Artigo de Hanif Kureishi

Hanif Kureishi
O Estado de S. Paulo
Foto: Alberto Estevez

Escritor, que recebeu nesta semana o prêmio do Pen Club inglês, discute várias questões sobre seu ofício

Se é verdade o que li em algum lugar – que num dado momento qualquer há uma parcela mínima de 2% da população empenhada em escrever um romance -, então o que muitos daqueles que indagam a respeito dos cursos de “redação criativa” e sua rápida proliferação nos últimos anos querem descobrir é, na verdade, o motivo pelo qual precisamos das outras pessoas. Escrever é algo que fazemos na solidão, ou algo que requer a ajuda dos outros? Um escritor pode ter consigo mesmo conversas úteis, embora repetitivas, e pode obter o prazer sexual por conta própria, apesar de talvez ficarmos alarmados se ele afirmar que fez amor consigo mesmo. Supõe-se, em geral, que a conversação e o sexo sejam mais produtivos e imprescindíveis na companhia dos outros.

Várias das formas artísticas mais importantes do século 20 – jazz, pop, cinema – são fruto de colaborações. O escrever pertence a essa categoria, ou seria algo completamente distinto? Alguns se tornam escritores porque querem ser independentes; não querem ser competitivos nem subordinar-se aos outros. Para eles, trata-se de um processo pessoal de exploração íntima, uma forma de estarem sozinhos, de refletir sobre a vida e, quem sabe, esconder-se, enquanto conversam com alguém que está dentro de suas cabeças. E é claro que, sem um certo grau de paixão pela solidão, nenhum escritor é capaz de suportar a tediosa obsessão dessa profissão.

Mas a coisa não termina ali, na solidão. Alguns estudantes, principalmente no início, quando começam a escrever, tendem a mostrar seu trabalho aos amigos e, às vezes, aos parentes, como forma de dizer algumas verdades, mas também com a esperança de que sua reação lhes seja útil. Entretanto, por mais que o leitor bem-intencionado goste do texto, isso não significa que o autor possua o vocabulário necessário para expressar sua opinião de maneira útil, para dizer algo que possa ajudar o escritor a progredir. A amabilidade pode ser de grande consolo, mas nem sempre serve como inspiração.

Homens e mulheres sempre buscaram formas de melhorar, modificar ou transformar seu estado de espírito, mediante o emprego de ervas, nicotina, álcool e drogas, além de descargas elétricas aplicadas ao crânio, ópio, banhos, tônicos, livros e conversas (no século 18 chegou a ser popular o “xarope de pérola” – pó de pérola – como suposta cura para a depressão). Não há motivo pelo qual o exercício da escrita não possa ajudar uma pessoa a ver o que há dentro de si e a organizar e aprofundar a ideia que faz de si própria.

A mesma função pode ser desempenhada pela leitura, que proporciona um vocabulário de ideias que pode ser usado pelo autor para ver sua vida com outros olhos. Mas um professor de redação não é um psicanalista disposto a escutar pacientemente o relato de como se dá o desabrochar do inconsciente por meio da livre associação ou dos sonhos, e o estudante sentiria certa estranheza diante de um mestre mais disposto a curar do que a instruir.

Quando necessário, como costuma ser, o professor tem de ensinar, transmitir informações sobre estrutura, voz, ponto de vista, contraste, personagens, disciplina. E, principalmente, ao enfrentar um projeto que não compreende e não sabe como abordar – algo horrível para alguém que talvez pense que deve entender tudo imediatamente -, talvez esse professor possa recorrer a algo parecido com o método socrático. Ao fazer muitas perguntas, pode devolver ao aluno seu trabalho com outro aspecto, ao mesmo tempo mais claro e mais confuso.

Os estudantes, muitas vezes, não sabem o que responder quando questionados a respeito do significado de uma imagem concreta ou de um determinado diálogo, não têm convicção se o trecho de fato cumpre a função que desejam. Talvez seja produtivo escrever a partir do inconsciente, onde o mundo é mais estranho e enfrenta um menor número de limitações, mas também é preciso reconhecer o trabalho de forma racional. E parte dele consiste em falar a respeito do inconsciente. Um estudante de cinema, num curta-metragem que havia filmado, colocou dois jovens sentados num banco de parque e os filmou de costas em uma longa tomada. Quando perguntei a ele por que a cena prosseguia por tantos minutos, ele me respondeu que aquele momento representava “a morte”. Ele queria que o espectador, naquele trecho do filme, pensasse na própria morte. Então, avisei-o que não compreendia como ele esperava que o público, a partir daquela imagem, chegasse à conclusão esperada. Ele pareceu compreender que precisava fazer mudanças para alcançar seu objetivo e incluir algum tipo de história, em vez de apenas reunir cenas na esperança de que o público adivinhasse a conexão entre elas.

