi me mudar de vez para cá. Não foi uma decisão que tomei. Na vida as coisas acontecem, se misturam e, quando nós vemos, há um caminho a ser seguido.”

É preciso, aqui, voltar um pouco no tempo. No fim da década de 90, Maria João Pires criou em Belgais, Portugal, um centro musical destinado a colocar em prática suas visões sobre o fazer artístico. Em uma casa de fazenda pertencente à família, reuniu, de um lado, alunos de música; de outro, criou uma escola primária, com o objetivo de experimentar um sistema de educação artística. Em Belgais, jovens músicos dedicavam-se tanto ao estudo de um instrumento quanto ao trabalho com a terra e o cultivo de alimentos. A ideia, explica, é entender a música como parte da vida em comunidade, como forma de diálogo.

Em 2006, no entanto, o projeto fechou as portas. “Não foi uma questão financeira, eu investi tudo o que tinha ali e o governo português ajudava, com pouco, mas ajudava. As inimizades, as tentativas de denegrir o que estávamos fazendo, tudo isso foi destruindo o projeto aos poucos.” No mesmo ano, Maria João teve problemas no coração. “Minha saúde estava sendo comprometida e resolvi parar. Hoje, minha filha mais velha toma conta da casa. Eu quero vender a propriedade, mas é difícil. Ela é grande demais para uma família, pequena demais para um hotel.”

Diálogo. Se Belgais deixou de existir, o espírito do projeto segue vivo. Tudo o que aconteceu só a fez ter mais certeza do desejo de diminuir o ritmo. “A carreira para mim sempre foi um peso. Nunca procurei isso. Foi a vida que levei, aceitei essa realidade. Tentei parar outras vezes, mas não consegui, por questões familiares, financeiras. Minha relação pessoal com a música não tem nada de comercial. A arte é um meio de expressão e de diálogo. A música tem um lado sublime que nos ajuda a entender e ultrapassar nossas limitações, em especial a nossa dificuldade de encontrar harmonia. Não quero entrar em grandes sonhos, mas acredito que a música pode ajudar as crianças que vão construir o mundo de amanhã.”

É por isso, diz, que sonha com um projeto parecido no Brasil. Ela confirma a possibilidade de instalá-lo em Sergipe. “As coisas estão se arrastando um pouco, mas não é culpa de ninguém. Tenho precisado trabalhar muito, minha saúde não andou boa. Meu sonho é estabelecer as bases de um projeto nacional, barato, que possa se espalhar rapidamente.” E quais seriam essas bases? “A ausência de rigidez, de uma introdução intelectualizada à arte. Há gente que seduz o aluno, para que ele toque e seduza o público, impressione o pai, a professora. A arte assim perde a força, não transforma.”

Na cartilha de Maria João, no entanto, ausência de rigidez não significa falta de disciplina. “A criança precisa entender o que está fazendo, um coral infantil não pode cantar desafinado. É só quando ele tiver um bom desempenho que seus integrantes vão entender o significado do trabalho, entender que superaram as dificuldades e levar esse aprendizado para a vida. A disciplina é o princípio da liberdade. Temos de aceitar nossos limites. A gente nasce e morre, não pode voar, os limites estão aí. Mas, dentro deles, há espaço para a transformação. A música não precisa ser uma finalidade, mas um caminho. O importante não é formar grandes músicos e sim seres humanos que entendam como a arte pode ajudar.”

E como isso acontece? “Fazer música é sentir-se parte de alguma coisa, de uma comunidade, é reencontrar valores perdidos. Seria ingenuidade achar que a arte resolve tudo, mas, em meio a tantos problemas que assolam crianças carentes, elas acabam perdendo também a capacidade de sonhar. Fazer música é recuperar esse universo perdido, encontrar a si mesmo e ao outro. Estar junto é aceitar a diferença – e por isso não concordo com o estudo solitário. Ele leva à solidão e isso é para mim uma temeridade.”

Jardim. Sentada na varanda de casa, Maria João nada parece a pianista reclusa, avessa a entrevistas, famosa por cancelar encontros com jornalistas. “Quando comprei a casa, havia uma piscina em frente desta varanda. Você já percebeu como as pessoas têm mania de derrubar plantas e colocar concreto em tudo?”, ela pergunta. “A primeira coisa que fiz foi fechar a piscina com terra e plantar meu jardim. Você já pensou no gasto que se tem com a manutenção, aqueles produtos caros e poluentes? E eu não preciso de uma vista. Gosto de plantas, só preciso de um quarto e um jardim.” O cachorro Jota faz pose para o fotógrafo e ela se diverte. “É um teckel de pelo duro, trouxe da Espanha. É uma raça caçadora, engraçada. Se bem que ele tem personalidade, não é nada bonzinho, olha a carinha!”

Skates e pranchas de surfe entregam a presença de adolescentes na casa. E logo Claudio, que Maria João adotou há 15 anos na Bahia, se junta à mãe. “Tem também o Lucas e as minhas filhas, que moram na Europa.” Para ela, a vida em família é fundamental. “É o princípio da minha vida, sempre foi. Viajo, trabalho, mas corro para casa. Cozinho para as crianças, mas não é algo que me apaixone, prefiro fazer faxina. Mesmo com as meninas, que estão mais velhas, quando estamos juntas, lá vou eu cozinhar, passar roupa.”

