As Idas e Vindas de São Serapião

Por Demétrio Diniz

Quando deixou Lisboa, num frio duro de inverno, Serapião não viu o Tejo envolto em neblina, nem a mulher que se exercitava solitária na calçada que margeia o rio. Embora santo, nada pôde ver ao seu redor, despachado que fora numa caixa de madeira. Vinha de uma freguesia perto de Fátima, um local de santeiros, e viajava para o Brasil, depois de comprado por alguns contos de réis.

Encaixotado com pó de serra e rapa de carvalho, sentiu voltarem à tona os sentimentos aflitivos de outrora. Por conta de suas idéias fora banido pelo imperador Constantino. As quatro cartas de Santo Atanásio, escritas no deserto em seu socorro, o livraram dos perigos do desânimo. Agora, mil e seiscentos anos depois, constrangido pelo encerramento, angustiava-se ante a vontade repentina de saltar nas águas do Atlântico.

Sossegou ao se dar conta da missão de levar a fé católica às terras d’além-mar e ao recordar seus próprios escritos, segundo os quais se devia renunciar às alegrias efêmeras e aos prazeres do mundo.

Chegando ao Brasil, desembrulhado e posto num andor, foi para seu desagrado apresentado à nova paisagem. Em nada se parecia com Alexandria, sua terra natal, lembrando-se do farol e do porto coalhado de navios. Tampouco recordava os vinhedos de Portugal, onde o esculpiram. Franziu o nariz e as maçãs do rosto ao ver uma terra de pedregulhos, as cercas de varas tortas e pontudas, vacas que mostravam as costelas mal se sustentando entre redemunhos de varejeiras, e um calor dos infernos. Disseram-lhe, na tentativa de confortá-lo, que aonde fosse o sertão era assim.

No seu primeiro dia, adentrando a capela construída por um fazendeiro, que pretendia com a carolice se livrar dos efeitos do remorso, tombou e caiu no chão. No acidente, quebrou um pé, que se partiu e nunca mais foi encontrado. Atribuíram o sumiço a um carroceiro, cujo filho sofria de elefantíase. O homem teria guardado o pedaço da estátua para servir de ex-voto e oferecê-lo ao padre Cícero, porque não acreditava que Deus desse poderes a um santo preto.

A imagem saíra da casa-grande, passara pelo curral dos bois, o chiqueiro das cabras, circundara o açude, e chegou em romaria à pequena igreja. Segundo o povo, Serapião caiu de propósito, recusando-se a passar o resto de sua vida naquele terreno amaldiçoado, o mesmo onde, antes de levantarem a igreja, um homem fora esquartejado por causa de uma paixão.

2.

Liduína, uma moça muito bonita, curou-se de sua obsessão por um rapaz que ela nunca conhecera, no dia em que Roberto apareceu na fazenda. Educado, sabendo escrever e fazer conta, lembrava pelo olhar o homem por quem ela se alucinara através de uma simples fotografia, guardada em segredo durante anos nas páginas de um exemplar do Lunário Perpétuo.

Tão logo pressentiu o farnezim do amor, Liduína rasgou o retrato e atirou no fogo o velho almanaque. Nenhum outro vaqueiro ou filho de fazendeiro que a pretendeu atiçou como Roberto as labaredas de sua imaginação. Sonhava com ele a noite toda, entregava-se aos beijos, perdia nos delírios do sono a virgindade, e pela manhã ditava para o beija-flor estacionado no ar, na janela de seu quarto, o nome do vaqueiro repetidas vezes. Mas sabia que o pai jamais concordaria em vê-la casada com um negro, considerado um pé-rapado, ocupado em curar bicheira e botar creolina em chifre de vaca.

Os dois fugiram de madrugada, no primo canto do galo. E logo de manhã cedo foram localizados numa casa de taipa abandonada, a três léguas de distância. Liduína dormia com as pernas abertas, as coxas sujas de sangue. Antonino Silveira, seu pai, evitou olhar para o vaqueiro.

