As lendas de Roberto Bolaño

Por Guilherme Freitas
No Verso e Prosa – O Globo

Numa longa entrevista que deu à “Playboy” mexicana em 2003, já muito debilitado pela doença hepática que o mataria naquele mesmo ano, Roberto Bolaño fez piada com os críticos que o anunciavam como o escritor latino-americano com mais futuro. “Mas eu sou o escritor latino-americano com menos futuro”, respondeu, aproveitando para desdenhar da palavra “póstumo” (“Soa a nome de gladiador romano”). Bolaño morreu em julho daquele ano, na mesma semana em que a revista chegou às bancas, e a entrevista, aconchegada entre fotos de mulheres seminuas, acabou sendo seu obituário mais eloquente.

Nos anos que se seguiram à sua morte, as bravatas de Bolaño sobre a posteridade se tornaram, ironicamente, um dos traços mais distintivos de sua imagem póstuma. Imagem que se construiu em velocidade vertiginosa desde a publicação de “2666”, o romance no qual trabalhava ao morrer, e que será lançado no dia 20 pela Companhia das Letras (com tradução de Eduardo Brandão, 856 pgs, R$ 55).

Publicado na Espanha em 2004, “2666” sedimentou o prestígio do autor entre leitores e críticos de língua espanhola. Mas foi a chegada de sua tradução aos EUA, em 2008, que detonou o que a britânica “The Economist” chamou de “bolañomania”, fenômeno marcado por uma mistura de reconhecimento literário e mistificação biográfica sobre o escritor. O sucesso inesperado do livro num mercado conhecido por ser refratário a traduções despertou curiosidade em todo o mundo e deu nova dimensão à imagem de Bolaño.

Em entrevista ao GLOBO por e-mail, o editor espanhol Jorge Herralde, diretor da Anagrama, que publicou “2666” e os principais títulos de Bolaño, recorre a uma frase do escritor Enrique Vila-Matas para comentar o furor, às vezes exagerado, em torno do chileno.

— Vila-Matas disse que “com a morte de Bolaño, começa uma lenda”. Por um lado, há uma lenda literária: para muitos jovens autores latino-americanos, Bolaño é um “farol”, o escritor mais influente, desbancando os grandes do boom. Mas também se elaborou uma lenda nos Estados Unidos, onde Bolaño foi aparentado com os beats de “On the road”, e sua morte prematura, sua oposição a Pinochet e o suposto vício em drogas reforçaram uma aura maldita e romântica — diz Herralde, lembrando que os boatos sobre drogas surgiram de um conto em primeira pessoa confundido com relato autobiográfico, apesar dos desmentidos.

Entre as lendas e a consagração crítica

A história por trás de “2666” já é quase tão conhecida quanto o cavalo-de-pau que García Márquez teria dado no carro ao vislumbrar subitamente a primeira frase de “Cem anos de solidão”. Depois de trabalhar por anos num romance que dava vazão à sua obsessão pelos assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez, Bolaño viu a saúde piorar muito em meados de 2003, quando se aproximava do fim da quinta parte de um livro que já ultrapassava mil páginas. À beira da morte, teria pedido ao editor Jorge Herralde que publicasse a obra em cinco volumes, calculando que assim garantiria o futuro financeiro da mulher e dos dois filhos.

Herralde confirma a lenda em parte, mas em tons menos lúgubres. Lembra o último encontro com Bolaño, quando o escritor apareceu em seu escritório de camisa florida, fragilizado pela doença mas falante e empolgado com o romance. Nestes encontros, diz Herralde, Bolaño costumava provocá-lo ameaçando incluí-lo no livro — o que de fato fez, através do personagem do editor alemão Jacob Bubis, que publica ao longo de quase meio século as obras do recluso escritor Benno von Archimboldi, cuja história se liga de forma misteriosa com os crimes de Ciudad Juárez.

— Ele brincava que Bubis seria inspirado em alguns traços meus e eu respondia “Assim você me assusta” — diverte-se o editor.

A decisão de contrariar o desejo de Bolaño e publicar “2666” em volume único foi tomada por Herralde e pelo crítico literário Ignacio Echevarría, amigo do autor e encarregado por ele de administrar seu espólio literário. Os dois consideram a escolha um “acerto literário e financeiro”, diz Herralde.

