As dores do corpo

Por Marcelo Coelho
FSP

Talvez o tema do sacrifício seja exatamente uma das coisas que a arte de Pina Bausch quer ressaltar

Deve ter sido vingança da Pina Bausch. Na semana passada, eu ia comentar o filme de Wim Wenders a respeito dela, mas fui atingido por um mau jeito na coluna vertebral, que me deixou de bengala por vários dias.

Não nego, o documentário é deslumbrante. Graças à projeção em 3D, há momentos em que o espectador se sente dentro do palco, ouvindo de perto a respiração ofegante dos dançarinos, percebendo cada nuance das suas expressões faciais.

Ao mesmo tempo, as coreografias de Pina Bausch me deixam com uma série de dúvidas e reticências. Tento elaborá-las um pouco.

Bom ir avisando que tenho um problema com a dança em geral. Sou tão ruim de ritmo que não acerto nem bater palmas em festinha de aniversário.

O pior é que, a cada espetáculo que vejo, percebo a pura inveja (da agilidade, da beleza física, da juventude) corroendo lentamente a sincera admiração que eu possa ter.

Inveja que logo se dissipa e dá lugar a um sentimento de aflição. Por que é que aquela gente tem de sofrer tanto? Os passinhos na ponta dos pés; os estiramentos e contorções de circo; a exigência, sempre desumana, de não aparentar esforço em meio a tanta dor…

Tudo fica mais claro na filmagem de Wim Wenders, que anula a distância entre o palco e a plateia. Não foi por acaso que fiquei meio aleijado depois do filme.

Muito angustiante, por exemplo, o número em que determinado bailarino vai equilibrando cadeiras, uma em cima da outra, enquanto alguém a seu lado estaca numa posição impraticável.

Mas talvez o tema do sacrifício seja exatamente uma das coisas que a arte de Pina Bausch quer ressaltar. Claro que é disso que trata “A Sagração da Primavera”, uma das primeiras coisas que vemos no filme de Wim Wenders. A coreografia de Pina Bausch, que é lindíssima, ajuda os que, como eu, nada entendem de dança.

Pina Bausch faz com que cada compasso da música de Stravinski tenha função clara ao narrar a história daquele balé -a saber, a escolha de uma virgem que será morta num sacrifício pagão.

Só que, conforme o filme ia mostrando outras coreografias, fiquei pensando se o que tornava aquelas danças inteligíveis para mim não seria o seu lado de pantomima, mais do que de dança mesmo.

Depois de driblar dezenas de cadeiras inquietantemente espalhadas pelo palco, a dançarina encena a dor da separação, a alegria do reencontro. Até pelo uso recorrente das expressões faciais, o número tem algo de cinema mudo.

A dança surge no momento em que as palavras já não dão mais conta das emoções, diz Pina Bausch, em breve entrevista reproduzida no filme. Sem dúvida; mas talvez exista uma contradição entre o ato de expressar um sentimento mudo -dor, surpresa, alegria, paixão- e a necessidade, própria da dança, de que movimentos corporais se repitam.

Por isso mesmo, um dos mecanismos utilizados por Pina Bausch é o de fazer os dançarinos reproduzirem o mesmo “desenho” físico em movimentos cada vez mais rápidos. Encontro, amor, violência e morte num ciclo infatigável…

Do mesmo modo, surge o ciclo das estações, primavera, verão, outono, inverno, que a trupe de dançarinos representa com gestos logo no começo do filme. Raro exemplo, aliás, de alegria ou, pelo menos, de sorriso, no meio de tantos sofrimentos.

Terra, água, céu, pedra: elementos simples da natureza também estão presentes no palco. E fora dele, nos momentos em que Wim Wenders usa a paisagem de um parque, ou de uma fábrica abandonada, para que os dançarinos vivam, no vazio, o luto pela morte recente da coreógrafa.

Na verdade, o filme só poderia mesmo ter sido feito depois de Pina Bausch ter morrido: não se trata apenas de mostrar o seu trabalho como coreógrafa, mas de comemorá-lo. Ou seja, ver como os bailarinos (que lindamente dão depoimentos nos mais diversos idiomas) lidam com a ausência da artista.

Sozinho, isolado na feiura ou na beleza do próprio rosto, falando diretamente para a câmera, cada bailarino se faz presente no filme, vivo e humano, antes de ser novamente tragado pelo maquinismo mudo, coletivo e doloroso do espetáculo.

Misto de bicho e máquina, às voltas com uma natureza que é também violência e repetição, o ser humano ofega e sofre nas coreografias de Pina Bausch; no filme de Wim Wenders, ouvimos e vemos, mais de perto do que nunca, a agitação desses corpos em suplício.

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