As lições de Steiner

Por José Castello
O GLOBO

Professores reclamam, cada vez com mais espanto, de uma inversão de valores que vigora, hoje em dia, nas escolas, colégios e universidades. Em vez de fascínio e respeito pelo mestre, os alunos tendem a vê-lo só como um subalterno, pago pelos pais e a serviço do mercado de trabalho, que ali está para cumprir tarefas, atender os desejos de seus discípulos e, sobretudo, expedir diplomas. É uma inversão que joga por terra o magnetismo que, há séculos, envolve o ofício de ensinar, e que destina aos professores o papel deplorável de meros atravessadores do saber. Ela se alinha a uma visão, cada vez mais comum, da escola e da universidade como centros de treinamento técnico, voltados unicamente para as demandas de mercado e sem nenhuma relação com o conhecimento. E destrói, lentamente, a imagem do professor como mestre, que vem desde a mais remota antiguidade.

Em um momento tão delicado, provoca grande interesse a leitura de “Lições dos mestres”, do crítico francês George Steiner (editora Record). Um bravo ensaio sobre a arte de transmissão do saber, ancorado na idéia incômoda de que, para o sucesso da aprendizagem, não basta haver grandes mestres, é preciso também que se formem discípulos à sua altura. Não é fácil ser um mestre. “O que dá a um homem ou uma mulher o poder de ensinar a um outro ser humano, de onde provém essa autoridade?”, Steiner se pergunta. De um lado, estão os professores que arrasam psicologicamente seus discípulos, “o pedagogo destruidor de almas”, como Steiner prefere chamá-los. No outro, para que a coisa não seja reduzida a uma questão formal de autoridade, aparecem os alunos que traem, que derrubam e que arruínam seus mestres. Entre eles, sugere o ensaísta, ficam a confiança e a troca, bases da aprendizagem. Existem, porém, algumas pré-condições para que a transmissão do saber possa, de fato, se dar. Antes de tudo, diz Steiner, é necessário que a imagem do mestre esteja, como ocorre desde a antiguidade, cercada não de respostas, mas de perguntas. Isto é, que exerça, primeiro, um forte fascínio, que desafie e leve o aluno a pensar. “Na antiguidade clássica, mestres fundamentais, como Anaximandro, Xenófanes e Íon de Chios, eram por vezes considerados um tanto misteriosos”, ele rememora. O mistério nada mais é que uma pergunta que não se pode responder.

Foram tempos em que a transmissão oral, e não a escrita, serviu de base para o ensino, o que fazia da relação entre mestre e discípulo um laço, antes de tudo, de caráter pessoal. Nada de professores com microfone em punho, a saltitar sob holofotes e a distribuir apostilas milagrosas, como encontramos, hoje, nos colégios de massa. Contudo, se o mestre deve preservar certa aura, e exercer uma atração irresistível sobre seus alunos, ele não pode perder, um só minuto, a consciência do perigo contido no ofício que pratica. “Ensinar seriamente é pôr as mãos no que há de mais vital no ser humano”, resume Steiner. “Um mestre invade, força a abertura, é capaz de devastar a fim de purificar e reconstruir”. O ensino ruim, burocrático, sem entusiasmo, ele nos diz, destrói as esperanças do discípulo. Pode matar sua vontade de saber e, até, sua vontade de viver. “O mau ensino é, quase literalmente, assassino e, metaforicamente, um pecado”, acrescenta. Ao reduzir a quase nada o assunto apresentado, o mau professor diminui o aluno, impregnando sua sensibilidade com o mais corrosivo dos ácidos: o tédio.

Ensinar, portanto, é seduzir. Mas é preciso, também aqui, ser delicado. Quando se propõe a ensinar, o mestre tem nas mãos algo muito íntimo de seus alunos, diz Steiner: a matéria frágil e inflamável de suas possibilidades. “Ele toca no que concebemos como alma ou as raízes do ser”, comenta. Professores que se põem a ensinar burocraticamente, sem uma grave apreensão diante dos riscos envolvidos no que faz, se tornam frívolos e desinteressantes. É preciso um certo fogo, ou a transmissão não se dá.

