As armas dos assassinos múltiplos

Por Gláucio Soares
CORREIO BRAZILIENSE

Em curto prazo, o Brasil se comoveu com dois episódios de assassinos múltiplos. Primeiro, Wellington Menezes de Oliveira usou armas de fogo contra alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, matando, inicialmente, 12 (infelizmente, como há muitos em estado grave, o número deve aumentar). Wellington tinha sido aluno da escola. É um típico evento de rampage killings.

Em Santos, um atirador num carro preto (talvez haja mais envolvidos) disparou contra pessoas em quatro bairros, matando uma e ferindo sete. Se for o mesmo autor ou se forem os mesmos autores, estamos diante de eventos conhecidos como spree killings.

Esses dois eventos no Brasil mostram como a evolução da tecnologia da morte significa que o mesmo assassino que antes matava duas ou três pessoas hoje pode matar 20, como argumenta Tom Diaz, que escreveu Making a killing: The business of guns in America. A letalidade de facas ou espadas é muito menor do que a de armas semiautomáticas: exige proximidade física, dá possibilidade de defesa e de fuga. Alguns rampage killers se encastelaram em pontos privilegiados, como torres de observação, e escolheram em quem atirar.

Porém, outras armas já foram usadas por assassinos múltiplos. Houve dois casos de soldados alemães que, dirigindo tanques, saíram catando gente para atropelar. Foram tomadas medidas e em um quarto de século não houve repetições. Essa política pública mostra o efeito da prevenção. Lothar Adler, que estuda os assassinos múltiplos, enfatiza as explicações psiquiátricas e a prevenção. São inúmeros os exemplos de políticas públicas de contenção da violência que foram bem-sucedidas.

No cotidiano, quem usa armas e quem não usa? Uma hipótese é a vulnerabilidade relativa, apresentada em 1982 por Cook, que comparou os ataques de homens relativamente idosos contra homens jovens e os de homens jovens contra homens maduros e idosos. Quando são os mais fracos os que atacam, armas são mais usadas (87%) do que quando são os mais jovens (e fortes) os que atacam (48%).

Essa hipótese não se limita a armas de fogo. As diferenças não excluem qualquer tipo de arma que esteja disponível — e aqui entra a forte hipótese da disponibilidade: as pessoas usam as armas que estão disponíveis ou que podem adquirir com facilidade. Nos assassinatos domésticos (homem mata mulher ou vice-versa), as mulheres usam mais armas relativamente aos homens. A hipótese da disponibilidade é compatível com o maior uso de instrumentos domésticos transformados em armas, como facas de cozinha.

Dez anos mais tarde, McDowall, Loftin e Wiersema entraram no mérito da questão, tocando, também, nos temas correlatos da influência da mídia e das políticas públicas: em seis cidades americanas, uma campanha pela mídia anunciou que os crimes nos quais se usassem armas de fogo teriam penas maiores. Essa campanha midiática parece ter convencido agressores e assaltantes violentos a trocar armas de fogo por outras.

Houve uma redução nas taxas de homicídio e uma redução maior nas taxas de homicídio com armas de fogo. O efeito da legislação e da campanha midiática é difícil de negar, pois havia uma tendência que mudou e a mudança coincidiu com a campanha. Parece ter havido migração de armas de fogo para outras armas, mas não houve compensação de homicídios, levando à conclusão de que a substituição foi de armas mais letais por armas menos letais.

Busquei a lista de assassinos múltiplos (inclusive os que tentaram matar, mas não conseguiram — as vítimas foram feridas, mas não morreram, sem mencionar as que fugiram) e separei os 50 incidentes que resultaram em mais mortes dos 50 que resultaram em menos mortes. No primeiro grupo houve 33 incidentes com uso de arma de fogo (exclusivamente ou juntamente com outro tipo de arma) em contraste com 20 no segundo. Essas diferenças não são explicáveis pelo acaso: com um grau de liberdade, e um valor de Pearson de 6,78, a chance de que sejam devidas ao acaso é de 0,009!

O controle de armas de fogo reduz o número de mortos em casos de assassinos múltiplos


Pesquisador do Instituto de Estudos Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj)

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