Após o lançamento do romance, algumas resenhas levantaram questões sobre o caráter inacabado da obra. Num posfácio incluído na edição espanhola (e reproduzido na brasileira), Echevarría esclarece que o texto publicado corresponde à última versão de cada uma das cinco partes deixadas por Bolaño. Em 2009, porém, o jornal “La Vanguardia”, de Barcelona, anunciou a descoberta da suposta “sexta parte” de “2666”, que retomaria a narrativa de um dos protagonistas do livro, o professor chileno Oscar Amalfitano.

Em entrevista por e-mail, o crítico Ignacio Echevarría diz que esses rascunhos são apenas “linhas exploratórias descartadas” pelo autor. O crítico também diminui a importância dos textos inéditos encontrados nos arquivos da casa de Bolaño, no balneário catalão de Blanes, como a novela “O Terceiro Reich”, recém-lançada na Espanha.

— Até onde eu sei, os inéditos que podem ter sido conservados ou são obras iniciais que ele mesmo decidiu não publicar (como “O Terceiro Reich” e provavelmente “Diorama”) ou textos fragmentários, esboços (como “Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora”). Em todo caso, nada que vá alterar substancialmente a figura e a entidade do escritor que todos já conhecemos — diz Echevarría.

Uma nova geografia literária da América Latina

Relevância literária à parte, os inéditos movimentam a indústria que se ergueu em torno do nome de Bolaño. “O Terceiro Reich” já foi publicado em Portugal e chegará em breve aos EUA e ao Brasil. A tradutora Natasha Wimmer, responsável pelas versões norte-$de “Os detetives selvagens”, “2666” e da novela inédita, se diz surpresa com o sucesso do chileno em seu país. Embora reconheça que houve certo exagero nos rumores sobre a vida pessoal do escritor, ela acredita que hoje a atenção de leitores e críticos americanos está mais voltada para sua obra. Natasha cita como exemplo disso o prêmio concedido a “2666” pelo National Book Critics Circle em 2009, feito inédito para um livro póstumo e traduzido.

— Há uma combinação de motivos para o sucesso dele nos EUA. Em primeiro lugar, a fluência sedutora e a ambição estonteante de “Os detetives selvagens” e “2666”. Num plano mais abstrato, acho que Bolaño cria uma nova geografia mental para os leitores dos EUA, redefinindo a literatura latino-americana em suas mentes como algo urbano, cerebral e global, em vez de rural, mágico e local. Também acho que Bolaño é lido aqui como uma espécie de visionário, alguém que esteve nas margens esfarrapadas do mundo industrializado e viu o futuro distópico daquele mundo — diz Natasha por e-mail.

A versão brasileira de “O Terceiro Reich”, ainda sem data de lançamento, está a cargo do tradutor Eduardo Brandão. Responsável por quase todas as obras de Bolaño publicadas no país (com exceção de “Estrela distante”, traduzida por Bernardo Ajzenberg), Brandão vê uma continuidade entre os dois principais livros do chileno:

— São dois romances que contam sagas latino-americanas. “Os detetives selvagens” fala de uma geração de refugiados, que também é a minha, pessoas que deixaram seus países por questões políticas ou sociais. Já “2666” fala de refugiados econômicos, das levas de imigrantes que buscam a fronteira do México com os EUA — diz por telefone Brandão, para quem o público de Bolaño no Brasil é formado por um número crescente e fiel de leitores.

“A posteridade é um mal-entendido”

A esses leitores fiéis, o crítico Ignacio Echevarría recomenda que ignorem as lendas a respeito de um escritor que “não acreditava na posteridade e sentia, por isso mesmo, fascinação pelo esquecimento, pelas empreitadas falidas e pelos poetas ignorados”:

— Não é o escritor que inventa sua posteridade e sim a posteridade que inventa os escritores. Como Borges disse a respeito da fama, a posteridade também é um mal-entendido. Mas a obra de Bolaño durará. E chegará o dia em que será preciso abrir espaço através das lendas em busca do verdadeiro Roberto, que terá se tornado, então, um dos escritores secretos que tanto admirava.

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

onze + 5 =

ao topo