Árvore ou onda

Por Luís Augusto Fischer
NO ZERO HORA – VIA CONTEÚDO LIVRE

Um crítico literário, ou melhor, um historiador da literatura que leio com gosto, nos anos recentes, é Franco Moretti. Já tem bastante coisa traduzida dele no mercado brasileiro, a começar pelo instigante A Literatura Vista de Longe, editado pela Arquipélago. A editora Boitempo apresentou seu Atlas do Romance Europeu, e recentemente a Cosacnaify editou uma joia chamada A Cultura do Romance, volumão coletivo, mais de mil páginas, organizado pelo mesmíssimo Moretti.

Quer dizer, não falta material para lê-lo em língua pátria. (Não falta nem mesmo uma crítica aguda a ele, no excelente trabalho de doutorado de Ian Alexander, Formação Nacional e Cânone Ocidental – Literatura e Tradição no Novo Mundo, trabalho que já deveria ter sido editado em livro.)

Esses dias, em aula, repassei um ensaio dele que discute as condições para uma hipotética história mundial da literatura, assunto que me encanta e me ocupa a cabeça de vez em quando. Em geral, no Brasil, se pensa em história da literatura no âmbito nacional, e só; mas isso é uma peculiaridade nossa, país imenso e com delírios de grandeza, além de ser um país que compartilha sua língua apenas com países secundários em matéria de poderio econômico, político e mesmo literário.

Já aqui no Uruguai ninguém pode alegar que uma história nacional de literatura pode ser o bastante, porque a língua não pertence majoritariamente ao Uruguai, nem à vizinha Argentina; não se pode esquecer a existência da Espanha, do México, da Venezuela, da Colômbia, países grandes o suficiente, em qualquer sentido.

Moretti evoca dois modelos abstratos para descrever o modo como são concebidas as histórias de literatura: um é o modelo da árvore; outro é o da onda. Árvore, como modelo, serve para pensar em continuidade com mudanças: uma mesma raiz, que sai das profundezas verticais gerando galhos, que lentamente produzem folhas, etc. É o modelo predileto das histórias nacionais de literatura, dominantes no cenário intelectual desde a Revolução Francesa, mais ou menos.

Já a onda é modelo de outro conteúdo: corresponde a um movimento horizontal, passa por cima de fronteiras, nacionais ou outras, de modo rápido e irresistível. A onda corresponde ao movimento do mercado (e da guerra também, antigamente) e não quer nem saber de identidade local. Árvore e onda se combinam, ao longo do tempo; mas a onda é que está vencendo a parada.

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