A arte e as traquinagens de João Maria Pinheiro

Faça um recuo imaginário até o começo dos anos 1990.

Local: praça Sete de Setembro, aquela diante da Assembleia Legislativa, no centro de Natal.

Governo José Agripino Maia.

Fotografia de capa: John Nascimento

A Cia. Teatral Alegria Alegria participava de um protesto ao lado do sindicato dos professores, da CUT, do PT e do PC do B.

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João Maria em As Aventuras de Pedro Malazarte; esta dança com uma boneca entrou como ‘ato libidinoso’ na acusação contra o grupo Alegria Alegria, durante ato de protesto contra a educação do governo José Agripino. Fotografia: Lenilton Lima

Esquerda em peso contra o garboso governante.

Imagine bem.

Com As Aventuras de Pedro Malazarte, o combo de humoristas divertia os presentes.

Eis que a personagem Catirina, interpretada por Alex Ivanovich, entra em cena.

Júnior Santos, um dos fundadores do Alegria Alegria,  debocha.

“Chegou a galega do Alecrim”.

Parecia uma piada simples, mas a fala causaria um rebuliço de alcance nacional.

“Isso teve problema porque a gente estava fazendo um trabalho pro governo e também denunciava os desmandos do governo para com a educação. Colocamos reivindicações. Galego do Alecrim era o apelido de José Agripino. Era galego, mas as más línguas chamavam de galega. Nós não sabíamos disso. Sei que dois atores do Alegria Alegria foram presos, por conta disso. Mas a prisão foi muito engraçada. A Polícia Civil chegou para prender o grupo todo. A acusação era que estávamos esculhambando com o governador. Foi o secretário de saúde quem dedurou ao de segurança. Só que a gente já tinha feito trabalho pro sindicato dos policiais civis. Eles nos conheciam demais. Aí esperaram terminar o espetáculo e liberaram todos, menos dois. O delegado pra fazer o BO disse que não assinava. Ele falou: ‘Eu vou botar o quê? Que os caras chamaram o governador de galega do Alecrim?’. Ele perguntou se Júnior xingou o governador, e Júnior negou e perguntou de volta se o delegado sabia do apelido. ‘Eu mesmo não’. Botaram outro motivo lá. Isso o governador não estava nem aqui, nem sabia. Quando ele voltou e soube dessa prisão, deu uma chamada nesse povo tudinho, com gosto de gás”.

Foi armado um Ocupa DP, com o plantão de Candelária em polvorosa com a presença de artistas em banda de lata, carro de som, discursos inflamados, madrugada adentro.

“A OAB botou vários advogados a nossa disposição. Fizemos uma vigília, levamos carro de som pra frente da delegacia, em Candelária, e ocupamos ela. O delegado ficou doido. Prepararam jantar, café da manhã pros caras e pegue discurso do lado de fora. Foi um auê grande. Saiu na Folha de São Paulo. No Programa do Jô foi noticiado isso. Foi um rebu tão grande”.

As aspas pertencem a João Maria Pinheiro, um dos palhaços e atores de rua mais importantes do Rio Grande do Norte, partícipe do espetáculo dantesco na repartição de segurança pública e capaz de tirar um sorriso até de um operário com azia e salário atrasado.

Aos 57 anos de idade, ele tem histórias para esgotar a barra de rolagem desta nota, como podemos ver.

Conversamos durante quase quatro horas, entre sexta-feira da semana passada (27) e domingo último (29).

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Anos 1980, Centro de Natal: João Maria Pinheiro e Júnior Santos, amigo e inspirador, em defesa da vida contra a pena de morte

A primeira parte era para ser a única, em um bar nas imediações da Prefeitura.

É por ali que ele vende títulos de capitalização dos quais é garoto propaganda televisivo com seu famoso Zé da Sorte.

Papo movido à cerveja e queijo de coalho, todinho perdido por um vacilo meu: aplicativo de áudio lotado, sem espaço para salvar novos arquivos.

Perdi tudo.

O que resultou em uma segunda entrevista melhor ainda, na cozinha da casa de João, nas Quintas, já com conhecimento prévio de certos assuntos.

Sem mais delongas, viajemos até Jucurutu, no Seridó Potiguar, para sabermos como tudo começou.

O cabresto de Seu Zito

João Maria foi o penúltimo a nascer, numa reca de 12 irmãos – todos paridos em casa por Dona Severina, vivíssima aos 92 anos; na mais pura tradição seridoense de longevidade, ela tem um irmão mais velho ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e registrou o adeus para outros com cem, cento e poucos de idade.

