As lagartas

Naquele tempo havia as lagartas que chegavam com as chuvas. Dizia-se delas: -as lagartas dos coqueiros!, posto que neles viviam e de suas folhas alimentavam-se. Eram gorduchinhas e gostosas de tocar. E caíam aos montes no chão fazendo a minha alegria pueril. Admirava-as. Seus movimentos sinuosos, o modo como enrolavam-se em si mesmas, escapando-me entre os dedos e, sobretudo, a textura suave da sua pele marrom. Cobertas com um pelo curto tão macio quanto veludo elas não eram urticantes, mas, antes, frias. Eu , criança, as reunia em rebanhos num curral improvisado que criava com gravetos e pedrinhas lá no fundo do quintal. Ali, no meu fantasioso mundo, eu tinha a nítida sensação que era um fazendeiro feliz. Nem desconfiava que tinham nome e sobrenome latino. Brassolis sophorae Linnaeus,1758. (Ordem Lepidóptera, Família Nymphalidae)

Dona Laura, minha avó materna, severa e ranzinza, apavorava-se só com a ideia de alguém citar o nome destas invertebradas. Verdadeira fobia que eu imaginava um dia poder usar em retaliação a alguma tentativa de agressão futura. Acho que andava com algumas no bolso do calção, mas, confesso, não sei em que tipo de borboletas elas se transformavam. Lembro-me uma vez de ter enclausurado uma lagarta em uma latinha vazia de Vick Vaporub e de tê-la esquecido em algum lugar da casa. Meu avô Damião, ingênuo e curioso, alguns dias depois, achou o sarcófago metálico e abrindo-o, cheirou descuidada e profundamente o seu conteúdo buscando aspirar os vapores do mentol e da cânfora. O velho quase morreu – coitado!- ao inalar a podridão do miasma cadavérico da lagarta, e eu quase levo uma surra daquelas.

Nunca mais as vi, as lagartas da minha infância. Acho que foram extintas, vítimas do uso indiscriminado de agrotóxicos, dos
desmatamentos descontrolados e de meninos curiosos e travessos feito eu.

Paraibano de João Pessoa que vive em Natal há quase trinta anos, Edmar Claudio é escritor e artista plástico. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Ricardo da Câmara Guedes 12 de Outubro de 2017 12:27

    Excelente texto, amigo! Merece um churrasco regado a cerveja e lagarta ( neste caso, o tipo de carne )! Rsrsrs! Abraço!

  2. Ricardo da Câmara Guedes 12 de Outubro de 2017 12:30

    Corrigindo meu comentário anterior:
    Excelente texto, amigo! Merece um churrasco regado a cerveja e “lagarto ” ( neste caso, o tipo de carne )! Rsrsrs! Abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP