ARTES VISUAIS: Tendências, a arte como produto e um pequeno panorama da cena potiguar

As artes visuais talvez passem por novo momento na história. Não na produção da arte em si, mas na interação entre obra de arte e público, entre produto mercadológico e consumidor. Museus cada vez mais buscam modernização frente às novas plataformas interativas. A todo momento há inovação tecnológica. O campo real e virtual se estreita a cada segundo. Então, como expor sua obra? Como vender? E a quantas caminha o segmento de artes visuais potiguar? O blog elaborou cinco perguntas e as enviou para três artistas visuais: Vicente Vitoriano, professor, crítico renomado e também decano das artes plásticas; Jackie Monteiro, artista plástica da nova geração que desponta no RN; e Mathieu Duvignaud, artista de vanguarda e ex coordenador do principal espaço de artes visuais do Estado: a Pinacoteca. Claro, a discussão cabe muitas outras perguntas e mais respostas. Mas seguem boas opiniões abaixo:

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VICENTE VITORIANO
vicente
1. Museus têm buscado cada vez mais formas interativas para atração de público, notadamente em comunhão com as novas tecnologias. O formato tradicional de exposição de artes visuais, com obras estáticas penduradas na parede da Galeria está superado?
Não creio que o formato tradicional de exposições esteja superado. Isto só pode acontecer quando toda a produção artística tradicional também estiver superada. Artistas contemporâneos, a par de suas produções relacionais ou mediadas por alta tecnologia, continuam desenhando e pintando em suportes bidimensionais que, em geral, são expostos segundo o formato usual. Por outro lado, meios tecnológicos em galerias ou museus procuram ampliar a participação e interação do observador com as obras, mas não podem prescindir da presença mesma das obras “físicas”, quando realizadas por meios tradicionais.

2. As novas tecnologias diminuiriam o devir, o espanto, o impacto puro que a obra de arte deve causar no público? Ela decodificaria ou explicaria uma análise, por essência, subjetiva? Outra alternativa comumente usada aqui no RN são exposições que inserem na vernissage outras manifestações artísticas, como esquetes teatrais ou pocket shows, para atrair público. O que acha dessas alternativas?
Como dito ou como pode ter ficado implícito, as novas tecnologias, tanto como meio artístico ou como suporte para exibir obras de arte, procuram criar instâncias interativas. A princípio, tais situações implicam novos tipos de impacto que, necessariamente, não eliminam as respostas subjetivas dos observadores, sejam estas ativas (por meio de ações) ou intelectuais. Muito pelo contrário. Não tenho nada contra obras que se compõem da hibridização de meios ou de linguagens. No entanto, se a mostra é de pinturas, por exemplo, não entendo por que distrair o observador com música ao vivo, teatro ou dança. Acho, no mínimo, de mau gosto, principalmente quando os espaços são inadequados, pequenos ou não possuem tratamento acústico. Música ao vivo na Galeria Conviv’art, por exemplo, é uma tortura.

3. A exposição das obras em espaço físico é hoje, na verdade, algo fundamental já que a web já possibilita uma boa plataforma de venda? Por outro lado, no ambiente virtual, a obra de arte se configura mais como produto comercial do que como arte? A Galeria confere mais essa pecha de Obra de Arte?
A não ser que o comprador já conheça a obra ou tenha uma garantia da qualidade da obra física, ele dificilmente fará compras pela WEB, baseando-se apenas na imagem. Na WEB (ambiente virtual), o que temos não é a obra, mas sua imagem. É praticamente a mesma coisa que a foto de um sapato ou de uma joia num anúncio de revista. O caráter mercadológico (comercial) do objeto a ser vendido não se mede por sua forma de exibição, se é o próprio objeto ou sua imagem. A arte, queiramos ou não, torna-se mercadoria no mesmo instante em que é exibida. Não sei se o termo “pecha” é adequado, mas, digo que não. A obra de arte assim o será em qualquer lugar em que esteja exibida.

4. Como você enxerga o atual panorama das artes visuais no RN, no tocante aos espaços para exposição, à arte produzida, ao volume de exposições dessa arte e na renovação dos talentos no segmento? Qual futuro você enxerga nas artes visuais potiguares?
Como em qualquer lugar do planeta onde não exista um mercado de arte (sistema mercadológico, transações de compra e venda), aqui também assistimos a um esvaziamento no circuito das artes, visuais, particularmente. Mas também vemos surgirem novos talentos que se sentem “desamparados” ou desestimulados e nem sempre conseguem expor individualmente. Considere-se também, em relação à pouca incidência de exposições individuais, a tendência em direção à produção em coletivos, formação de grupos de produção, etc. Considere-se ainda que, como não há mercado (demanda) local, não há produção individual suficiente e, com isto, também não se desenvolve a profissionalização do artista. Diante disto, alguns artistas têm se profissionalizado em nichos de produção artística, ditos de artes aplicadas, como os dos quadrinhos e da ilustração.
Não sei enxergar o futuro.

5. Três desejos para fomentar as artes visuais do RN. O que você pediria?
Mais educação estética, mais educação artística, mais educação.

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JACKIE MONTEIRO
jackie
1. Museus têm buscado cada vez mais formas interativas para atração de público, notadamente em comunhão com as novas tecnologias. O formato tradicional de exposição de artes visuais, com obras estáticas penduradas na parede da Galeria está superado?
Não. Com tudo acredito que é preciso levar a criatividade além das telas, e isso não se dá pelo fato do tradicional estar superado, mas sim porque é preciso inovar. Acho que é possível fazer os dois modos cada um em seu momento .

2. As novas tecnologias diminuiriam o devir, o espanto, o impacto puro que a obra de arte deve causar no público? Ela decodificaria ou explicaria uma análise, por essência, subjetiva? Outra alternativa comumente usada aqui no RN são exposições que inserem na vernissage outras manifestações artísticas, como esquetes teatrais ou pocket shows, para atrair público. O que acha dessas alternativas?
Acho que as sensações diante da arte é uma questão de sensibilidade. O espanto, o impacto, se dá diante da compreensão ou interpretação de quem observa a arte e isso independe de tecnologia. A junção das várias vertentes da arte sempre será bem vinda; acredito que elas se complementam, não no sentido de atrair publico, mas no sentido de ser arte. É uma questão de compreender a essência das coisas e poder absorver o máximo de cultura quando você se dispõe a sair da sua casa para prestigiar um evento cultural.

3. A exposição das obras em espaço físico é hoje, na verdade, algo fundamental já que a web já possibilita uma boa plataforma de venda? Por outro lado, no ambiente virtual, a obra de arte se configura mais como produto comercial do que como arte? A Galeria confere mais essa pecha de Obra de Arte?
Olhar uma obra de arte pela internet nunca será a mesma coisa de observa-la de perto, a olho nu. As facilidades que o mundo virtual nos traz apenas induzem o interesse, mas não anula o prazer de contemplar a arte cara a cara.

4. Como você enxerga o atual panorama das artes visuais no RN, no tocante aos espaços para exposição, à arte produzida, ao volume de exposições dessa arte e na renovação dos talentos no segmento? Qual futuro você enxerga nas artes visuais potiguares?
Viver de arte no Brasil é super dificil, no RN então, nem se fala! As pessoas não estão acostumadas a consumir arte e nem tão pouco valorizar a arte dentro do país e, principalmente, no nosso estado. Com isso cada um vem buscando dentro da sua linha de trabalho empreender de forma criativa e o que requer dedicação, planejamento, tempo… Isso naturalmente afasta o artista do âmbito das exposições.

5. Três desejos concedidos para fomentar as artes visuais do RN. O que você pediria?
Resumiria tudo em um pedido só! Não há como formar cidadãos, sem o mínimo de percepção e sensibilidade cultural. A arte não é apenas um adorno de decoração, ela exerce muito mais. Na minha visão tudo se dá pela deficiência no sistema de ensino que desvaloriza a arte, deixando a mercê de cada um, buscar conhecimento de forma individual. A importância da arte deveria ser vista em sala de aula, essa formação cultural que todos deveriam ter acesso por direito. A desvalorização da arte pela população se da pela falta de conhecimento.

