Arte sem coraçãozinho

Por Michel Laub
FOLHA DE SÃO PAULO

Há algo de errado quando uma obra de arte diz o mesmo que um anúncio publicitário. Pensei nisso ao ler uma reportagem de Ana Luiza Leal, da revista “Exame”, sobre mentiras na propaganda de marcas brasileiras e estrangeiras de sucesso.

Os casos são até divertidos: da fábrica de sorvete que inventou um patrono italiano, imigrante que teria lutado bravamente ao chegar ao Brasil durante a Segunda Guerra, ao suco cujas frutas não são “colhidas fresquinhas” na “fazenda do senhor Francesco”, conforme o alegado, e sim compradas da empresa Brasil Citrus. Ao contrário dos sucos do Darth Vader, a marca em questão costuma publicar textos “do bem” em que “jovens cansados da mesmice” (seus fundadores) declaram ter como missão “mudar o mundo”.

O paralelo com certa arte atual é evidente: obras de todo tipo parecem fazer declaração de pureza semelhante, um manifesto contínuo de valores que à primeira vista –e se ninguém investigar o que está por baixo disso– dão autoridade moral a seus autores. Na parte engajada da Bienal de São Paulo, somos todos contra as injustiças. Na nova música brasileira, somos a favor do amor “sussa”. Na literatura, com caixa alta e tudo, é comum encontrar a mensagem do respeito ao Outro e às Diferenças.

Nesse mundo de sentimentos fofos, um filme como “Relatos Selvagens”, do argentino Damián Szifrón, é um feito que já bastaria por si. Mas coincidências oferecidas pela publicidade o favorecem ainda mais: todo baseado em histórias de vingança, emoção que não está entre as mais líricas de nossa espécie, ele está sendo exibido em cinemas paulistanos cuja programação reforça um contraste didático.

Na sessão em que eu estive, quando as luzes se apagaram, a tela mostrou o anúncio de uma multinacional de refrigerantes que, em vez das taxas de açúcar e corantes em seus produtos, prefere falar da ajuda que dá a jovens cujo sonho é andar de patins. E o de um banco que, em vez de assuntos chatos como juros e tarifas, concentra-se na força que dá velhinhos cujo sonho é derramar lágrimas no cinema.

Na sequência, entraram os “Relatos” propriamente ditos: 1) advogado engana o cliente que suborna um policial; 2) noiva transforma num inferno a vida do noivo que a traiu; 3) motorista incendeia o carro de outro motorista que o agrediu e empurrou desfiladeiro abaixo; 4) engenheiro joga uma bomba na repartição pública onde foi roubado.

Exagero melodramático? Mas quem é mais caricato aí, o filme ou os comerciais que o antecederam? Quem propaga a visão simplória de um mundo em que é fácil escolher o lado certo, em que não temos dentro de nós indício algum da ambição, inveja, agressividade e hipocrisia que enxergamos nos outros?

Indo além: se a arte é exceção à regra cultural, como quer Jean-Luc Godard, e se a regra hoje é fazer das declarações de tolerância fofa o máximo denominador do discurso social, transformando conflitos de ideias, política e costumes num grande post cheio de coraçõezinhos, como furar o bloqueio de tamanha certeza moral para encontrar verdades genuínas?

A resposta de “Relatos Selvagens” talvez seja uma pista. Uma obra alienada (nem é o caso), cínica (não sei se é o caso) ou cruel (é o caso) pode chegar onde nunca chegarão obras que, a exemplo da propaganda, do horário eleitoral gratuito ou da imagem que cultivamos nas redes sociais, querem apenas ser simpáticas. Isso porque o conceito de “verdade” na arte não é necessariamente ético, ou não no sentido que damos a este termo aqui fora, no mundo bacana onde é bacana –sem ironia– haver responsabilidade social e inclusão.

Na arte, dizer o que todo o mundo diz, mesmo que o discurso esteja certo, é ser mentiroso. Ser delicado com as certezas do público, mesmo que elas sejam inatacáveis, é ser anódino. Tudo é político nesta vida, até comer peixe com farofa no bistrozinho, mas quem decide onde está a política –e a estética, e a verdade– é o artista, não as expectativas do lugar-comum cultural. A sede deste último é bem menor, e para saciá-la basta o suco (que é bom, a propósito) do senhor Francesco.

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