A mais lendária narrativa do ensino como sedução está em “O banquete” de Platão. “Nenhuma descrição dos sentimentos de um discípulo em relação a seu mestre supera a de Alcibíades”, Steiner rememora. De maneira compulsiva, Alcibíades insiste em falar no estranhamento que a figura de Sócrates lhe provoca. Apesar de suas tentativas _ sempre frustradas pelo mestre _ de ter relações sexuais com Sócrates, o discípulo deixa claro que não é dos dotes físicos do outro que emana a sedução. Alcibíades é enfático ao descrever a feiúra de seu mestre, com um repulsivo nariz de bulbo e corpo atrofiado.

Ao longo de todo o diálogo, o que se enfatiza é a noção do mestre socrático como “um despertador que nos desperta da amnésia”, como Steiner define. Para isso, é preciso haver um tipo muito específico de sedução, que nada tem a ver com a atração carnal. “O erotismo, disfarçado ou declarado, fantasiado ou realizado, está entretecido no magistério”, admite Steiner. Sedução que hoje, em um mundo que tudo banaliza, costuma ser convertida na idéia, repulsiva e intolerável, do assédio sexual.

Também o mestre, é bom acrescentar, deve estar seduzido pelo exercício da transmissão. Num desabafo pessoal, Steiner recorda uma pergunta que o tem atormentado, perseguido e constrangido durante toda a sua vida de professor: “Por que razão sou remunerado, por que me dão dinheiro para fazer o que é a minha razão de ser?” Só grandes mestres, como George Steiner, que já lecionou em Oxford, Stanford, Princeton, Harvard e Yale, chegam a formular, serenamente, essa pergunta. Só o excesso de amor justifica a pergunta sobre o amor. Grandes mestres carregam um magnetismo especial _ ainda que seja desse mesmo magnetismo que, ao final, o discípulo precisa se livrar. Mestres como Sócrates e Jesus, Steiner compara, homens que dispensaram a linguagem escrita e que se comunicaram face a face de propósito, ele recorda uma piada que circula nos corredores de Harvard a respeito da impossibilidade de Jesus de Nazaré vir a ser contratado como professor da casa. “Um bom professor, mas não publicou”, dizem a seu respeito. Em um tempo de doutorados e pós-doutorados, também Sócrates seria posto no olho da rua. Pode-se pensar ainda, sugere Steiner algumas páginas à frente, na história macabra que envolve o escritor checo Frans Kafka e seu grande amigo Max Brod. Como se sabe, pouco antes de morrer, Kafka pediu ao amigo que queimasse todos os seus livros. Morto Kafka, o fiel Brod se enche de aflição e de indecisão. Deve queimar os livros, ou não? O que deve considerar mais grave: trair o amigo, ou trair a literatura? Inquieto, ele desabafa com outro amigo que, impiedoso, depois de ouvi-lo, sugere: “Max, eu tenho a solução. Por que você não queixa seus próprios livros em ligar dos dele?” Brod tinha a fama de ser um escritor inspirado, mas prolixo e retórico. A piada exemplifica a relatividade que cerca o valor da palavra escrita.

De fato, na era das dissertações, dos papers e das impressoras a laser, a palavra escrita está, irremediavelmente, associada à imagem do professor. Mas talvez a palavra oral seja a mais adequada, sugere Steiner, para a transmissão de “histórias em aberto, que provocam uma desestabilização na alma humana”. Menos fixa, mais vaporosa, ela suporta melhor a incerteza e a inconstância que reinam no caminho do conhecimento. O apego ao “já lido” e ao inferno das citações, hoje tão valorizado, não é necessariamente prova de valor. A esse respeito, Steiner refaz o mapa das citações na Divina comédia, de Dante. Ele contabiliza noventa citações de Virgílio no “Inferno”, trinta e quatro mais adiante no “Purgatório” e apenas treze no desfecho, no “Paraíso”. “Esse diminuendo preciso corresponde à dependência decrescente do discípulo em relação a seu mestre”, observa. Ao contrário do que ensina hoje o protocolo acadêmico, quanto mais avançado está o discípulo, em menos citações ele se ampara. Quanto mais sabe, menos depende da palavra do outro.