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MATHIEU DUVIGNAUD
mathieu
1. Museus têm buscado cada vez mais formas interativas para atração de público, notadamente em comunhão com as novas tecnologias. O formato tradicional de exposição de artes visuais, com obras estáticas penduradas na parede da Galeria está superado?
Museus geralmente são lugares de memória, não lugares de experimentação, ou seja, demoram muito para ser inovadores. O que está errado, claro, eles acabam não atraindo um público porque as linguagens comunicativas são ultrapassadas. Museu é espaço de inovação sim, tem que evoluir sempre, procurando surpreender. A colocação das obras não é o mais importante, mas sim os conteúdos que acompanham elas e a forma que as obras interagem com os públicos.

2. As novas tecnologias diminuiriam o devir, o espanto, o impacto puro que a obra de arte deve causar no público? Ela decodificaria ou explicaria uma análise, por essência, subjetiva? Outra alternativa comumente usada aqui no RN são exposições que inserem na vernissage outras manifestações artísticas, como esquetes teatrais ou pocket shows, para atrair público. O que acha dessas alternativas?
Sempre tivemos novas tecnologias: celulares, computadores, fotografia, cinema… lápis de cores… não é coisa nova. Claro que o número de interações aumentou hoje em dia, porém um museu deve ser um reflexo da sociedade, atento a coisas novas e guardião de um saber tradicional; um museu é um porto seguro inovador. Na época que estava na Pinacoteca tive a oportunidade de testar esses formatos de vernissage: exposição – show – tatuagem – etc, e funcionava muito bem, o público gosta da diversidade e de passar em ambientes diferenciados.

3. A exposição das obras em espaço físico é hoje, na verdade, algo fundamental já que a web já possibilita uma boa plataforma de venda? Por outro lado, no ambiente virtual, a obra de arte se configura mais como produto comercial do que como arte? A Galeria confere mais essa pecha de Obra de Arte?
A arte vem para comunicar uma ideia, se você gostar da forma que essa ideia está exposta você pode adquiri-la; e isso desde que o mercado da arte existe. Pouco importa a plataforma de apresentação dessas obras, importante o que você agrega ao redor: educação em primeiro plano. Ao final um museu serve para isso, apresentar sensibilidades diferentes, inovadoras, provocar um público e (tentar) acompanhá-lo nessa mutação. E não se enganem, arte não é somente estética, os maiores artistas na história da arte são empreendedores incríveis.

4. Como você enxerga o atual panorama das artes visuais no RN, no tocante aos espaços para exposição, à arte produzida, ao volume de exposições dessa arte e na renovação dos talentos no segmento? Qual futuro você enxerga nas artes visuais potiguares?
O artista norte-rio-grandense está ainda mal preparado para atingir um mercado e ganhar a sua vida com sua arte. Apesar de hoje em dia, graças aos primeiros esforços incríveis do ministro Gilberto Gil, o artista se tornou um empreendedor, acabou a era do artista boêmio que vive trocando sua arte por pinga. Existem cursos e formações, mas que ainda chegam pouco em Natal (quem dirá no interior). A economia criativa é algo forte, e permite a um artista viver do seu talento. Mas mais uma vez o mercado do RN não ajuda, tem poucas conexões entre artista e pessoas que compram arte, e quando tem elas se mantêm sigilosas. Porém existem alguns empresários, grandes amadores de arte que compram ajudando os artistas e a cultura do estado, mas são poucos ainda. Arte é um bom investimento, tem retorno.

5. Três desejos para fomentar as artes visuais do RN. O que você pediria?
Nada. Já que as artes devem ser pensadas juntas, e não as artes visuais separadas das outras linguagens. Essa segmentação impede uma gestão de qualidade, o que geralmente acontece muito nas instituições públicas, pensando arte como eventos (as vezes somente ventos, aliás) separados uns dos outros. Arte amplifica a vida, o artista como “super homem” que ele é ajuda a descobrir novos caminhos para a sociedade. Vamos dar mais valor para ele.

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