As fronteiras rasgadas

Por José Castello
Blog A Literatura na Poltrona

A literatura, ou a vida? A pergunta, que atordoa os escritores desde o Romantismo, toma forma em um email que recebo de um leitor, Eduardo Sabino. Sem disfarçar a perplexidade, ele me oferece uma estranha definição de meu trabalho. “Você lê a vida como se ela fosse um romance”, diz. “E sente suas leituras como se elas fossem a própria vida”.

Eduardo toca em meu ponto fraco: aquele rasgão, que costura alguma é capaz de remendar, no qual literatura e vida se misturam. Para me salvar, penso que, talvez, este seja meu ponto forte – se é que tenho algum. Nem forte, nem fraco, ele não passa do ponto desde o qual escrevo, ou tento escrever. Não só eu, mas grande parte dos que, nesse começo de século, insistem na literatura.

Acredito, de fato, que a literatura não é um reino à parte da vida, embora ela não seja a própria vida também. Eu a vejo como uma fronteira imaterial, onde a realidade vacila e as certezas se rompem. Um limite, que nos desenha, mas também nos detém. Em um mundo tão duro, de planilhas, custos e resultados, a literatura ganha, assim, uma inesperada potência.

Detenho-me, aqui, na primeira parte da síntese que Eduardo me oferece. Penso, sim, que a vida tem uma estrutura de ficção. Apresenta, muitas vezes, um desenho mais azeitado e engenhoso que muitos romances. É desde essa fronteira, em que a realidade e a ficção se enfrentam, que luto para escrever.

Há poucos dias, vivi uma situação que talvez ilustre o que tento dizer. Foi assim. Chego a Vitória, a convite de Claudiney Ferreira, para uma mesa-redonda no Intercom 2010. Aproveito um resto de tarde para descansar. Mal pego no sono, a camareira me acorda. Vem devolver um terno, impecavelmente passado, que nunca lhe entreguei. “Espero que o senhor não tenha perdido a hora”, ela se desculpa.

Não uso ternos. Em minha mala, carrego só um jeans de reserva e algumas camisas esportivas. Explico à camareira que há alguma confusão, pois o terno não me pertence. Sem se abalar, a mulher tira do bolso uma comanda em que minha assinatura brilha. “Passar com urgência”, está escrito. Logo abaixo, meu nome e o número de meu apartamento. “Eis aqui”, ela diz, com um discreto sorriso de vitória, mas também de desprezo.

Sem coragem para suspeitar das palavras, pego o terno e o dependuro em um cabide de pé. Volto para a cama e me contento em observá-lo. Tem o meu tamanho. É cinza chumbo, uma de minhas cores preferidas. Não é nem moderno, nem clássico – poderia, de fato, ser meu. Só que não é meu.

Sou um sujeito esquecido, mas não a ponto de desconhecer minhas próprias roupas, ou de não lembrar de algo que fiz poucas horas antes. Uma vez que aceitei o terno, já não posso devolvê-lo, até porque não saberia a quem. Ele passou a ser meu e agora preciso fazer alguma coisa disso.

Como sempre, recorro à literatura em busca de um ponto de apoio. Vem-me à mente, então, uma história relatada por Paul Auster. Em sua caixa de correio, Auster encontrou, um dia, uma carta dirigida a certo Robert M. Morgan, de Seattle. No alto do envelope, um carimbo avisa: “Destinatário desconhecido. Devolver ao remetente”. Procurou o registro de remessa e, para seu espanto, encontrou seu próprio nome e endereço. Sem alternativas _ exatamente como eu agora _, Auster abriu o envelope e começou a ler a carta que nunca escreveu.

Não sei se a história relatada por Auster é verdadeira, ou falsa. Não sei dizer se minhas próprias histórias são verdadeiras, ou falsas, como poderia, então, julgar as histórias alheias? Sei que, agora, a realidade a imita. Mas como confiar na realidade, se sempre confiei mais nas ficções?

Penso em copiar Auster: mas como se lê um terno? Examino-o mais de perto, em busca de algum indício de que me pertença. É como se examinasse um relato escrito em uma língua morta. Como um analfabeto, refém de imagens enigmáticas, me detenho nas dobras do colarinho, nas linhas esmaecidas do tecido, nos vincos das calças. Nada consigo ler.

Sempre os livros: salto de Paul Auster para José Lins do Rego. Durante a viagem de Curitiba a Vitória, reli grande parte de Menino de engenho. Farei uma palestra sobre Zé Lins, preciso me preparar. Ocorre-me, então, uma história contada pela velha Totonha, a mulher desdentada que, de vez em quando, aparece no engenho para distrair os meninos.

Um homem é condenado injustamente à morte. Escoltado pelos guardas, caminha para o cadafalso quando avista a mulher que, em uma janela, amamenta seu único filho. Ao ver o pai, o bebê começa a declamar alguns versos. O poema que recita revela a verdade sobre o crime e salva o pai da condenação.

Não vou morrer por causa desse terno, mas nenhum bebê (ninguém) me salvará do terno que tenho diante de mim. É ele, na verdade, que me observa. Traz inscrita em seu corte uma história que sou incapaz de ler. Dependurado no cabide, ele me apresenta um relato de estrutura ficcional. O mais grave: ele me inclui nesta ficção.

Levanto-me para telefonar para o quarto de Claudiney, na esperança de dividir com ele minha agonia. Antes de completar a ligação, a governanta reaparece. “O dono reclama seu terno”, se limita a dizer. “É do apartamento 307”. Envergonhada, olha para o chão. Tenta se explicar: “Ninguém entende como seu nome apareceu na comanda. Mas isso já não importa”. Pega o terno de volta, pede desculpas e se vai.

Tomo banho, visto meu jeans surrado e desço. Sinto falta de alguma coisa: sinto falta do terno que não é meu. Na recepção do hotel, encontro, enfim, com Claudiney. “Preciso lhe contar uma coisa”, eu começo _ certo de que minha história precisa ser contada para se tornar verdadeira. As palavras, porém, não me saem. “Vamos, estou esperando”, ele me anima. Não, não vou contar o que vivi. A história que vivi é literária demais e se assemelha a uma mentira. “Melhor não”, eu lhe digo.

Talvez, penso, pudesse relatá-la como o esboço de um conto que pretendo escrever. Mas não: transformada em um conto, ela se tornaria inverossímel e tola. Talvez eu pudesse apresentá-la, penso ainda, como uma crônica que rascunhei durante a tarde. Mas pareceria fraca e fantasiosa também.

Participo da mesa de debates. Na primeira rodada de perguntas, uma moça me interroga: “Para que serve a literatura?” Penso em relatar a história do terno, que não serve para nada, não tem utilidade alguma e não comporta nenhuma solução, e no entanto dominou minha tarde. Uma história verdadeira, que tem a estrutura de uma ficção. Como a literatura, ela abre um grande rombo no qual tudo se desloca. Como a literatura, parece vaga e inútil, mas me aplica uma rasteira.

Penso em falar do terno, mas desisto. Em vez disso, dou uma dessas respostas prontas e abomináveis com que nos livramos do que nos incomoda. A moça, gentil, agradece. Acho que funcionou. O previsível e o conhecido parecem, sempre, muito mais verdadeiros. Sempre complexa, a verdade se assemelha a uma ficção.

Antes de dormir, observo o cabide vazio. Quantas histórias eu poderia nele dependurar? Parece um cabide qualquer. Parece, mas não é. Mesmo estando ali, jogado atrás de uma poltrona, habita uma fronteira muito distante de meu quarto. O mesmo mundo improvável em que a literatura se escreve.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × 4 =

ao topo