Seu grande sonho é ter “uma fazendinha”, com uma casa “e uma horta”. Até lá, investe tempo no projeto educacional. “Quase me mudei para Aracaju, mas não encontrei uma casa com um jardim. E as que vi ficam em condomínios fechados, com muros, cercas, seguranças. Não gosto disso. Como mãe, claro, me preocupo, mas acho que não se resolve problema de segurança reforçando a separação entre duas sociedades que, no fundo, são formadas por pessoas iguais. Já há divisão demais no mundo.”

QUEM É
MARIA JOÃO PIRES
PIANISTA

CV: Nascida em julho de 1944 em Lisboa, Portugal, Maria João Pires deu seu primeiro recital aos 5 anos de idade e, em seguida, completou os estudos na Alemanha. Mozart, Schubert e Beethoven são os pilares de seu repertório. Ganhou nacionalidade brasileira em 2009.

‘Beethoven substitui qualquer religião”

Para Maria João Pires, voltar à obra do compositor é sempre fundamental

Em um quarto de sua casa, o “único com ar condicionado”, Maria João Pires mantém o piano e uma estante de partituras. “Não gosto do clima artificial, mas aqui é necessário por conta do piano, que sofre demais com o calor”, ela explica. Na parede, um retrato autografado do pianista russo Sviatoslav Richter e fotos ao lado do maestro italiano Claudio Abbado e do violinista francês Augustin Dumay. “A vida do músico é feita de parcerias. Nós construímos algo juntos aos poucos e o diálogo é sempre fundamental.”

Abbado, com quem ela gravou concertos de Mozart e Schumann, é um amigo querido, “mas daqueles que nunca se veem”. “Raramente nos encontramos, não ligamos um para o outro. Mas, quando estamos juntos, é especial. O primeiro concerto foi há 25 anos, nos conhecemos em Viena. E ele agora quer gravar um novo disco.” O repertório? “Ele gostaria de fazer outros concertos de Mozart”, diz ela, dando a entender que tinha outras ideias em mente. “Sim, é verdade, mas se ele prefere os concertos de Mozart, está ótimo para mim. É engraçado como com ele eu sinto que o melhor para mim é sempre aceitar suas sugestões.”

Ela encerrou o contrato com o selo Deutsche Grammophon porque deseja “ficar livre para gravar sem pressões”, embora em condições especiais, como a parceria com Abbado, aceite voltar ao estúdio. Apaixonada pela música brasileira – “Minha juventude foi embalada pela bossa nova e cheguei a ver Vinicius ao vivo duas vezes” -, ela conta que há alguns anos quis realizar um sonho e gravar com Caetano Veloso e Maria Bethânia. “Ele logo disse que não estava interessado. Ela até se interessou, mas depois o projeto não andou. Eles devem ter alguma razão, mas claro que não iam dizer para mim”, lembra, divertindo-se.

Amanhã, na Sala São Paulo, vai interpretar Chopin. Ela ri quando ouve a declaração do colega Nelson Freire, para quem abandonar o piano seria difícil, pois o impediria de tocar a obra do compositor polonês. “Ele tem razão, afinal, Chopin foi pianista e lida com o instrumento de maneira muito especial.” Sua obra, assim como a de Schumann, Mozart e Beethoven formam a base de seu repertório, desde o início da carreira. “Há um limite físico, minhas mãos são pequenas e portanto há uma enorme quantidade de peças que não posso tocar. Mas esse limite não me incomoda, até me agrada, pois me permite voltar sempre a um deles e redescobri-lo a todo instante.”

Graça. Entre esses compositores, porém, lugar especial está reservado a Beethoven. “Ele é fundamental para qualquer músico. E para qualquer pessoa. Foi um iluminado, um mensageiro que trouxe algo à humanidade, tocado por uma graça. Ele fala de tudo em suas obras, de disciplina, de desprendimento. O estudo de Beethoven substitui qualquer moral, qualquer religião. Não tenho necessidade de tocar Mozart, posso ficar anos sem ele. Mas não me afasto nunca de Beethoven.” Ela gostaria de ter mais tempo para estudar algumas obras, como sua Sonata Op. 111. “Mas não dá. Para encarar uma peça assim, é preciso se afastar dos concertos, dos recitais. Seria bom poder tirar períodos sabáticos a cada cinco anos, só para estudar, mas estou velha para isso, o melhor agora é me aposentar de vez.”

Sentada ao piano, Maria João define o trabalho do intérprete como a obrigação de “fazer chegar ao público um momento de comunhão com a música, com algo que pode ser Deus, o universo, um milagre, não importa o nome que se dê”. Às vésperas de embarcar para São Paulo, ela pergunta, enquanto é fotografada, sobre o litoral paulista e quer saber se ainda é possível ver trechos de Mata Atlântica nas proximidades da cidade. “Seria interessante, mas não sei se vai dar tempo.” Com as fotos feitas, acompanha repórter e fotógrafo até a porta de casa. “Preciso servir o almoço das crianças, você entendem?” À porta, recomenda: “A praia fica aqui do lado, vale a pena dar uma olhada.” E se despede com mais um sorriso.

Admiradores célebres

RICARDO CASTRO
PIANISTA
“O tempo que passei em Belgais com Maria João Pires mudou minha vida e a relação com a música.”

JOSÉ SARAMAGO
ESCRITOR
“Suas mão estão cheias de música, de humanidade, de enorme beleza.”

RONALDO MIRANDA
COMPOSITOR
“Quem quer entender as sonatas de Mozart deve ouvir suas leituras.”

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