Numa obra, se tudo mais fracassa – o humor, por exemplo, ou o fascínio exercido pelos personagens -, a história pode reter, por si mesma, o interesse do leitor, como ocorre com as telenovelas. Esse aprendiz também se beneficiou do contato com vozes mais autorizadas, outros artistas e poetas mortos, com quem poderia aprender soluções mais imaginativas para sua intenção de transmitir ao exterior seu mundo interior. É espantoso que não exista o costume de ensinar os alunos a enxergar a relação que existe entre o estudo de outros artistas e o próprio trabalho.

Tomar emprestada uma voz ou experimentar novas vozes não equivale a adquirir uma voz própria, mas já é um passo nessa direção. Aquilo que um autor rouba se torna seu quando ele o modifica de forma criativa. Levando-se em consideração que um artista se alimenta de praticamente tudo, uma educação humanista ampla, uma espécie de curso básico, que incluísse religião, psicologia e literatura, seria um complemento muito útil a qualquer curso de redação.

Erros. As conversas com o professor devem servir para que o estudante tenha uma ideia do que pode pensar um leitor corrente de sua obra e tenha sempre presente que sua escrita é, definitivamente, para os outros. Os escritores não são exibicionistas, e sim animadores. E essas conversas devem também dar ao aluno uma ideia do que pretende dizer. Também pode adquirir essa clareza com ideias novas, ao trabalhar em grupo com outros escritores. Ainda que em geral seja preferível o ensino individual concentrado – a maioria dos conselhos sobre redação são demasiado gerais, do tipo “escreva sobre coisas que conhece” -, a vantagem do grupo está na oportunidade de ouvir uma variedade de críticas e sugestões, algumas absurdas e outras muito valiosas.

Os alunos aprendem uns com os outros. Outra modalidade consiste em se trabalhar em pares, lendo os textos um do outro, apesar de isso não ser fácil em se tratando de obras mais extensas e da necessidade de manter o método de trabalho durante todo o tempo necessário para a conclusão de uma obra de porte considerável. O que precisa ser levado em consideração é o fato de o leitor orientar o escritor, e este deve ter a consciência de que só existe em relação com aquele cuja atenção é solicitada. O leitor ou espectador deve estar convencido da competência do escritor e constatar que sua obra é verossímil, podendo crer nela sem problemas. O escritor deseja que o leitor se sinta como ele se sentiu.

Na tentativa de escrever, temos de cometer alguns erros, equívocos que vão engendrar boas ideias, que darão lugar a mais inspiração. E há outros erros que convém evitar, ainda que às vezes seja difícil distinguir entre os dois tipos. Talvez isso se torne mais claro se pensarmos naquilo que ocorre quando o escritor sofre um bloqueio, vê-se travado.

Uma de minhas alunas queria contar uma história sob o ponto de vista de uma menina de 7 anos. Como seria de se imaginar, a proposta consistia para ela num desafio imenso, resultando no seu bloqueio (as coisas que temos mais pressa em dizer podem não ajudar na qualidade do texto). Com seu empenho em ocupar um ponto de vista que lhe era praticamente impossível alcançar, ela não conseguia escrever muito e começava a desanimar. Para ela, um bom conselho seria abordar a história sob outra perspectiva ou trabalhar em outra coisa durante algum tempo antes de voltar à ideia original. Talvez devesse esperar pelo surgimento de uma ideia melhor.

Para um escritor, a questão do esperar é muito importante. Uma boa ideia pode surgir rapidamente, mas, para desenvolvê-la ou testá-la, é preciso tempo. Aqueles que convivem com o autor talvez tenham a impressão de que ele pouco faz, limitando-se a deitar no sofá com o olhar perdido ou dando longos passeios (ninguém duvida que Charles Dickens estava escrevendo enquanto passeava). Costuma ser nesses momentos que as melhores ideias vêm aos autores – um livro não é composto a partir de um grande momento de inspiração, e sim pela reunião de muitos pequenos lampejos -, e por isso eles devem se acostumar a serem culpáveis de uma indolência fecunda.

Escrever e viver não são coisas dissociadas (ainda que possam ser separadas) e, em geral, o professor tem a tarefa de abordar a escrita como uma entidade independente. Entretanto, muitas vezes um estudante usa a escrita para meditar sobre a vida, de modo que o material apresentado ao professor representa um problema.