Nascido em 1959, aos quatro anos nosso personagem se mudou para Caicó, onde ‘Seu’ Zito (pai) fez dinheiro como alfaiate.

Ainda em Jucurutu o patriarca teve uma ideia inusitada, para sustentar a família que crescia a cada verão.

“Ele teve a oportunidade de comprar um equipamento de cinema em Caicó. Aí surgiu a ideia de montar um cinema. Não sei se era alugado ou próprio, sei que o prédio ainda existe em Jucurutu. O pessoal levava as cadeiras. Com o passar do tempo, um cinema lá de Caicó, o cara fechou. Aí papai comprou as cadeiras e os ventiladores. O cinema dele ficou todo equipado. Lembro algumas coisas, mas eu era muito criança. Não sei quais filmes passavam”.

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Família de João Maria é oriunda de Jucurutu, com vários anos de moradia em Caicó; ao virem para Natal, ‘Seu Zito’ e Dona Severina foram morar no Alecrim com os 12 filhos

Era o cinema São Miguel, uma relíquia histórica à espera de algum pesquisador que nos conte essa empreitada.

João diz rememorar as três badaladas que anunciavam as sessões.

Naquela trupe de meninos e meninas de ‘Seu Zito’ e Dona Severina sobravam luzes e ação.

A irmã Belina foi a primeira a testar um palco.

“Lembro que uma vez a gente foi de caminhão de Caicó para uma fazenda em Jucurutu. Ela ia fazer uma apresentação lá. Ela gostava de fazer uns dramas em Caicó, na rua que a gente morava. Botava uns panos, não sei o quê. Eu era menino, não participava”.

Falamos do sertão nordestino dos anos 1960, tempo e espaço de pouca liberdade para uma jovem, sobretudo para modernice de fingir ser outra pessoa na frente de estranhos.

“Naquela época, o cara pra ser ator, segundo diziam, ou era maconheiro ou viado. Como maconha não era muito a minha cabeça, aí eu era o viado. Teve irmão meu que disse isso. Já a mulher, era puta, da vida”.

Poucos anos depois, já em Natal, uma Belina animada por participar de uma adaptação de Macunaíma, de Mário de Andrade, dirigida por Jesiel Figueiredo, foi aos prantos após o veto patriarcal.

“A peça tinha uma coisa de Jesiel entrar com uma roupa quase mostrando o sexo. Papai não gostou muito daquilo e cortou as asas dela”.

João Maria morou em Caicó até 1970, ano em que o Seridó foi abandonado por todos para uma nova vida na capital potiguar aflorar.

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Sempre politizado, crítico com desmandos de governantes, João Maria utilizou a rua como grande palco de sua vida; aqui uma cena da peça Varal da Corrupção, com a atriz Águeda Ferreira, no centro de Natal. Fotografia: Lenilton Lima

Um tabefe mudou tudo

Seu Zito e Dona Severina levaram os filhos para o Alecrim, bairro comercial onde montaram um pensionato bem perto do Instituto Sagrada Família.

Dali o menino João Maria andava até a Escola Estadual Calazans Pinheiro, na rua Sílvio Pélico, a mesma da Base Naval.

Foi naquele ambiente que a poesia em público conquistou seu coração.

“Ia ter uma comemoração do dia das mães, sabe? Aí a professora Lurdinha perguntou quem gostaria de participar. Eu disse: ‘Eu vou, eu faço’. E fiz. Li uma poesia. Eu me lembro do primeiro espetáculo que fiz na minha vida, foi Chuvas e Raios de Sol, texto tirado de um livro que não lembro o autor, nem como era a história direito. Mas lembro que fiz esse. Depois disso, quando tinha uma atividade da professora, ela precisava de uma pessoa pra ir pra frente, falar no microfone, não sei o quê, ela me chamava. Aí começou”.

Os irmãos homens de João Maria têm nomes iniciados com a letra M – Marcílio, Márcio, Max, Moacir, Maurílio, etc.

Ele é o único fora da regra.

“Quando eu fui nascer, papai botou meu nome por uma promessa que fez a um grande amigo dele, que era o Padre João Maria, o famoso Padre João Maria. Quando mamãe ficou gestante de mim, foi uma gestação já meio trabalhosa, devido a idade dela. O médico chegou pra papai e disse: ‘Seu Zito, eu tenho que salvar um dos dois, ou sua esposa ou o menino, porque está complicado o negócio’. Aí papai disse: ‘Não faça nada não que vou conversar com um amigo meu ali’. Aí foi e fez uma promessa para o Padre João Maria para escapar os dois. Aí eu estou aqui contando essa conversa pra você e mamãe tá lá em casa”.