Roberto foi retalhado no terreiro da casa. Com precisão de marchante cortaram nas juntas, deixando-o ainda vivo, esvaído em sangue, só com a cabeça e o tronco. Os olhos aflitos do rapaz, na hora da morte, giravam conforme o círculo do vôo dos urubus, mas não disse uma palavra pedindo misericórdia. Morreu em silêncio, submetido como um carneiro. Liduína despediu-se do mundo e se trancou, governando com secura a casa e, depois da morte do pai, com igual aridez, a fazenda. Findou moça-velha, magra como uma vara, e nunca mais sorriu.

3.

Na época espalhou-se o boato de que São Serapião à noite, mesmo com um pé só, dava voltas no pátio e ia confortar a alma revoltada de Roberto. A fumaça do boato surgiu porque Rosalina, a beata encarregada de espanar as imagens, passou a encontrar, pela manhã, a estátua em diferentes posições no nicho. O santo saía para conversar com Roberto, lembrando ao infeliz a falta de sorte dos pretos por essas terras. O vaqueiro lamentava mais a perda do amor de Liduína que propriamente a forma desumana como o mataram.

Antes de darem pelo seu desaparecimento do nicho, São Serapião foi visto, numa noite de lua cheia, desfrutando no riacho do aroma dos bogaris, pesaroso e com saudade de Portugal. Teria confessado a um pescador seu desejo de fazer o caminho de volta, do riacho ao rio, do rio ao mar, do mar ao Tejo, do Tejo à sua freguesia perto de Fátima. Sabia que nenhum milagre seria capaz de operar numa terra de gente seca, de muita reza e pouca doçura, naquele sertão de moscas e espinhos. A sua segunda pátria era amena, o vento soprava nos olivais e vinhedos, e o fado trazia o langor da saudade.

Alguns dias depois, um motorista ladrão de areia achou no rio Jundiaí a estátua do santo, afundada até o pescoço na água. Já sabiam, por ouvir dizer, de sua estória, do desgosto com a terra para onde primeiro o destinaram, e de sua fama de consolador. Mas foi uma velha da cor de cobre, em trajes de cigana, e nunca vista naquele lugar, que, espiando pela boléia do caminhão, reconheceu o santo:

– É São Serapião de Mombaça – exclamou.

Em poucos dias começou uma nova romaria. Dessa vez eram os que lamentavam, numa lamúria diária, os amores acabados. Os que bebiam e fumavam noites sem fim, entupindo de bolero e samba-canção as radiolas de ficha, na esperança de verem entrar pela porta o homem ou a mulher por quem foram tatuados.

Lucas Marinheiro, um quarentão com sorte nos negócios e azar no amor, havendo perdido de uma vez só a esposa legítima, a concubina e uma promessa de namoro, tratou de construir um santuário. Nele os desprezados recorriam a São Serapião com um buquê de promessas, sabendo já por intuição ou experiência própria que os namoros, as paixões, os enganchamentos, seja lá o que for, uma vez desfeitos, só por milagre se consertam.

Comentários

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  1. Tácito Costa 28 de junho de 2012 14:24

    O aniversário é dele, sessenta e poucos – rs, mas o presente quem ganha somos nós, com esse conto.
    Ontem recebi o seguinte e-mail:
    “Amigo Costa, neste dia (28) do meu aniversário, vamos comemorá-lo com a publicação no SP do conto anexo, na internet você encontrará várias fotos de São Serapião.
    Abraços Demetrio,”

    O Costa aí é reminiscência das nossas boemias pela cidade, quando adotamos como os nomes de guerra “Costa“ e “Rafael”, este último dado carinhosamente por uma mimosa que conhecemos por aí. No meu caso, o “Costa” foi adotado porque o “Tácito” era complicado pra se falar, geralmente ficava “Tácio”, “Tasso” etc, por isso resolvemos simplificar.
    Parabéns meu velho.
    Você escrevendo cada vez melhor.

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