Uma mulher decide escrever sobre a mãe, mas sente-se oprimida pela dor e pelo sofrimento. Segue adiante, mas se detém, com medo daquilo que pode querer dizer. Ao fim, precisa decidir se quer ou não insistir nesse tema tão doloroso, mas fundamental. Talvez ela preferisse escrever sobre outro assunto. Ou talvez precisasse descobrir se seria capaz de enfrentar um tópico tão difícil. E pode também pensar: escrever é uma forma de aplacar o terror, ou de criá-lo? Vemos que, neste caso, a escritora é imaterial; o poema é a pessoa. São a mesma coisa. Disso resulta que uma das angústias do escritor é o medo daquilo que suas palavras podem fazer aos outros e da reação dos outros diante da expressão do que ele pensa, ainda que de forma fictícia.

Conflitos. Como sempre, há certas ideias que são proibidas ou freadas nas famílias – e em todas as instituições; quase todos os adultos têm medo de expressar o que pensam sobre determinados feitos, ainda que de maneira inconsciente. Temem ser acusados de traição e castigados, coisas muito possíveis. Portanto, devem perguntar a si mesmos se serão capazes de suportar isso. Por outro lado, pode ser que exista uma verdade pessoal concreta e seja isso o que o escritor deseja revelar acima de tudo, e isso cria um conflito insuportável que leva ao bloqueio de quem se inicia no ramo.

Se um aluno não consegue escrever nada além de monólogos deprimentes ao fim dos quais o orador comete suicídio, temos de nos perguntar não apenas a respeito do estado de ânimo do autor, como também por que não há outros personagens na obra, por que não são ouvidas outras vozes. No caso ao qual me refiro, era evidente que o aluno – que havia passado por instituições psiquiátricas nas quais fizeram pouco caso dele – estava me mostrando algo que eu tinha de levar a sério e sobre o que deveria refletir. A situação era inquietante, e foi difícil enxergar uma maneira de ajudá-lo a avançar. Ao fim, consegui convencê-lo a introduzir outros personagens para converter o trabalho em algo mais parecido com uma conversa.

Afinal, depois de algumas semanas, consegui que ele progredisse, mas os suicídios continuaram. Compreendi que, quando ele finalmente se preparava para abordar aquilo que era impossível dizer, o suicídio era uma saída cômoda. Uma outra versão do bloqueio do escritor. Mas, quando seus personagens começaram a dialogar – e o estudante viu a importância de debater consigo mesmo, de abrir a mente -, sua obra se desenvolveu. As cenas se estenderam e as pessoas começaram a falar. Sua obra se tornou mais acessível para os demais. Durante algum tempo, ao menos, pareceu que o escritor tinha transmitido parte de sua loucura aos personagens. Estavam mais doentes do que ele.

A verdade é que os mais sãos não costumam ser os mais criativos. Como nos recordou Proust: “Tudo que existe de bom no mundo procede dos neuróticos. Desfrutamos mil manjares intelectuais, mas não temos ideia do preço pago por seus criadores sob a forma de noites insones, lágrimas, gargalhadas espasmódicas, erupções, asma, epilepsia e medo da morte, que é o pior de tudo.” O que me tranquilizava era o seu entusiasmo, seu empenho no trabalho. Nossas reuniões lhe proporcionavam uma estrutura útil. Acredito que, na ausência de um professor que acompanhasse esse processo, ele teria dado penosas e intermináveis voltas, vendo-se cada vez mais isolado. Sua criação era uma das mais estranhas e imaginativas que já li, muito distante do realismo rombudo e dos convencionalismos que a maioria dos aprendizes costuma considerar um trabalho inspirado.

Alguns estudantes têm grandes fantasias a respeito do que é ser autor, dos benefícios que, segundo acreditam, obterão quando forem escritores. Isso desperta seu desejo e os ajuda a começar. Mas, quando se dão conta de como é difícil concluir uma obra decente, escrever cerca de 15 mil palavras merecedoras da pena e, ao mesmo tempo, percebem que é praticamente impossível ganhar muito dinheiro escrevendo, sentem um baque, perdem o rumo e se sentem impotentes. A perda de uma ilusão pode ser dolorosa, mas, se o aluno consegue superá-la -, se o professor consegue mostrar a ele que há coisas boas no seu trabalho e o ajuda a suportar a frustração do aprendizado de algo difícil -, então seu progresso ganhará em qualidade.

Afinal, o escritor aprende principalmente a respeito de si mesmo, e sempre buscará revolucionar, encontrar novas formas para seus interesses. Se tiver sorte, enquanto aprende a dar asas à imaginação, editará e avaliará o próprio trabalho. O que não quer dizer, é claro, que ele nunca vai precisar de ninguém. Talvez prefira ignorar os demais, mas antes terá de escutá-los, ao mesmo tempo em que continua a falar.

Tradução de Augusto Calil

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