As relações entre mestre e discípulo incluem, necessariamente, algo de diabólico _ no sentido de desestabilizador, de perturbador. Um dos exemplos mais extremos desse elo, sugere George Steiner, foi a relação entre os filósofos Edmund Husserl, mestre, e Martin Heidegger, discípulo trinta anos mais novo. O velho Husserl, que havia perdido um filho na Primeira Guerra Mundial, convence-se, com rapidez exagerada, de que o jovem Heidegger seria seu herdeiro espiritual. Satisfeito com a companhia constante do discípulo, a quem converte em assistente, o iludido Husserl não se dá conta de que, lentamente, Heidegger dele se desvia e, logo, o ultrapassa. Até que Edmundo Husserl começa a perceber que seus próprios alunos desaparecem de suas aulas, para assistir as aulas de seu assistente. Lentamente, Martin Heidegger toma seu próprio caminho, desfazendo-se da figura do mestre. “O discípulo tudo deve ao mestre, exceto sua genialidade”, Steiner comenta. As diferenças políticas _ Husserl, um resistente ao nazismo, e Heidegger, um entusiasmado simpatizante _ tornaram essa distância ainda mais dramática. Quando Husserl é isolado pelo regime do Führer, Heidegger, que tem a simpatia do regime, nada faz para aliviar sua situação. Quando Husserl, enfim, morre, ele não comparece aos funerais, por “estar acamado”. “Este é um dos episódios mais tristes da história do pensamento”, resume Steiner, enojado. Mas é também, pode-se acrescentar, um dos episódios mais reveladores. Apesar da repulsa provocada pela idéia de um Heidegger ligado ao nazismo, ele sintetiza a luta silenciosa, mas mortal, que se trava na relação, em qualquer relação, entre mestre e discípulo.

Pois é da diferença e do atrito que mestre e discípulo tiram sua grandeza. Alberto Caieiro, o mais famoso heterônimo do poeta Fernando Pessoa, era o mestre de outros dois heterônimos igualmente célebres: Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Na primeira vez em que se encontraram, Campos ouviu de Caieiro uma primeira frase perturbadora: “Tudo difere de nós e é por isso que existe”. A ênfase na diferença é a primeira lição transmitida por Caieiro a seu discípulo. É preciso diferir para poder existir. Idéia diante da qual, relata Steiner, “o discípulo experimenta um choque sísmico”, ou, como podemos dizer de modo mais simples, ele cai em si. Dizendo ainda de outro modo: ao ouvir a primeira sentença de Caieiro, e só ela, Álvaro de Campos é imediatamente seduzido e, com isso, se coloca no lugar de discípulo. Refletindo mais tarde a respeito desse encontro, Álvaro de Campos nos fornece outra revelação não menos desnorteante: “E a partir de então, para melhor ou para pior, eu tenho sido eu”. Foi ao alijar o discípulo de qualquer ilusão de semelhança que Caieiro permitiu que ele viesse a nascer. Quanto mais se multiplicava em heterônimos, isto é, em diferenças, também Fernando Pessoa era mais ele mesmo.

Em seu belo livro, George Steiner mostra, enfim, que a transmissão do saber não é, unicamente, a transferência de conteúdos de um sujeito para outro, como o despacho de verdades embaladas. Mais que produzir certezas, ensinar, ele afirma, é despertar dúvidas no aluno e treiná-lo não para concordar, mas para divergir. Não é por outro motivo que os bons alunos “matam”, metaforicamente, seus mestres, quer dizer, que eles os superam. Em “Assim falou Zaratustra”, o espetacular livro de Friedrich Nietzsche, o herói ordena a seus discípulos: “Agora deixem-me!” Também para Steiner, ensinar é preparar o discípulo para partir. “O verdadeiro mestre deve, no final, estar só”, ele diz. (Nota: este texto, que aqui publico seguindo o pedido de amigos, foi publicado originalmente, há uma década, no site “Nomínimo”).

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