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Praça João Pessoa, centro de Natal, espetáculo As Aventuras de Pedro Malazarte; xingamentos, carros de som, todo tipo de obstáculo para um ator de rua; “Comecei a enveredar pelo palhaço popular nordestino. Porque há uma diferença muito grande. Eu não sou clowns. Essa história de clowns, que esses caras inventaram aí muito depois, com esse apelido de palhaço, isso é uma coisa gringa, da Europa. O palhaço todo almofadinha, todo arrumadinho, não sei o quê”

Retornemos ao Alecrim, onde em cada esquina tem uma surpresa, um conto, um poema, um odor.

João Maria foi além do Calazans Pinheiro para reforçar a valentia, o destemor juvenil, e encontrou na academia de luta livre do icônico Bernardão um estoque de virilidade.

Tapa daqui, queda dali, surgiu um convite para o baixinho se apresentar em um circo na zona Norte, área inóspita nos anos 1970.

Mal sabia ele que o adversário era dobrado e com a mão certeira.

No “Já!” do árbitro, tome uma lata na orelha de empenar os olhos.

João caiu com a mão espalmada para bater em desistência, só que o combate era em areia fofa, sem resistência sonora para seu desespero ser interrompido.

“O povo começou a rir e dizer que eu era muito magro”.

Ele ainda teve coragem de acenar para o público, o que amplificou a vaia.

O ‘suvela’, no entanto, gostou de comandar a reação de dezenas de pessoas com gestos e expressões típicas de quem apanha feio de alguém.

Ali, em meio aos tabefes na cara, nasceu o João Maria palhaço, o João Maria ator.

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Festival Internacional de Teatro, em Belo Horizonte: João Maria, Kátia, Angélica Patrício, Grimário Farias, Alex Ivanovich, Beto Farias, Fátima Fialho e componentes do Grupo Galpão

Em dentes, pernas, bandeiras

Criada por atores desempregados após o fim do projeto Saci da TV Universitária, a Cia. Circense Alegria Alegria (rebatizada como Cia. Teatral Alegria Alegria) fez história em Natal, a partir de sua fundação, no começo dos 80s.

Nomes como Júnior Santos, Rino Dantas, Nelson Rebouças, Luís Antônio (o Lula), Alex Ivanovich, Grimário Farias, Jorge Romano Neto encantavam festas, palcos e ruas, com textos críticos ao regime militar, sem perder a ternura jamais.

João foi componente do coletivo do começo dos anos 1980 até 1999, a convite de Júnior Santos.

“Ele sabia que eu já tinha feito palhaço. Sabia que tinha feito alguma coisa de teatro. Eu fazia palhaço inspirado nos da televisão, para aniversários. Não tinha experiência de circo mesmo”.

O primeiro e mais conhecido palhaço criado por João Maria, até hoje seu carro-chefe, foi o Xaréu. Com ele, testou andares, olhares, sotaques e textos na criação de um tipo peculiar.

Focado em festas infantis, o sustento familiar ganhou incremento com a possiblidade de atuar em teatros de palco, viajar para outros Estados e até países, como a excursão por Portugal em 1992, dentro de um evento que promovia o intercâmbio da cultura patrícia com a nordestina.

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Alegria Alegria no Porto, Portugal, 1992: a primeira vez em que João botou dinheiro ‘grande’ no bolso; grupo foi participar de um intercâmbio cultural entre patrícios e expressões do nordeste brasileiro; certa noite, ao lado de Canhoto da Paraíba e Quinteto Violado, promoveram uma jam session no lobby do hotel, para delírio dos hóspedes; cachê atingiu dois salários mínimos

Foi o primeiro dinheiro ‘grande’ que João Maria ganhou como ator. Foram quinze dias, em mais de dez cidades, com o espetáculo As Aventuras de Pedro Malazarte.

“Fomos sem cachê, a convite do governo português. Mas a ajuda de custo era tão boa que deu pra pagar todos os custos e botar um bom dinheiro no bolso. Era o projeto Cumplicidades, que era um intercâmbio das artes portuguesas com o nordeste brasileiro. A contrapartida do Brasil era levar as atividades culturais para lá. O único grupo de teatro do Nordeste escolhido foi o nosso. De música, foi o Quinteto Violado e Canhoto da Paraíba. Todos os espetáculos se revezavam nas cidades”.

