Artistas do mercado de trabalho, pensai-vos!

Só não gostei desse termo “bairrismo” (prefiro a idéia multicultural, que diverge necessariamente da perspectiva bairrista) que o Sérgio Vilar empregou no texto em que comparava, à luz da própria experiência na Virada Cultural de Recife, a cena cultural recifense em relação à de Natal baseado na abrangência (quantitativa) do público e do lastro de memória cultural. Mas achei bacana à beça o texto, achei pertinente – não no sentido ao qual foi reduzido (como uma afronta à cena poti instituída), mas na medida em que questiona um caráter intestino do fracasso de nossa cultura: o processo.

Vilar, no seu texto, de maneira alguma nos sugere copiar o modelo do evento pernambucano, não se dedica a comparar os eventos de lá em relação aos daqui. Ao que me parece, interessa-lhe, principalmente, questionar os meios pelos quais nossa história nunca se conseguiu sobrepor ao esquecimento. Os businessworkers da cena – que em minha opinião são uns neoprovincianos (camuflados por um antiprovincianismo patético que tende a encobrir, na maioria das vezes, a reprovincianização que eles mesmos engendram) -, no entanto ignoraram – e ignoram (imbecil ou espertamente) – esse entendimento, num aparente esforço prol manutenção de um ufanismo novo, inspirado pela glamourização das relações entre “artistas” e seus consumidores, no enfraquecimento da atitude crítica (platéias passivas) com base na reíficação de microcelebridades e outros tantos movimentos apreendidos do mainstream nacional (e aqui fantasiados de via alternativa). Vilar não elogiou a virada pernambucana em detrimento do Circuito Ribeira – embora tenha sido contra coisa parecida que alguns se defenderam. Vilar, a partir da comparação estabelecida, fez pensar sobre os porquês de nós, como disse o Beto Leite (da Revista Catorze), perpetuarmos nosso processo de esquecimento.

Mas a grande questão existencial coletiva que se podia depreender do texto de Vilar foi por água abaixo na medida em que a Política de Eventos mostrou seu resultado micropolítico. Quero dizer: da forma como o anestésico projeto panis et circenses dos governos reverberou nas relações fora do âmbito do estado, fazendo com que a cultura (que aqui tem o sentido de “campo da arte na sociedade”) seja constantemente percebida como evento (entertainment) e não como PROCESSO. Ao tomar a comparação de Vilar (que visava desdobrar-se nesta questão sobre a qual já falei) como uma ofensa ao nosso regime de eventos (envolvendo eventos públicos e “privados”), ficou claro que os businessworkers ocupam-se, como agentes culturais, em reafirmar a mesma noção de cultura como Evento, alimentada pelo poder público (e sustentada pela mainstreanização da arte). Nesse sentido, pergunto se há efetiva consonância entre os objetivos dos empreendores da Cultura e os objetivos dos artistas.

Até onde me consta, os artistas, enquanto classe (argh), pressionam o poder público contra a Política de Eventos, porque consideram necessário que o Estado alimente e visibilize a produção, mantendo-a, possibilitando-a. Pelo menos é isso que dizem. Enquanto isso, os businessmen aspiram não à manutenção do trabalho dos artistas, mas do seu próprio, a manutenção dos seus eventos como principal vetor da política cultural. Sendo que os eventos, conforme a crítica feita pelos coletivos de artistas, só esgotam um dos problemas da produção cultural: a distribuição dos produtos. Mas como priorizar ações de distribuição se fazer arte (ou se preferirem, produtos “artísticos”) é um esforço contraproducente, economicamente inviável. Parece haver aí certa oposição de interesses. Não?

Então fica a pergunta: constatada as diferentes intenções políticas, opostas entre si, por que os empreendores tão constantemente conclamam o apoio dos artistas? Por que é tão constantemente levantada a necessidade de uma união de caráter classista¹ entre os envolvidos com a cena cultural? Será que, conseguindo-se todas as verbas, não será mantida a Política de Eventos, que privilegia os empresários (poucos) em detrimento dos artistas (muitos)? Perguntem-se!

¹ vale lembrar que essa idéia de “classe” pressupõe a unificação de discursos e a indiferenciação entre as partes.

Post-scriptum: este poema: http://substantivoplural.com.br/artistas-do-mercado-de-trabalho-uni-vos/

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