As castanhas de Titio

Por Elilson José Batista

Há figuras, tipos marcantes na vida pacata das pequenas cidades interioranas. E vos apresento um dos tais: Raimundo…, dito o Titio. Moreno, baixinho, bom de conversa e de lorota, companheiro tão-só para os pagodes e pândegas triviais, do diário.

E vai que, em uma tranquila manhã serrana de Portalegre, apareceu Titio no mercadinho de Palé, produtor e também comprador de castanhas. Raimundo trazia duas bastas sacolas de castanhas para negociar com Palé. E foi logo perguntando:

– Palé, por quanto você compra o quilo da castanha?

– A noventa centavos, respondeu o negociante, já cismado ao avistar o novato vendedor, e perguntou de rompante:

– Titio, onde você arrumou essas castanhas?

E Raimundo, mostrando indignação:

– Por quê?

– Eu tou conhecendo elas. E são do meu terreno. Você não tem terras, não tem cajueiros, e mora vizinho ao meu terreno lá no Sítio Pelo Sinal, então…

E Titio, mais indignado ainda:

– Olha, Palé, eu vim pra negociar e não pra brigar! Se você não quer comprar, tem quem compre! Vou vender a Raminho e, se quiser, entre na justiça pedindo o DNA das castanhas. E agora só vendo as castanhas por 1 real o quilo!

Entre perder os lucros para o atravessador rival daqueles frutos-reis que pareciam, quiçá, escolhidos, Palé, num ranger de dentes e num esforço descomunal, comprou as próprias castanhas, agora no preço do vendedor.

E Titio saiu todo célere, o Conquistador, rumo ao Bar da Praça, para iniciar os trabalhos do dia.

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Elilson José Batista, escrevedor pauferrense, in Inéditos & Afins,

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