As cidades de Thiago Medeiros

Quando eu penso em cidades melodicamente, lembro-me de Caetano cantando Sampa, Criolo sussurrando “não existe amor em Essepê”, Gil entoando “o Rio de Janeiro continua lindo” e Chico Science narrando pungentemente o Recife e seus manguezais .

Deixando as músicas de lado e aventurando-me na escrita, recordo-me imediatamente da magnífica obra Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, e do escritor Manuel Bandeira eternizado no Cais da Rua Aurora recifense.

Mas eu sou potiguar e, embora todas essas composições artísticas sejam extremamente belas, nenhuma é capaz de me tocar como o poema Rua Trairi, de Zila Mamede. Nenhuma evoca minhas raízes como Khrystal cantando “de que lado mora o seu preconceito? Atravesse a ponte que eu vou lhe mostrar”.

Leia “Sobre “Ardência”, de Thiago Medeiros”, texto de Adélia Danielli

Mal de natalense bairrista, amante deste pedacinho do continente, desta quentura ora ameaçadora ora aconchegante, a província onde Marize Castro arriscou “enlaçar orquídeas em árvores”.

E nos últimos tempos, ninguém me faz pensar em Natal como o ator e poeta Thiago Medeiros. Verdade seja dita: é um dos artistas que mais tem sacolejado esta cidade artisticamente. Que tem chacoalhado a cena poética, acolhendo poetas iniciantes e simultaneamente celebrando os mais antigos e mais consagrados. O coração de Thiago é feito coração de mãe: generoso, nele todos cabem.

Esses dias, a poeta Géssyka Santos me confidenciou: “temos que olhar para a importância que Thiago hoje representa para a cena cultural da cidade”. E é verdade. Este lugar de pertencimento é dele, merecidamente.

Relação simbiótica entre escritor e cenário

“seus olhos acesos rompendo o desbotado azul do cemitério do Alecrim”

E na poesia, nos seus escritos, é vibrante a relação do poeta com Natal. Nascido e criado no Alecrim, os carros do bairro “atravessam seu peito” e os “passageiros se perdem nas encruzilhadas”. O “barulho ensurdecedor” das ruas tem um ritmo de saudade. Saudade do quê, de quem? São muitas as respostas no lugar onde “o sal que paira sobre a cidade” enferruja os ossos e embaça “o último caco de vidro que restou na janela”. Saudade talvez de Lindalva, a mulher que diz alguma coisa com “seus olhos acesos rompendo o desbotado azul do cemitério do Alecrim”. Saudade talvez do pão de Zé Augusto, aquele “de mercadinho” e “vindo de Kombi”.

São muitas as cenas conjuradas: como não se identificar enquanto natalense com os úmidos lábios no poema Beco da Lama? No poema Vertigem do ônibus lotado, eu vago pela Rio Branco como o próprio Thiago, sem saber “a qual tom pertenço”, espantado pelo “cinza com longos canteiros”. Quem nunca meditou profundamente num ônibus lotado e quente em Natal, não viveu esta cidade de maneira plena. Quem nunca a xingou de “cidade careta da porra”, também não vive por aqui.

Há uma relação quase simbiótica entre o escritor e o cenário. Na verdade, não há uma cidade. São muitas as cidades: a do desafeto, a do afeto, a da saudade, a da vertigem, a da tristeza, a da alegria, o lugar onde se chora depois de um amor rápido e fugaz.

Natal é o ambiente paradoxal onde enxergamos a “triste beleza ao ver um sofá vermelho/jogado entre os entulhos/ no canteiro da/avenida prudente de morais/no coração da cidade/ era primavera,/ anunciando o tempo dos ipês”. É o espaço suspenso onde a beleza emerge, ainda que sob ruínas.

Obrigado, Thiago, pelas suas infinitas cidades. Pelo que você representa. E mesmo que nelas, nestas cidades de dunas às vezes áridas, você tema o “olhar engarrafado e vazio “, um olhar perambulando pelas ruas natalenses que sabem que choram “mais pela ausência do que pelo excesso”, lembre-se de que “quando algo arde, é porque está sarando”.

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