Time de estrelas da arte popular que encantou os hóspedes do hotel no Porto, ao promoverem uma jam session em pleno saguão.

“Fiz uma amizade muito grande com Canhoto. Ele foi amigo e parceiro de palco de meu primo Expedito Baracho. Nessa época ele ainda tomava uma. Aí numa noite, quando terminou o show, nos encontramos no hall do hotel, todo mundo. Juntou os caras do Quinteto, eu, Canhoto, os meninos do Alegria, fizemos uma roda e pegue tomar vinho e a cantar. Foi show que o que tinha de hóspede no hotel parou pra ver”.

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Sede da Cia. Teatral Alegria Alegria na rua Paula Barros, Cidade Alta; coletivo de atores foi pioneiro com palhaços às festas infantis

A Cia. Alegria Alegria foi pioneira em utilizar palhaços infantis em aniversários, segundo João. Trabalho feito com atores divididos em duplas.

João se juntou à Levy Araújo (hoje, radialista) no duo Leléu e Xaréu, em um período de vacas gordas, cujo cachê por apresentação podia bater os dois salários mínimos.

“Comecei a enveredar pelo palhaço popular nordestino. Porque há uma diferença muito grande. Eu não sou clowns. Essa história de clowns, que esses caras inventaram aí muito depois, com esse apelido de palhaço, isso é uma coisa gringa, da Europa. O palhaço todo almofadinha, todo arrumadinho, não sei o quê. E a gente não. A gente aqui do Nordeste é o palhaço mais escrachado, que já é diferente da região Sul. Isso tudo a ver com o laboratório. Não é só pegar o texto e simplesmente representar do que ele tem em mente. Lógico que você vai rebuscar essas coisas com o que você já viveu. É uma fonte. A outra fonte é de pesquisa. É você pegar um personagem de um padre, vamos dizer assim, ou de um coronelzão desses da vida, que já existiu, você tem que pesquisar”.

Artes & Traquinagens

João Maria Pinheiro acredita na primazia do ator de rua.

Cercado por passantes, muitas vezes desgostosos com o que veem, ele arranca sorrisos em uma condição inglória – algo entre o encantamento e o desdém.

Um carro de som, um xingamento, uma tirada sarcástica de um expectador pode estragar o planejado, sobretudo para um palhaço, comandante ou náufrago do humor, sempre dependente da temperatura da plateia.

“Na rua, todas as reações estão ali do seu lado. Se uma pessoa quer tocar na gente, ela toca. Ela vê você mudar de personagem na frente dela. Diz piada, entra na roda, se não gostar ela diz. E você tem que aproveitar tudo isso. Isso lhe ajuda quando você vai pro teatro de palco. Não é fácil para o ator de palco fazer teatro de rua. Agora, o ator de rua fazer teatro de palco é mais fácil, porque a gente vem sem aqueles grandes vícios, como a coxia, onde o ator prepara toda a fantasia fora do olhar do público”.

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Personagens do Grupo de Teatro Artes e Traquinagens; última vez em que João Maria atuou na rua foi em Assu, em 2011. Fotografia: Lenilton Lima

Ele está desde 2011 sem fazer teatro de rua.

A última peca foi a Cia. Burlesca de Repertório, exibida em Assu, com seu grupo Artes e Traquinagens.

Seu foco atual é a Xaranga do Riso, em que o velho palhaço Xaréu é acompanhado por Cuscuz e Tamborete – respectivamente os eternos amigos Júnior Santos e Alex Ivanovich.

Em shoppings e parques da cidade, a banda multicolorida é conhecida de quem procura boas doses de diversão.

Sobre o maior pesadelo para um humorista, tentar fazer graça e ninguém sorrir, uma ligação curiosa com Luís da Câmara Cascudo, maior folclorista brasileiro.

“Uma vez a gente estava em Campina Grande, fazendo As Aventuras de Pedro Malazarte, no dia da morte de Câmara Cascudo [30 de julho de 1986]. Eu estava em cena, a galera ficou sabendo do falecimento dele. Eu fazia o apresentador em rimas. Fui falar da morte de Câmara Cascudo em improviso. Rapaz, as rimas saíram quebradas demais. Não funcionou mesmo. O público aceitou porque era uma homenagem, mas quando eu sai de cena os caras ‘Porra, meu irmão, que furo’. Foi uma grande decepção”.

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Um dos momentos mais marcantes da carreira de João Maria aconteceu em Porto Seguro (BA), durante as comemorações de meio século de presença portuguesa deste lado do Atlântico; Cidade toda de verde-amarelo, presidente Fernando Henrique Cardoso em um simulacro de um nau lusitana, e o seridoense com a peça Brasil Outros 500 como único ato de protesto pela situação do país. Fotografia: Lenilton Lima

O amor nos tempos do cólera

Por esses anos de ‘furo’, ele conheceu Kátia, morena amiga de sua então namorada, ambos alunos do colégio Winston Churchill, na Cidade Alta.

Carona vai, namorada foi simbora também, os dois começaram uma relação que perdura quase 30 anos, alinhavada com a entrada de Kátia para o Artes e Traquinagens como figurinista.

Cumplicidade vivida em torno do teatro, por vezes, em episódios tensos, distantes de casa, sob riscos inimagináveis.

Em 2000, Porto Seguro na Bahia foi o destino de João.

Kátia a tiracolo (cacofonia das boas!).

Objetivo: Provocar o governo Fernando Henrique Cardoso durante as comemorações de meio século da chegada dos portugueses deste lado do Atlântico – referido como ‘Descobrimento’ nos livros que nos empurram goela abaixo desde o Ensino Fundamental.

Para tanto, ele escreveu a peça Brasil Outros 500.

“Saímos daqui de ônibus, numa comitiva junto com o pessoal da CUT e do PT. Nós chegamos e disseram que a gente ia ficar alojado onde estavam os sem-terra, sem-teto, não sei o quê. Quando a gente chegou lá, era uma armadilha. Polícia por tudo que era canto. O cara chegou e disse: ‘Olhe, tá aqui os paus, a lona, o espaço de vocês é ali, monte a barraca’. Eu como sempre prevenido, levei dinheiro do grupo. Cheguei para o grupo e disse: ‘Eu não vou ficar aqui, não’. Kátia ficou. Fui pro centro da cidade para alugar um espaço. Não tinha, estava tudo lotado”.

A cidade em fervor patriótico, com o desembarque do presidente FHC em um simulacro de um nau lusitana e bandeiras verde-amarelas espalhadas por todo lugar.

“Mas arranjei uma casa na hora que parei num bar, pra tomar uma. Fiz uma feira grande e foi todo mundo pra lá. Quando foi de noite, eu só soube o resultado dos caras, a policia não deixou ninguém sair do acampamento, nem ninguém dormir, com sirene tudo ligada. O único ato contra os 500 anos do Brasil em Porto Seguro fomos nós que apresentamos. Até o sorteio da mega-sena foi lá esse dia. A cidade toda de verde e amarelo”.

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Ao lado da companheira Kátia, em ato político de ocupação da TVU. Fotografia: Lenilton Lima

Em sua arejada cozinha, João Maria me contava tudo isso e eu pensava no fim de muita tradição popular preservada nos livros.

Imaginava como será daqui a 20, 30 anos um palhaço politizado, cheio de criatividade e carisma, no auge de sua idade, em uma turbulência ideológica como a que presenciamos no Brasil atual.

Isso existirá?

Pelo que se vê no mercado natalense, será pouco provável, acredita ele.

“Hoje está deturpado, avacalhou. Tem muito cara pintando a cara aí e fazendo aniversário. Eles não são formados, não são palhaços. São poucos palhaços de hoje em dia que tem condição de fazer um bom espetáculo num aniversário. A gente tinha e tem o domínio com o público, temos a base de ator, do palhaço circense e a psicologia infantil que a gente adquire com o tempo, porque o palhaço é um psicólogo”.

E como é.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 9 comments for this article
  1. Jânio Edno Dantas 5 de Junho de 2016 21:15

    Bela matéria, acompanho a carreira desse ator a muito tempo.

  2. thiago gonzaga 6 de Junho de 2016 11:46

    Massa demais !
    Parabéns, pela excelente matéria, Conrado,
    e pela passagem do seu aniversário.

  3. Conrado Carlos 6 de Junho de 2016 16:39

    Valeu, Valdir!

  4. Conrado Carlos 6 de Junho de 2016 16:39

    Obrigado, Jânio!

  5. Conrado Carlos 6 de Junho de 2016 16:40

    Grande, Thiago, obrigado, amigo!
    Forte abraço!

  6. Pingback: Teatro potiguar perde a alegria de João Pinheiro, o palhaço Xaréu  
  7. Andréa 20 de Abril de 2019 16:07

    Muito importantes esses registros com a cara do RN, necessários.

  8. Gilmara Benevides 14 de Maio de 2019 22:47

    Grande João, vai deixar muitas saudades.

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